Alfredo Brochado: poeta renascentista e (ignorado) combatente republicano

Alfredo Brochado: poeta renascentista e (ignorado) combatente republicano

0 comentários 🕔00:14, 01.Jan 2014

Alfredo Brochado nasceu na freguesia de S. Gonçalo, concelho de Amarante (norte de Portugal), a 3 de Fevereiro de 1897. Era filho do Dr. Alberto Vicente da Cunha Brochado e de D. Eulália da Conceição Monteiro Brochado. Concluídos os estudos do curso complementar de letras (com inglês) no Liceu Central Alexandre Herculano, no Porto, a 22 de Julho de 1915, com a nota final de 15 valores, matriculou-se nesse mesmo ano em Direito na Universidade de Coimbra, curso que concluiu em 17 de Dezembro de 1921.

Em termos profissionais, foi nomeado, a 30 de Janeiro de 1922, subdelegado do Procurador da República na comarca de Amarante. A 15 de Agosto seria exonerado, a seu pedido, desse lugar, por ter sido nomeado Terceiro Oficial da Secretaria da Presidência da Relação de Lisboa. Numa certidão, passada a seu pedido, pela Repartição da Direcção-Geral da Justiça, a 20 de Maio de 1948, é referido como sendo então segundo oficial da Repartição Administrativa da Relação de Lisboa. Quando faleceu, em 16 de Maio de 1949, exercia funções na Procuradoria-Geral da República.

As circunstâncias da sua morte (suicídio por enforcamento), ocorrida em Lisboa, continuam ainda hoje por apurar. Em 1952, Zur-Aida Esaguy, musa e noiva espiritual do poeta amarantino, afirmava que Alfredo Brochado “não era um suicida”, já que “amava a vida em todas as suas manifestações”. Ao pretender levantar um pouco o véu dessa fatal decisão, acabaria, paradoxalmente, por adensar ainda mais o nevoeiro sobre o nefasto acontecimento, ao escrever:

“Mãos inábeis contribuíram para avolumar a crise nervosa que o precipitou no desespero: em terreno preparado, não se podia explorar, sem que a derrocada se desse.

O seu último domingo, tão aliteratado por alguns inconscientes literatos, passou-o a meu lado, como o vinha fazendo havia dezasseis anos.

E nesse domingo, encostando a fronte ao meu peito cansado, disse-me a chorar: ‘Não perdoo, Aidinha!…’. Nunca mais pude esquecer essas palavras!”.

A explicação desse último domingo, concluía Augusto d’Esaguy, “nunca ninguém a conhecerá”. Alfredo Brochado, “não era fisicamente um doente”; tinha até “a constituição dum lutador”. Vivia, porém, sobressaltado, receando a doença e temendo a morte. Perseguido pela “visão” de um António Nobre tísico, atormentava-o a ideia da tuberculose. Dividido entre “ser e não ser, existir e não existir”, foi contaminado pela dor, que passou a encontrar, a ver e a sentir “nas coisas que tocava, nos olhos que fitava”. Real ou imaginária, fez da dor “a sua companheira inseparável”.

Como poeta, dele disse Manuel Mendes, outro dos seus mais estremecidos amigos, Alfredo Brochado “foi uma espécie de boémio enamorado da tristeza”. O retrato, físico e moral, que dele nos deixou Vitorino Nemésio, que ainda o conheceu nos seus tempos de Coimbra, confirmam esse inapagável traço do seu carácter, ao descrevê-lo assim:

“Tinha o condão pessoal de exumar os tempos idos. Ele era magro como os rapazes antigos. Ele era triste mas discreto como se nos afigurava António Nobre. Ele era insinuante e delicado – bom exemplar, em suma, da tristeza portuguesa…”.

Seu conterrâneo e amigo foi Teixeira de Pascoaes, que logo em 1918 (numa época em que, incógnito estudante de Direito, raros eram ainda os poemas que dera a conhecer), o descrevia, nos Poetas Lusíadas, “caminhando a medo, através das mágoas que o perseguem”. Para o autor de Marános, Alfredo Brochado, era, em suma, “uma destas almas, eleitas das Musas ou da Dor, que nascem sem pele protectora contra os ásperos contactos do mundo”.

