Lua de Anatólia (III)

Lua de Anatólia (III)

0 comentários 🕔15:00, 29.Jan 2014

IV

Autum

A touch of cold in the Autumn night –/ I walked abroad,/ And saw the ruddy moon lean over a hedge/ Like a red-faced farmer./ I did not stop to speak, but nodded,/ And round about were the wistful stars/ With white faces like town children.

Outono

Um toque de frio na noite de Outono – Eu ia ao estrangeiro,/ e inclinada sobre uma cerca vi a lua avermelhada/ como um granjeiro de rosto rubro./ Não me parei a falar, mas movi a cabeça,/ e em toda a parte estavam as pensativas estrelas/ com faces brancas como crianças de povo.

(Thomas Ernest Hulme)

Era o tempo da vindima, o outono da luz oblíqua, das primeiras folhas amarelas á beira dos caminhos. Os animais carregados de uvas, e a paisagem tingida da cor das violetas, as roupas embebidas de sangue obscuro, os rostos alegres, luminosos. Os sendeiros da transformação do cobre outonal, o ritmo musical dos trabalhos e dos dias: o magnífico serão de fogo, a noite como uma roda de danças e cantos.

Os amigos contemplavam as filosofias implícitas, a matemática precisa do bailado teatral do mundo.

- Pode ser –dizia Çiçek – que precisemos uma invocação e um encantamento das palavras para que o diálogo alcance o tom preciso, o estilo depurado, a consciência íntima.

- Certamente – diria Ibrahim- não dizemos sintaxe mas “táctica e posições das sementes significantes”.

- Os amigos riam e Clara e Ofélia olhavam o inicio do jogo improvisado mas pautado pela cadência rítmica e gestual.

- Semântica, é na verdade – dizia Çiçek – “a mântica das sementes mentais“. Não nos confundamos. Trata-se de uma “phisis” da compreensão. A palavra deve ser plantada e a cultura é, em realidade, agricultura. Estes são os alicerces. Isto é filosofia – dizia com convicção.

- Deste jeito- ia dizendo Ibrahim- a compreensão da “dinamis” (potência) e a “energeia” (acto) resulta muito mais clara. Então Aristóteles não é o que parece.

- Nada é o que parece! – sentenciava Çiçek.

- Aristóteles oferece um bom húmus- intervinha Clara- onde algumas sementes podem desenvolver-se. Há uma terra onde crescer, há um campo fértil mas pode que o elemento fogo e o elemento ar sejam insuficientes. De facto o cultivo de arroz poderia ser bom aqui mas outras plantas ficariam asfixiadas. Pode que os frutais padecessem. Mas o carvalho poderia ser!

- Concordo, dizia Ibrahim, mas haveria que ver caso por caso. Em alguns lugares o carvalho é ideal mas não, precisamente, o arroz. Não vejo inconvenientes para as laranjeiras ou algum tipo de macieiras, eventualmente.

Clara pôs um gesto hesitante e arquejou as sobrancelhas, algo incrédula.

- Em todo o caso – disse Ofélia – não são campos para ajardinar. Fazer um jardim com o material aristotélico resultaria, finalmente, opressivo. As flores mais delicadas não poderiam sobreviver. As cores mais subtis estragariam, mas concordo que tem muito alimento.

- É evidente que para certas perspectivas há muito negócio mas para nós acabaria por ser uma ruína, não há dúvida – dizia, sorrindo, Ibrahim.

- Estamos a perder o fio do tapete, disse Çiçek. Penso que devemos aproveitar estes momentos um tanto prosaicos para indagar os princípios mesmos, pois tenho ouvido que em certos territórios obscuros fazem uma distinção entre mito e logos tão extrema que suspeito devem ser lugares onde existe uma ditadura tão infame que as sementes nem chegam a nascer.

- Certamente são lugares onde existem palavras sem compreensão, ciência sem princípios e arte sem gratidão – afirmou Clara.

- É algo possível, realmente? – perguntou Ofélia.

E Ibrahim afirmava com gestos de resignação e inquietude:

- Certamente é possível mas não é real!

- Tenho entendido que nos lugares obscuros dos que falei fazem uma distinção que considera o logos como lógica e o mito como ilusão – disse Çiçek

- O que fazem – retorquiu Clara – é uma assimilação do logos sintático, se quiserdes, do logos com táctica, ao logos seminal ou semântico.

- Este desligamento interno do verbo ou palavra converte o discurso em manipulação quando não em guerra ou violência aberta. E antes de que Ibrahim pudesse acabar interveio Ofélia:

- Produz uma separação artificiosa das polaridades, elimina a tensão dos contrários, conduz ao homem á guerra medrosa e falsa e á mulher á passividade que não sabe educar ao seu povo. Que triste!

- E, sobretudo, não se suporta o silêncio – disse, harmoniosamente, Clara.

A palavra silêncio produziu em todos um efeito catártico. De súbito tomaram consciência do perigo no que se achavam. Por um momento, a verdade que os punha num contato subtil pendia dum leve fio invisível. E o silêncio estendeu-se, suave e macio, nos amigos e nos poetas, nos espectadores e até nas velas cristalinas que anunciavam a lua avermelhada.

De novo os olhos de Çiçek e Ibrahim contemplavam a Clara e Ofélia. Eram novamente as crianças de olhos luminosos nas terras afortunadas. A filosofia real parecia voltar ao seu ser, e o recordo do tempo inaugural inundava, como uma fonte antiquíssima, os seu corações. “E os olhos eram lavados pelas cristalinas gotas de um mar interior de peixes e pássaros voadores”. Foi então que Ibrahim pronunciou umas palavras:

- Queridos amigos, já que uma pequena mácula tocou hoje o nosso encontro gostaria de vos oferecer um poema que faça honra e justiça á nossa amizade e que purifique os ares de toda malignidade e presunção.

Todos os amigos inclinaram a cabeça em amorosa saudação enquanto uma jovem tingida da cor das lilás começou a tocar o nei.

Pensar

pensei que os teus cabelos fossem trigo
que me trouxe o vento para debicar
pensei que as rosas bravas do jazigo
eram versos de inverno para amar

pensei que a lua pintada nos teus olhos
fosse uma estrela lançada desde o mar
pensei que as janelas sem abrolhos
eram portas secretas ao teu lar

pensei que os teus cabelos fossem trigo
que o vento me trouxe para debicar

(nas tardes de Anatólia sou, amiga,
uma rosa de nenhum lugar)

pensei que o mel fosse destino
de corpos destinados a se amar

que as pedras fossem no caminho
antigas lendas para além do mar

pensei sem palavras e sem vinho
deitado junto às vides do lugar

que os teus cabelos eram trigo
enlaçados aos meus dedos para amar…

(- Dizei-me, ó meus amigos,
se pensei, sinceramente,
bem ou mal.)

Sobre o autor / a autora

José António Lozano

José António Lozano

(Galiza)

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