<em>Outra Vida</em>, de Mário Herrero, por Verónica Martínez Delgado

Outra Vida, de Mário Herrero, por Verónica Martínez Delgado

0 comentários 🕔15:30, 05.Fev 2014

O livro Outra vida caiu nas minhas mãos no cerne, quando se estava a gestar, ainda quente. Para mim foi uma grande surpresa e um grande presente poder lê-lo antes do que os mais ao sair publicado. Na verdade adorei. Era e é um livro muito bom a nível formal, quase perfeito e sincero e honesto a nível de conteúdos. Senti inveja peçonhenta por não ser eu própria quem fizesse algo assim.
Mas era difícil também de assumir, de assimilar. No Ensaio sobre a cegueira de Saramago, este diz: “Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida”. Posso quase subscrever tudo para o livro de Mário. O Mário mostra, através desta obra intensa e sofrida, as reações do ser humano ante as necessidades e os anelos, a incapacidade, a impotência e o abandono. Leva-nos também a refletir sobre a moral, costumes, ética e preconceitos.
Não é doado ler os seus textos porque no mundo hipócrita em que vivemos, ninguém quer escutar a verdade, saber-nos alienados até o limite de perder-nos e aceitar-nos no consumo, na alienação, no cômodo, até diluir-nos na massa e no politicamente correto. O nível formal é bem breve, conciso, certeiro e dirige-se a um interlocutor ou interlocutora próximo enquanto lhe explica o que pensa e sente durante 22 poemas, uma confissão, um esclarecimento e um apêndice duns outros 11 poemas.
No filme Despedidas de Yojito Takita diziam:
“Há tempos, antes que as pessoas tivessem criado a escritura, enviavam-se pedras que refletiam os sentimentos que albergavam. Pelo seu peso e pelo seu tacto, quem a recebia sabia como se sentia o recetor. Se a pedra era lisa, podia-se deduzir que era feliz, se era rugosa, que estava preocupado por algo. Essas pedras eram as cartapedras.
Assim mesmo, Cartapedra, intitulei um livro meu e um dos seus poemas di:
Busqueite,
ao chou,
entre a colisión continental
e a xénese dos granitos,
porque pertencías
á sabia tribo
dos que falabades
coas pedras.
Evidentemente Mário pertence à sabia tribo dos que falam com as pedras. Assim o confirma também no texto inicial Avelino Abilheira. Nele comenta como escutou uma pedra, uma classe de queixa primitiva, sem palavras, com as que dialogou durante vinte e três noites de frio de verão.
outravida-250x354Considero que tal e como avança a sociedade, o desumanizado, individualistas e líquidos, atendendo ao termo de Zygmunt Bauman, que ficamos todos, é quase uma consequência lógica que se prefira dialogar com as pedras do que com alguém com quem compartimos espécie.
No seu conteúdo Outra vida é a história dum conflito. O conflito entre o que desejamos ser e não somos, a luta brutal entre o id e o superego de Freud. Freud procurou uma explicação à forma de operar do inconsciente, propondo uma estrutura particular.