Em 1937, em entrevista ao Diário de Lisboa, questionado sobre o que havia publicado até então, respondeu:

“Livros não tenho publicado. Só uma plaquete. O livro dos meus poemas está esperando a sua hora, na gaveta”.

Crente de que a poesia fugiria cada vez mais “do exterior, do superficial, para nos dar apenas os pontos culminantes da alegria e dos sofrimentos humanos”, Alfredo Brochado questionava-se se o seu livro viria acrescentar alguma coisa ao que já fora feito. Não o cria. E justificava deste modo esse seu cepticismo:

“Quando muito será a documentação de um anseio, o itinerário sentimental de uma alma que, soçobrando aqui, erguendo-se acolá, há-de chegar ao fim da vida envolta num sonho que, mais pesadelo que fantasia, é a pura essência dos meus versos”.

Quem o conhecia sabia que Alfredo Brochado era sincero quando questionava o valor e, sobretudo, a utilidade da sua poesia. “Esteta comovido e recelado”, como dele disse Vitorino Nemésio, guardava os seus “poucos, e por isso sérios versos, para a melhor ocasião que nunca chegava a vir”.

Esses versos, porém, “duma simplicidade tão límpida de quem até nos subterrâneos com teias de aranha só encontra pureza”, eram “suficientes” para que durante muitos anos se ouvissem “os sinais dos seus passos na Terra”. Assim o pensava (e o dizia) José Gomes Ferreira. Não se podia, pois, deixar que o poeta se apagasse “na morte como ele próprio se apagou na vida, discreto, recolhido e subtil”.

Em 1949, os poemas que dispersou por revistas e jornais foram recolhidos parcialmente num volume intitulado Bosque Sagrado. A sua estreia literária ocorrera em 1918, na revista Audácia, de Vila Nova de Gaia, versos que aí mereceram entusiástico acolhimento. O director dessa publicação, o poeta António de Sousa (que então escrevia sob o pseudónimo de António de Portucale), logo a abrir o artigo em que os apresentava, dizia:

“A Arte poentina, cristianíssima, cheia de Vago, de Alfredo Brochado é, hoje, na Coimbra lendária dos Poetas e dos Poemas, a mais clara afirmação de talento que eu conheço”.

O poeta de Amarante, porém, persistia na sua atitude de discrição e recolhimento. Como dizia Pascoaes, “escrevia e escondia… ou medroso de si mesmo, ou vítima de um desânimo inato ou constitucional da sua índole delicadíssima”.

Apesar disso, e embora de forma irregular, os seus poemas acabariam por surgir em mais algumas revistas (Ícaro, A Tradição, A Águia, A Nossa Revista, Tríptico, Labareda, A Revista, Semana Portuguesa, Seara Nova e O Século Ilustrado), bem assim como em alguns jornais (Flor do Tâmega, O Mundo, Diário de Lisboa, O Diabo e Diário Popular).

A par da sua parca produção poética, Alfredo Brochado publicaria igualmente vários textos em prosa, de género variado, tanto em revistas (A Tradição, A Nossa Revista, A Águia, Labareda, Seara Nova, Ilustração e Semana Portuguesa) como em jornais (Flor do Tâmega, Folha do Norte, A Tribuna, O Mundo, O Império Português e Diário da Noite).

Os seus textos de intervenção política, maioritariamente publicados no diário portuense A Tribuna, merecem particular atenção, porque, a meu ver, contrariam muito do que disseram e escreveram os seus contemporâneos. De facto, no plano dessa intervenção, Alfredo Brochado esteve muito longe de ser o “burocrata silencioso” de que falava Vitorino Nemésio, já que, de Outubro de 1923 a Maio de 1925, publicaria, no referido diário, cerca de duas dezenas de artigos.

Em termos político-sociais, esse ano e meio foi crucial para o destino da Primeira República. De facto, as recomposições partidárias então ocorridas, a esperada cisão esquerdista no PRP (que acabaria por acontecer ainda em 1925), o aumento da instabilidade governamental, o crescente desprestígio do Parlamento, a organização das chamadas Forças Vivas, a pressão exercida pelos sectores mais conservadores da sociedade para que o exército fizesse “ouvir a sua voz” eram factores que prenunciavam o colapso do regime, situação que acabaria por se concretizar em 28 de Maio de 1926.

