Lua de Anatólia (continuação)

Lua de Anatólia (continuação)

0 comentários 🕔18:09, 15.Jan 2014

III

Ó Lua encantada no fundo do poço,
Moirinha da Mágoa!
O balde descia, quimeras de Moço!
Trazia só água…

(António Nobre, Só)

Houve na alvorada um movimento das águas, o verde mar parecia remoinhar-se quando o ferreiro Mago apareceu. O ferreiro Mago há tanto tempo desaparecido!. Carregado de redes e bigornas, o seu cabelo e barba vermelha, o seu manto régio e encarnado e, sobretudo, o seu rosto, sereno e sério. O ferreiro Mago era uma estoica aparição que caminhava pela praia, lento, parcimonioso, como se uma velada tristeza opaca-se a sua figura.
Outrora era o contador de contos que numa dança de espadas deixava que os espectadores recebessem o último bocado da estória como se dum alimento vivo se tratasse. Realmente era um alimento vivo. “O narrador viu que sim, que entendiam… podia continuar” Mas agora parecia transformado. Era o mesmo e não era o mesmo. A última vez jogava uma partida de xadrez perfeita, jogava a sua liberdade cada noite no Pavilhão Vermelho. Era assim…? ou pode que a memória se tenha transmudado?
Houve certa solenidade entre os amigos perante a visita inesperada. Um silêncio inundou a espontânea alegria quando, gravemente, Mago falou…

- Hoje um grande peixe falou-me. Foi uma conversa difícil, pois ele pedia-me mais do que eu poderia nunca oferecer mas consegui um trato. Levaria um sonho dum amigo, um sonho especial. Só isso poderá redimir o vínculo que agora nos une. Alguém de vós pode oferecer-me o seu sonho?
Alguém de vós pode oferecer-me o seu sonho?- repetiu.

Os amigos mostravam-se hieráticos e amáveis. Olhavam com certo distanciamento a Mago. Olhavam-se uns aos outros esperando uma resposta quando Ofélia avançou um passo. O seu vestido de flores e versos, a sua cadência, o seu estilo nobre e compassivo acertou a falar com singular gravidade:

- Querido amigo Mago, durante anos foste uma companhia sóbria e nobre. Sempre foste para nós uma presença que nos conferiu um ponto de estilo e solenidade. A nossa juventude aventureira e alegre sempre foi balançada pela tua estoica virtude. Intuímos sempre em ti sofrimentos não mencionados e destinos submersos. E isso sempre foi para nós um aviso e um jeito de nos manter acordados sem entregarmo-nos, solitários, a um destino feliz mas insulso. Hoje, amigo, quero oferecer-te o meu sonho. Esta noite, enquanto a fogueira ardia perante o mar e as faíscas e as labaredas voavam até as estrelas fiquei levemente adormecida… e um grande peixe veio a mim…

- Que bela es, oh mulher! – dizia o peixe extraordinariamente azul!
– Quem es, que queres?- perguntei hesitante e temerosa.
– Es bela sim mas…
– Mas que?
– A tua beleza não é suficiente… e algum dia será a tua desgraça!- disse o peixe azulíssimo.

Devo dizer que nesse momento senti que a sua voz era maligna e que algo terrível podia acontecer, realmente. Um medo terrível ensombreceu o meu mundo. Tudo parecia perder cor.

- Pensas que sou maligno não é assim? Mas deverias conhecer-te melhor. Pode que eu não seja mais do que um pedaço de ti!

Ele conhecia os meus pensamentos!. Quem podia ser? Uma terrível curiosidade embriagou-me quando ele voltou ao mar. Foi-se afastando rápido, rápido, rindo a gargalhadas. Que terrível riso!
Por um momento fiquei gélida, imóvel, quando o suave zéfiro bateu no meu rosto e senti uma quietude, um calor que acendia o meu ser propagando uma tenra calma.

- Não tenhas medo do peixe azul, filha – disse uma voz suave e maternal. Ele tem razão, ele só é uma parte de ti.

Caminhei pela praia ao vento. A lua era amiga e o mar chamava por mim e eu caminhava, caminhava pelo mar adentro. Comecei a ser rodeada por milheiros de peixes de todas as cores: verdes, brancos, vermelhos, azuis, como um grande arco-íris flutuante. Ao longe um grande veleiro olhava-nos. Os peixes, grandes e pequenos, berravam-me, assobiavam, saltavam diante de mim. Então comecei a me oferecer. Primeiro um pedaço da minha mão. Fui partindo e lançando os meus dedos, os pés. Sentia cócegas e os peixes brilhavam com intensidade. Deixei-me cair nas águas a dissolver-me enquanto as suas bocas me comiam, me bebiam. As cores do meu vestido também se dissolviam e toda eu me expandia no mar. E era feliz, e intensamente alegre. Tudo me fazia cócegas.

Eu estava outra vez na praia, serena e limpa, quando o peixe azulíssimo apareceu. Olhou-me amorosamente e disse:

- Obrigado, amiga. Já estou curado.

Mago fez uma digna inclinação, absolutamente silencioso, revelando um profundo agradecimento perante todos os amigos. Começou a andar novamente solitário. Ao passo dum certo tempo estava no centro do negro mar. Um ponto vermelho no negro mar.

(continuará)

Sobre o autor / a autora

José António Lozano

José António Lozano

(Galiza)

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