No primeiro tópico recorre à imagem do iceberg em que o consciente corresponde à parte visível, e o inconsciente corresponde à parte não visível, ou seja, a parte submersa do iceberg. Quando sua preocupação se virou para a forma como se dava o processo da repressão, passou a adotar os conceitos de id, ego e supereu. Nesta luta do Mário ganhou o superego, com os pensamentos morais e éticos internalizados, pero machucou, feriu e destabilizou ao ego, um ego já pouco saudável, que não proporciona a habilidade para adaptar-se à realidade e interagir com o mundo exterior de uma maneira que seja cómoda para o id e o superego.
Manifestam-se em Outra vida as duas pulsões antagónicas: o eros, com tendência à preservação da vida, materializada no sexo e no desejo, e o thánatos, a pulsão da morte, tão presente em toda a obra e também em mais um outro livro do Mário, No limiar do silêncio, que leva à segregação de tudo o que é vivo, à destruição. Ficando por vezes apocalíptico, frustrado, fracassado, ate com angústia vital. Ambas as pulsões não agem de forma isolada, estão sempre trabalhando em conjunto. Esse é o conflito que descreve Mário.
Que outras preocupações têm manifestas no livro e lhe geram conflito? Uma constante é a sociolinguística, de facto há um paralelismo entre o conflito de grafias e conflito social. Preocupa-lhe também a crise ideológica, a miserenta herança que deixamos como pais aos nossos pobres filhos, a assunção do não futuro, e, caso existir, sempre é mui negativo, a alienação, o consumo, o capitalismo, qualidade e não a quantidade, a sociedade convulsa, desigual e em constante mudança. Que solução aponta à frustração experimentada atrás do conflito?: a morte em primeira instância, a real e a metafórica que ele descreve como um não pensar.
Escolhe não pensar, como muitos de nós, acomodados como estamos nos nossos confortáveis sofás e vidas pequeno-burguesas, anestesiados pela possessão, obcecados pelo ter de Fromm, incluso por possuir todas as modalidades de escravismo que provoca o capital, de aí, não desejamos que nos zaranzem as consciências ou o pouco que resta delas.
Outra possível solução: Outra vida. Qual? Não se sabe. Destaco que não põe artigo, nem determinado nem indeterminado, anseia uma outra vida, diferente à que vive, pero, acaso não sabe qual, não tem um ideal definido. Desde a infância mais temporã os indivíduos aprendemos as pautas de conduta, que comportamentos são aceitáveis e quais não, uma aprendizagem mais das normas gerais que existem na sociedade. Semelha que deseja, escutando o monstro, o seu lado mais escuro, a toleima, o desagradável, o vulgar, o superficial e mesmo algo pior, se o medimos com os cânones da alienação, do que já possui, alguém que não merece o seu amor, sobre tudo se nos remetemos ao falso poema de escárnio. Mas deve pedir desculpas por não desejar a indolência burguesa? Por desejar o impróprio, para apreciar ainda a pulsão do instinto? É, por tanto, mais lícito assumir a inércia do passo zumbi?
A pesar disso, escolhe consciente permanecer, a qualidade, a responsabilidade, o superego a berrar, embora não ame e se torture por não saber conservar o amor, os sonhos intactos. Escutou o monstro que construiu a sua vida real, as ruínas de si próprio e prefere a estabilidade, estar aletargado, adormecido, renunciar a pensar.
Porque que é que fica depois do amor, o fracasso do tédio num walking dead que nos faz intimar coa derrota de saber-se ilhado, assumindo as mãos quebradas, a boca aberta. Mais logo chega a ânsia cuns azos renovados. Reconduzir os sentimentos mais vivos, numa outra vida tão distante como utópica, atrás dum leve roce, um subtil encontro no hiper-real duma mente que se nega a renunciar à vida. O amor utópico e a renúncia, o escárnio que nos libera e nos afasta do sentimento inconcluso.
De aí nascem as contradições e as perguntas, que podem ter a resposta no livro ou não:
O resto, é a escusa que nos volve ao nós assumido em anos de obrigas que se converteram, aos nossos olhos, novamente, na máxima expressão da derrota? Por que é só pai tudo o tempo? Na sociedade de consumo em que ficamos, com a linguagem até perversa: temos filhos, não geramos vidas, não partilhamos família, temos filhos. O híper utilizado verbo ter. Temos filhos do mesmo jeito que temos um carro ou um prédio inteiro. E há que tê-los para ser felizes, é deste jeito que o exige a sociedade, isso é o que nos vende o capitalismo. Mesmo quando a natureza e a biologia se negam, nós queremos e seguimos a tentar e a lutar por tê-los. Então permitimos que a nossa intimidade, os nossos genitais passem de ser nossos, lugar de paixão, de desejo, de acovilho mútuo, a ser um lugar de trânsito, cheio de espéculos, agulhas, tubos, botes, mãos com luvas… provas após de uma ânsia, anelo ao que temos direito e a natureza não é quem de negar. Depois ficamos nós próprios objectualizados, a ser um não lugar como se explica na teoria de Auge e Ritzter. E até pode que aí também comece a fim do desejo primigénio e dê lugar ao mais primitivo e mais animal.
Por que afirma que cria que não ia escrever mais?
Por que explodem os poemas?
Por que não verá a obra conclusa, aos filhos crescidos?
Na hierarquia de necessidades de Maslow, também conhecida como pirâmide de Maslow, este afirma que as necessidades de nível mais baixo devem ser satisfeitas antes das necessidades de nível mais alto, uma vez cobertas as necessidades fisiológicas, de segurança, as sociais e as de autoestima, um deve cobrir as de autorrealização, em que o indivíduo procura tornar-se aquilo que ele pode ser, onde a pessoa tem que ser coerente com aquilo que é na realidade.
É isso o que lhe acontece ao poeta? Está a ser coerente com aquilo que é na realidade pero sonha com aquilo que ele sabe que pode ser?
Está a descrever a crise da meia-idade de Jacques (termo usado para descrever uma forma de insegurança sofrida por alguns indivíduos que estão passando pela “meia-idade”, no qual percebem que o período de sua juventude está acabando e a idade avançada se aproxima). Essa crise pode ser desencadeada pela morte dos parentes, sensação de envelhecimento, insatisfação com a carreira profissional, com o amor, etc. Sendo esta crise também exclusiva das sociedades ocidentais capitalistas, por outra banda, onde buscamos um sonho ou objetivo de vida indefinido, padecemos um profundo sentimento de remorso por metas não cumpridas, um desejo de voltar a sentir-nos como na nossa época de juventude.
A gente deve ler Outra vida e topar as próprias perguntas, contradições e respostas aí.

 

Sobre o autor / a autora

Verónica Martínez Delgado

Verónica Martínez Delgado

(Galiza)

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