Republicano e nacionalista, a exemplo da chamada Geração de 90, o republicanismo de Alfredo Brochado não nasceu, porém, da observação atenta, científica, dos fenómenos político-sociais do seu tempo. Longe de ser positivista, o republicanismo de Alfredo Brochado era de raiz sentimental, diria mesmo saudosa: remontava ao infausto episódio do 31 de Janeiro de 1891, melhor dizendo, à memória (mitificada seguramente) que dele lhe chegou enquanto estudante liceal no Porto.

Tocado pelo exemplo de abnegação e sacrifício dos revolucionários portuenses, nunca passava junto do monumento aos vencidos, erguido junto a uma das entradas do cemitério do Prado do Repouso, “sem um estremecimento e sem sentir que essa revolução tinha qualquer coisa de sagrado”. Para Alfredo Brochado, tudo o que acontecera na revolta de 31 de Janeiro se impunha “ao respeito e à consideração” do povo português:

“O seu fim triste, a dignidade e o orgulho dos vencidos, a sinceridade dos que se bateram; a inteireza dos seus caracteres; o momento histórico em que foi feita, as causas que defendia”.

Apesar do seu infeliz desfecho, concluía Alfredo Brochado, a semente fora lançada à terra. Desde então, “nunca mais se perdeu a fé”; a República haveria de chegar.

Admirador confesso de João Chagas, a quem, pela sua combatividade e idealismo, coloca ao lado de Sampaio Bruno, Basílio Teles e Teófilo Braga, em Março de 1924 Alfredo Brochado saudava o anunciado regresso ao jornalismo desse precursor do 31 de Janeiro. Em sua opinião, João Chagas tinha direito a ser escutado atentamente por patriotas e antigos republicanos. Também os novos republicanos muito teriam a aprender com as suas palavras e com a sua experiência de vida, que assim justificava:

“Talentos da sua envergadura estão a ser precisos para orientar o país, evangelizá-lo, conduzi-lo num verdadeiro sentido republicano e democrático, nesta hora em que um aviltante e snob acepticismo político, de mistura com o mais torpe egoísmo, se vai apoderando dos espíritos, ansiosos somente, e cada vez mais, de oiro e mais oiro”.

Atento aos ventos políticos que sopravam de França, cujo eleitorado dera, em Maio de 1924, a vitória ao Cartel de Gauches (que juntava radicais e socialistas), Alfredo Brochado não tinha dúvidas em afirmar que, também em Portugal, a hora era “das esquerdas” e que assim seria “cada vez mais”. Podiam, pois, por muitos que fossem, “alimentar sonhos de restauração monárquica e de teocracias milagrosas”; tudo isso, porém, não tardaria a passar “para o campo das puras teorias históricas”. Pela sua parte, enquanto republicano, diria apenas que nunca os conservadores quiseram o poder senão para desprezarem, em seu proveito, aquilo a que chamam povo, com desdém”.

O republicanismo de Alfredo Brochado não lhe obnubilava a visão crítica que tinha de algumas instituições. Assim, não deixou de se insurgir “contra a forma pouco edificante” como funcionava o Parlamento, censurando “o desleixo” de muitos deputados”, facto que desprestigiava o regime. De qualquer modo, a seu ver, isso não justificava a “forma agressiva e acintosa” como os jornais monárquicos vinham atacando a República, resvalando “facilmente, para o campo das injúrias, das calúnias, do derrotismo”. Dessa campanha resultava, naturalmente, um “efeito deletério e anti-patriótico”.

Alfredo Brochado defendia, pois, a par das medidas que visavam o bem-estar e o conforto material das populações, sem o qual não haveria democracia, a necessidade de se fazer “a República nas almas”. Só assim, através “desse ideal”, os homens não se deixaria “contaminar mais pelos seus ódios, vaidades e interesses mesquinhos”, só assim se encaminhariam “para um melhor estado de perfectabilidade social”. Daí, em seu entender, também a necessidade de escrever (para divulgação nas escolas) uma História da República, “em linguagem simples, colorida, que fizesse a apologia da República como dum credo religioso e onde se descrevesse a vida e a obra dos apóstolos do novo regime”.

