Lua de Anatólia

Lua de Anatólia

2 comentários 🕔13:07, 08.Jan 2014

A Ofelia, uma piscadela e um sorriso.

“O senhor do Oráculo de Delfos não diz nem oculta: faz sinais”
(Heráclito de Éfeso)

I

Rustam Ciçek fez um aceno sobre a falua branca que se alçava na noite branca. O gesto amável e decidido sob a lua e os vidros estilhaçados do magnífico serão iluminado. Rustam Çiçek era o capitão inclinado e a melodia do seu sorriso elevava-se ao vento do sol-pôr, punha os seu longos dedos entre os cabelos e a brisa do mar, enquanto Ibrahim cantava, sussurrando, uma canção de berço tão antiga como as rochas da Anatólia. O barco ancorava na praia das Ilhas Afortunadas e uma nova e deliciosa nota procedia das ânforas antigas, dos toneis de vinho, do trigo acumulado, dos basaltos e as flores das ruas em fogo.

- Que a paz seja contigo, ó terra afortunada!- dizia Çiçek
– Que a paz seja contigo, ó terra por sempre amada! -dizia Ibrahim

Os pássaros começavam a reunir-se sobre os telhados vermelhos: as gaivotas embranquecidas, os corvos insones, as corujas pacientes esperavam aos amigos. Cumprimentavam e até falavam na sua linguagem misteriosa e comunicante. Então Ibrahim e Rustam Çiçek ficavam durante um tempo em silêncio, a ouvir as suas subtilezas. Uma grande gargalhada explodia como cores que se espalhavam pela vila de ruas de madeira e janelas de zinco e todas as aves acompanhavam aos arlequins e navegantes da noite.
Oh, a elevada e viva noite das palavras enfeitiçadas, da magia das afinidades secretas, das cumplicidades de pedras e pássaros, de rosas e rochas, e homens de beleza extraordinária!

Clara e Ofélia esperavam no grande pátio da Ilha, no mercado aberto ás estrelas, aos comerciantes fenícios, aos gregos, aos árabes, aos refinados homens das terras de Sião, aos iemenitas ou ás sinuosas e belas mulheres do Indostão. Os matemáticos, os filósofos, os poetas e também os músicos esperavam enquanto as vozes e as notas provocavam um evocativo murmúrio de ancestrais caracolas e planetas longínquos. Os velhos e antigos países da terra se acendiam no peito e nos corações que alumiavam todas as lendas e velhas histórias de chá e amêndoas, de tâmaras e princesas. Clara erguia-se elegante e esbelta, a saia de uma seda selvagem envolvia o seu corpo estilizado, enquanto a sua cabeleira de ouro encarnado tirava os fios do sol que se ocultava no mar azulado e negro.

Rustam Çiçek e Ibrahim olhavam para Clara e Ofélia e respiravam profundamente, e fechavam levemente os olhos, a ouvir, a ouvir…
E tudo conspirava agora nas mais longínquas constelações. Uma remota amizade envolvia o círculo da memória. Um vento assobiava na pele viva da terra, nos corpos maravilhosos de uma arte régia e obscura: eram os olhos de Ibrahim ao contemplar a Ofélia, a dança de Clara e Çiçek que comovia aos filósofos e aos poetas, aos sábios da China, e as próprias Ilhas Afortunadas tremiam de soluços e cócegas.

Canção

Hoje vi as estrelas na mão do meu amado
os seus lábios eram mudos e os seus dedos
eram o suave mel dos meus cabelos
E eu canto toda a noite o velho fado
prendida pelo vento aos tornozelos…

Um beijo de fogo e gelo, um raio vivo
esta noite sou feliz c’o cervo amado
e ofereço as minhas tranças e cabelos
e as pétalas de rosa pelo trigo
ao rei que me prende os tornozelos…

 

II

Olhai agora, ó amigos, os azulejos e os basaltos das fontes antiquíssimas, a elaboração artesanal do conto que flui na noite única. Escutai, pois, as palavras de Rustam Çiçek que pausada e gravemente tece uma antiga história no cenário da Ilha, perante os barcos veleiros e os pátios iluminados, na praça central do mercado. Os vidros e os cafés, os guindastes e as prateleiras, as montras das lojas ocultas na memória, o bazar de cobre sobre tapetes vermelhos, as chávenas e o chá oferecido em silêncio, no silêncio cúmplice de uma fala antiga…

- Houve uma vez, ó nobre e digna gente – dizia Çiçek com um sorriso e uma piscadela de olho – um rei conhecido como Hatim Tai, o homem mais generoso que jamais existiu. A sua prodigalidade e as suas festas eram proverbiais e assim era amado pelo seu povo. Austero e generoso, loquaz e sóbrio, gentil e reservado, combinava em si todos os contrários e paradoxos da humana condição, envolvidos na harmonia de uma sabedoria imemorial. A felicidade e a satisfação reinavam na terra de Hatim Tai.
Mas a inveja e a cobiça ilimitada espreitavam num reino vizinho e um dia a negra ameaça tornou-se real. O pequeno reino de Hatim Tai estava pronto a ser arrasado. Então o nosso nobre rei compreendeu que por muito que se esforçasse em deter o ataque, afinal seriam derrotados, tal era a superioridade do exercito atacante. Deliberou profundamente que estratégia seguir e, finalmente,
tomou uma decisão. Chegou a um trato com o rei vizinho: deixaria o trono e assim se evitaria um derramamento de sangue mas o novo rei devia-se comprometer a manter a situação de direitos e propriedades das que gozavam os seus súbditos.
Hatim Tai fugiu para o monte e tomou o manto dos dervixes.

