| monsanto | – poema de Márcio-André

| monsanto | – poema de Márcio-André

1 comentário 🕔00:16, 01.Jan 2014

1.

toda cidade é esboço dela mesma
ou labirinto móvel para cães

e de tanto haver gente sempre nos adequamos a ser outro:
a cidade contém dentro três outras cidades
que nunca se tocam

e somatizam nos habitantes até deformá-los

mas o pôr do sol é sempre esse
desde o principio do sol e do estado das coisas

o pôr do sol que se ama como latão velho
e tudo o mais é variação de pedra

nesta aldeia onde até o deus é de granito
e tem sonhos de pedra

com fêmeas mortais num jardim de areia e pedra

convém fugir dela antes que a velhice chegue
pois também as coisas perecem mais rápido do que percebemos

aqui cada dia é um dia
é preciso partir antes que chegue outro

e é triste notar que nada permanece de nosso
antes mesmo que não se esteja mais aqui

2.

a última estrela da noite vingou na primeira luz da aldeia

foi quando ela veio atravessando os pomares
e as primeiras flores em seu vestido azul
e sentou-se ao meu lado no meio fio
e esperamos amanhecer

3.

este é um templo
como é templo o colar de dentes
desta que agora é minha amante

sua boca que certa vez beijou um folião
no carnaval do engenho novo

desde então tem escama nos dentes
pérolas nos dentes dentes nos dentes

seu corpo é templo por dentro e à volta
maior que toda ela enorme nela
e circunda sua cabeça como um músculo

um templo só pode ser compreendido
de dentro do templo

é no templo que está guardado
esse amor incondicional

somos templo um do outro

4.

a paisagem descola do horizonte

ao pé da fonte comemos tangerinas frescas
enquanto a lua madura num galho baixo

as palavras ganhando massa
na bruma-flor do seu hálito ao frio

simples é pensar nos caminhos que partem desta aldeia
esses trens europeus com trilhos serenos

não foram em vão os favores do vento no cabelo das colegiais
algumas ternas outras safadas

para uma casa ilhada na névoa
seus dois olhos-alimento como erva recém cortada

e esse dia terá sido uma lembrança boa
dentro de um dia bom

não supomos que tão logo seríamos estranhos um ao outro
e a solidão que tínhamos um no outro
terá se tornado mera ausência

5.

um dia dançamos no saguão de um hotel em buenos aires
um dia cuidei de sua costela quebrada

mas irajá não cabia em monsanto
icaraí ou realengo não cabiam
nossas imagens não cabiam na paisagem

quando ela se foi largou os dias
sem ninguém para recordá-los

um dia fêmea uma dia mãe
um dia morta

6.

da memória só sabemos seu nome

ela não existe fora de si
como o tempo não se move fora dela:

a memória só comprova a si própria

equidistante na ida e no retorno
esse caminho do qual nos separamos juntos

estamos na memória como estamos na casa
e nela habitamos sós

quando tudo silencia a música parece ter sido ilusão

monsanto foi o fim de sua própria história
desacontecida conforme contada

as ruas semi-apagadas num sonho velho
lá onde ainda podem ser caminhadas

Márcio-André

1 comentário

  1. 🕔 19:37, 02.Jan 2014

    Ricardo Black

    Para mim que te conheço a quase duas décadas, Marcio-André, ler seu poema é como ver seu retrato. Um auto-retrato no caso.

    Responder comentário

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