Este livro, obrigatório nas Escolas Primárias Superiores, seria fundamental para que “a ideia moderna da Pátria começasse a orientar, de muito cedo, o espírito dos que aprendem, varrendo para longe as sombras do catecismo asfixiante que a maior parte traz de casa”. A não ser que se criasse, “de baixo para cima”, a opinião republicana do país “acabaria inexoravelmente por morrer”.

No segundo semestre de 1924, grandes e médios capitalistas constituíram uma associação de carácter político-económico intitulada União dos Interesses Económicos, força que concorreria às eleições legislativas de 1925, conseguindo representação parlamentar na Câmara dos Deputados e no Senado. Alfredo Brochado, a exemplo de outros republicanos, combateu frontalmente essas auto-intituladas Forças Vivas. Concordava com os que lhe haviam dito ter sido a Guerra “a maior indústria que se montara na terra”. Se os pobres voltavam pobres, os que ficaram e se dedicaram ao comércio e à indústria, mormente os “que se meteram a especular, a açambarcar, a fomentar a alta de preços dos géneros de primeira necessidade”, esses passeavam-se “em ricos automóveis, ostentando luxuosos vestuários, frequentando os mais caros hotéis, vestindo como princesas e rainhas as filhas e as mulheres”.

Enquanto isso, o povo humilde calava-se. Havia, pois, que pedir contas e fazer cumprir as leis, já que, em sua opinião, “entre os espoliadores e os espoliados” era fácil saber de que lado estava “a razão e o direito”.

Pensamento semelhante era o do advogado José Domingues dos Santos, que, como líder da facção canhota do PRP, formou governo em Novembro de 1924. Tendo por lema “Liberdade, Pão e Instrução”, esse governo estabeleceu implicitamente uma espécie de contrato social com os trabalhadores. Entre as suas principais medidas, destaque-se a proposta de Reforma Bancária, do ministro Pestana Júnior, fortemente contestadas pela direita (incluindo o sector bonzo do PRP), que não descansou enquanto não correu com o político portuense que ousava dizer que o seu governo estava “abertamente ao lado dos explorados contra os exploradores”.

Alfredo Brochado não tinha dúvidas de que era preciso “marcar posições”. De um lado estavam os que eram “pelo povo em nome da democracia”; do outro lado, os que defendiam meia dúzia de senhores feudais do capitalismo em nome do predomínio do dinheiro”. A hora era, pois, “decisiva”. A sua posição era clara, ao afirmar:

“Por mim, digo-o abertamente, que nunca recebi um centavo da República, nem amo a política em nome de um interesse, ou por simpatia pessoal como A ou B, não faço coro, nesta questão, nem nas que se lhe vão seguir, com os inimigos do povo.

Do povo sim, nunca perderei de vista as suas aspirações, nem por ser bacharel o hei-de renegar, servindo os seus exploradores como muitos”.

A “celeuma” que a propósito da reforma bancária se gerou no Parlamento, em alguns jornais e nas associações comerciais não se podia, pois, justificar, se encarada “essa disposição à luz dos sagrados interesses nacionais”, que eram, não o duvidava, “alguma coisa de mais alto e digno de respeitar do que os interesses de meia dúzia de potentados, que nunca ninguém viu auxiliar o país”.

Mesmo sem o referir expressamente, a queda do governo de José Domingues dos Santos, ocorrida em Fevereiro de 1925, desgostou profundamente Alfredo Brochado. Afirmando que nunca o PRP tivera “características das direitas”, antes fora sempre, “mormente nos momentos de maior glória, um partido abertamente das esquerdas”, não compreendia como é que alguns políticos, que se haviam servido do povo “para subir”, dele agora se afastavam, constituindo “quase um crime” reproduzir algumas das frases pronunciadas durante o tempo da propaganda, nomeadamente as que elogiavam as camadas trabalhadoras, que foi “a arma de que lançaram mão os propagandistas da República, para investir contra um trono carcomido”.

O PRP tinha, pois, “de ser um partido integrado nas aspirações do momento”. Tinha “de ir beber ao povo das cidades e dos campos”, ao povo que “acorria aos comícios para ouvir o verbo eloquente e inflamado de Alexandre Braga e António José de Almeida”, as energias para a luta de que necessitava “empreender em favor da Pátria”.

Não havia que temer a aproximação aos trabalhadores. Se isso podia compreender-se entre “palacianos”, não se compreendia “entre aqueles que uma forte corrente de doutrinas democráticas educou”. “Estranhos” e “incompreensíveis eram, pois, esses republicanos que traziam a República “nos lábios” mas não “no coração e no cérebro”. A esses não os entendia, pois não bastava que se dissessem democratas: era preciso, isso sim, que o fossem “insofismavelmente”.

Não ignorando o papel demolidor que alguma imprensa vinha desenvolvendo em prol do desprestígio do regime, nomeadamente o diário O Século, a quem Alfredo Brochado acusava de “sofismar, com os seus artigos pagos a tanto por linha, a verdade dos factos”, era sua convicção que o povo sabia muito bem quem estava “na boa doutrina política republicana e patriótica” e quem, pelo contrário, “jesuiticamente, sob a aparência de salvaguardar interesses nacionais”, no fundo, apenas defendia, “gananciosamente, os seus apetites vorazes e descomunais”.

Perante tudo isso, face a esse “dilema”, o caminho era apenas um: o que levara a Belém, a 13 de Fevereiro, numa manifestação gigantesca, o “heróico povo de Lisboa”, para afirmar ao Presidente da República, Teixeira Gomes, que não aceitaria “um governo onde a plutocracia dominasse”.

Que se desenganassem, pois, também aqueles que vinham apelando aos militares para fazerem ouvir a sua voz. Não, não acreditava que o exército se prestasse a essa “farsa”, a essa “tarefa inglória” a que, entre outros, o incentivavam a fazer Cunha Leal (então ligado ao Partido Nacionalista) e Trindade Coelho, director de O Século. Ninguém de bom senso, que se dissesse patriota e republicano poderia desejar uma revolução, até porque uma revolução acabaria por chamar “por outra mais feroz”, que acabaria por gerar “uma cadeia interminável e macabra de vexames, vinganças e prepotências”.

A revolução, melhor dizendo, a tentativa revolucionária acabaria por acontecer a 18 de Abril. Retirado por alguns dias no ”remanso solitário” da sua aldeia, Alfredo Brochado não deixaria de fazer um balanço dessas horas a que lhe fora dado assistir, em Lisboa. As suas homenagens iam, desde logo para Teixeira Gomes, pelo exemplo de coragem e de sobriedade de que dera então mostras, mantendo-se, imperturbável, “no meio do perigo”. Concordava, pois, com a frase feliz de O Mundo, que definia o Presidente da República como “a própria alma da República”. Recordava aos seus leitores que, logo no início do mandato presidencial, traçara o elogio de Teixeira Gomes, uma escolha acertada para a chefia do estado, a que, incompreensivelmente, num “gesto inqualificável” se não associara o Partido Nacionalista. O “gesto de grande nobreza”, de repelir o ultimatum que, no Quartel do Carmo, lhe fizera o general Sinel de Cordes, um dos chefes dos revoltosos, ficaria na história “como um exemplo de civismo”. Graças, pois, “à sua firmeza sem panache, ao seu carácter impoluto, ao seu democratismo sem retórica”, Teixeira Gomes era “olhado com respeito por todos os republicanos sinceros”.

Dois dias após a publicação deste artigo, Alfredo Brochado regressava ao mesmo assunto, agora para acusar O Século e o seu director pelo criação do ambiente que propiciara a revolta contra o Estado republicano, assacando-lhe, pois, “grande responsabilidade na eclosão do movimento revolucionário de 18 de Abril”.

Desde que se ligara às Forças Vivas e começara a defender os interesses de “comerciantes gananciosos”, O Século transformara-se “num autêntico perigo para a República”. A partir daí, nunca das suas páginas saíra “uma qualquer tentativa de aproximação e entendimento com os governos”. O seu intuito era, antes pelo contrário, “prejudicar o Estado e o povo trabalhador, em benefício de meia dúzia de figurões” que não queriam pagar “ao tesouro nacional” aquilo que lhes devia. Por isso, “as lágrimas vertidas” sobre a suspensão do jornal (que, diga-se, foi temporária) só podiam “cair dos olhos dos reaccionários”.

Convicto de que a República tinha sido tolerante com os seus inimigos, Alfredo Brochado defendia que essa tolerância não acabasse por se tornar “cúmplice dos atentados contra a sua segurança”, que não fosse “tomada pelos seus inimigos como um sintoma de fraqueza”.

Alguns dias mais tarde, assinando um editorial de A Tribuna intitulado “Os da Ordem”, Alfredo Brochado, renovando os seus ataques às Forças Vivas, acabará por cair na tentação anti-semita que caracterizava alguns intelectuais da época, crismando de judeus os banqueiros que se haviam erguido “sobra a carnificina da guerra, numa especulação desenfreada, enquanto os soldados de toda a Europa, peito às balas, morriam desinteressadamente, pela eternidade das suas Pátrias”.

Não eram, pois, como se diziam “agentes da ordem”. Eram, isso sim, os que perturbavam a ordem. Os que gastavam “colunas e colunas de jornal a defender a disciplina social” eram justamente os mesmos que não tinham “pejo de a abalar nos seus alicerces”. Apesar de atacarem “os promotores de atentados, os indesejáveis”, tinham, afinal, “entendimentos secretos” com esses “obreiros da anarquia”. Eles eram, “enfim, o dinheiro posto ao serviço da mentira e do suborno”.

Por tudo isto, afirmava Alfredo Brochado, por ser “um elemento de desordem”, a União dos Interesses Económicos tinha de ser extinta “na sua expressão política e de detentora da opinião pública”, remetendo-se unicamente “aos fins económicos, meramente privados, de classe” para os quais deveria ter sido criada (o que não era o caso), “se os seus organizadores andassem de boa-fé”. O que não era admissível era que houvesse “um Estado dentro do Estado”. Por isso a UIE tinha “de cair”.

Não foi isso, porém, o que aconteceu, como não tardaria a ver-se. A campanha dissolvente, à direita e à esquerda, levada a cabo contra o PRP acabaria por fazer ruir os alicerces do próprio regime, que cairia, com estrondo mas sem sangue, em 28 de Maio de 1926.

Sem militância partidária, e, sobretudo, fruto dos seus deveres profissionais, e da censura que a partir de meados de 1926 se impôs a toda a imprensa, a voz de Alfredo Brochado, a exemplo de outros democratas, acabaria por calar muito do que lhe ia na alma. Não perdeu, porém, as suas convicções democráticas e republicanas, como o prova a sua presença, em Fevereiro de 1930, na sessão inaugural da Liga da Mocidade Republicana de Lisboa, a que presidiu o capitão Costa Alves e que ele próprio secretariou. Foi alguém, como testemunhou Zur-Aida Esaguy “que nunca transigiu nos seus ideais de homem livre que foi sempre igual nos anseios de justiça e de paz”.

Em 27 de Setembro desse ano, em carta a Teixeira de Pascoaes, Alfredo Brochado dava-lhe conta de passava os dias a estudar, já que decidira concorrer ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Como é bom de ver, um diplomata com o seu passado de publicista republicano, comprometido com os sectores canhotos do PRP não convinha, de todo, à Ditadura Militar. A partir daí, sim, tornou-se um “burocrata silencioso”, nas funções judiciais que exerceu. E isso, naturalmente, fez com, ainda nas palavras de Vitorino Nemésio, se tornasse um “homem cansado, introvertido por anos e anos de solidão e de sensibilidade ferida”. Mas apesar de José Gomes Ferreira o considerar “um desses seres estranhos que preferem pôr a poesia na vida, distribuir bondade, fabricar flores com os olhos”, não deixava de ser também (como já o havia notado António de Portucale, em 1918), um homem que tinha “naturais assomos de revolta” perante “o espectáculo quase obsceno” do triunfo da “insulsa Estupidez” que lhe tolhia “o passo”.

Daí que, como escreveu Manuel Mendes, “nas sombras que em sua volta cresciam”, viver se tenha tornado “uma ideia insuportável”. Segundo esse escritor, “nada o podia salvar, se a desventura que o minava era insinuante e calada”.

Numa noite de Maio, Alfredo Brochado, “violentamente, pôs termo ao seu sofrer”. Ainda segundo Manuel Mendes, talvez tenha sido “uma sensação de fadiga insuportável” que fez com que esse “homem meigo e doce”, de “espírito generoso e afável”, não tivesse “piedade de si”, acabando “com o tormento surdo que o desesperava”. Também eu creio ser essa a chave do mistério do suicídio de Alfredo Brochado.

António José Queiroz

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