A um aceno das sobrancelhas de Rustam Çiçek todos começaram a cantar, com especial ardor as crianças.

(Hatim Tai deixou o trono
a um rei falaz, soturno e duro
sem luta, sem raiva, sem fogo
Hatim Tai levava o povo
dentro do seu coração puro!)

A noite era cálida e antiga, e havia uma voz que sussurrava nos corpos, em sílabas apenas intuídas, nas janelas e luminárias de uma rapariga perdida numa cidade longínqua a reler os velhos arcanos de um conto do Talmud. Ou a história do navegante próximo da lua a recordar a rapariga-filósofa, florindo e sangrando no seu coração.
Os pássaros falavam com Ofélia e Clara, animadamente. A coruja, o mocho, o corvo elevavam-se enfebrecidos pela história de Hatim Tai. Ó, Hatim tai, o nosso amado e generoso Hatim Tai- diziam. O corvo, entusiasmado, lançava um pronunciamento profético. A coruja e o mocho balançavam sopesando as suas palavras e, com tenra gravidade, matizavam diplomaticamente as suas fulgurantes expansões do que, inevitavelmente, teria que acontecer.

- Muitos súbditos guardaram a boa memória do rei mas não todos – continuava Çiçek. Alguns começaram a pôr em dúvida os seus atos, pensando que tinha escolhido uma forma fácil de fugir aos problemas sem assumir a verdadeira responsabilidade do seu cargo. Outros não falavam mal dele mas os seus corações arrefeceram como crianças que não compreendem a ausência do pai que deve trabalhar longe para sustentar a família.
A fidelidade e a lembrança que na maioria dos súbditos ainda permanecia firme fez ao rei usurpador proclamar um bando em que se ofereciam mil dinares de ouro ao que capturasse a Hatim Tai. No fundo, era uma permanente ameaça ao seu poder e já estava arrependido de ter feito trato algum.
Um dia Hatim Tai caminhava pensativo pelo bosque quando ouviu uma conversa:
– Se tão só tivéssemos a sorte de prender a Hatim Tai, seriamos ricos e felizes para o resto das nossas vidas, especialmente a tua, pois eu já tenho pouco tempo por diante – dizia um velho lenhador à sua jovem esposa.
– Deverias sentir vergonha, disse ela, de falar desse modo do nosso rei. Ele que se sacrificou a si mesmo pelo nosso bem-estar. Uns poucos mais que pensem como tu e a sua vida terá sido em vão
– Essas palavras são muito belas, mas quem sabe se o não fez pelo seu próprio interesse?. És muito nova e muito ingénua.
Então Hatim Tai, apresentou-se diante do lenhador e disse-lhe:
– Aqui estou. Eu sou Hatim Tai. Leva-me diante do teu rei e obtém o ouro que tanto prezas.

(Hatim Tai deixou o trono
a um rei falaz, soturno e duro
sem luta, sem raiva, sem fogo
Hatim Tai levava o povo
dentro do seu coração puro!)

- Oh, Hatim. Tu és o meu rei. Como poderia eu fazer isso? Perdoa as minhas palavras de fraqueza e estupidez.
Mas nesse momento apareceram um grupo de soldados e apressaram-nos, levando-os todos à corte. O lenhador ia cabisbaixo e sem dizer uma só palavra, como se esperasse uma sentença de morte.
Quando chegaram ao palácio os soldados pretendiam ser os captores de Hatim Tai e assim cobrar a recompensa. Produziu-se uma pequena confusão, quando Hatim Tai pediu falar:
– Majestade, penso que eu devia ser também ouvido. Foi este velho lenhador que me capturou e deve ser ele quem cobre a recompensa.
O lenhador ficou estupefato. Começou a falar:
– Majestade, não foi assim que aconteceu. E contou como Hatim se tinha entregado depois de ter ouvido a conversa com a sua mulher.
O novo rei estava assombrado. Ainda falou a gaguejar:
Oh!, Hatim, que fazer?. Se te mato viverei à sombra da minha vileza escurecido pela lenda da tua generosidade, que se engrandecerá. Se te encadeio será um constante motivo de rebelião, que acabará finalmente comigo, pois ninguém pode dominar de jeito duradouro sem a legitimidade do seu povo. Por favor, recupera o teu trono e aceita-me como amigo, de jeito que a minha riqueza seja que acudas aos meus convites, pois ninguém pode competir com os teus.
Hatim sorriu e disse:
– Está bem, aceito o trono – e pondo a mão sobre o queixo, disse:
– E pensarei o dos teus convites!

(Hatim Tai deixou o trono
a um rei falaz, soturno e duro
sem luta, sem raiva, sem fogo
Hatim Tai levava o povo
dentro do seu coração puro!)

Olhai, amigos, a música das balalaicas do bósforo escrita nas páginas vermelhas do assombro. A dança dos pássaros e as crianças que tingem de gozo o conto de Çiçek enquanto as cumplicidades subtis se elevam com dignidade: os lugares de confiança das mulheres!.
Clara e Ofélia levavam a lua na mão e nos dentes a sorrir, a sorrir…

(continuará)

Sobre o autor / a autora

José António Lozano

José António Lozano

(Galiza)

2 comentários

  1. 🕔 0:59, 09.Jan 2014

    Fernando

    Gostei muito. Um texto bem escrito, bem estruturado que nos prende até à ulitma palavra.
    Abraço

    Responder comentário
    • 🕔 22:51, 09.Jan 2014

      José António

      Muito obrigado, Fernando. Se a uma intenção na minha escrita é a de tecer como que um encantamento para o nosso coração que nos leve a “outro tempo”. Um grande abraço.

      Responder comentário

Escrever um comentário 

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *