Da necessidade ético-estética na escrita de Sophia de Mello Breyner Andresen

Da necessidade ético-estética na escrita de Sophia de Mello Breyner Andresen

0 comentários 🕔14:30, 19.Fev 2014

Intervenção de Alva Martínez Teixeiro no Espaço Grandella da Biblioteca-Museu República e Resistência de Lisboa, em 06-01-2014.

Boa tarde.
Além de ficar muito agradecida por estas generosas palavras de apresentação, antes de mais nada, queria dar os meus parabéns por esta feliz iniciativa que em dia de Reis ousa falar de Rainhas. E queria agradecer –e muito– o generoso convite para participar nela, máxime quando este evento tem como centro a invulgar obra e a figura da extraordinária poeta e cidadã Sophia de Mello Breyner Andresen. Este meu reconhecimento dirige-se tanto aos colegas do Grupo 6 do CLEPUL e do CESNOVA e, em particular, à Professora Vánia Chaves, quanto aos responsáveis desta exemplar Biblioteca-Museu, nestes conturbados tempos, tão adequadamente denominada da ‘República e Resistência’.
E quero agradecê-lo e mostrar a minha satisfação porque, com a vontade imperiosa de compartir as dúvidas, não é assim tão habitual ter a oportunidade de falar –prometo, desde já, que de maneira breve– sobre este modesto trabalho de pesquisa pós-doutoral, agora publicado, e que realizei, com a disponibilidade da família da autora e o apoio de uma Bolsa de Investigação para Estrangeiros da Fundação Calouste Gulbenkian sob a exemplar orientação do distinto professor –e amigo– Carlos Mendes de Sousa.
Enfim, necessariamente de maneira muito geral e em modo abstrato, a seguir tratarei de explicar que é o que pretendi e concluo nesta monografia, Nenhum vestígio de impureza, sobre a necessidade estética na ética e na poética andresenianas.

E vão permitir-me que comece com palavras alheias, lembrando as ideias de “uma concepção estética do individualismo”, do afastamento “da meditação e imaginação habituais” em poesia ou, igualmente, do “prestígio” da autora como contista, que contribuiu “também para lhe conferir um muito peculiar estatuto” nesse campo. Estes são alguns dos tópicos sublinhados, reiterados –e aprofundados em maior ou menor medida– incessantemente por autores como Carlos Ceia, Vitorino Nemésio e Maria Alzira Seixo a respeito da escrita de Sophia Breyner Andresen.
Trata-se de caraterizações que se tornaram já lugar-comum a partir da condição singular da obra andreseniana assinalada por estes autores. Neste sentido acho que podemos considerar Sophia não só uma indubitável figura central, mas, também paradoxalmente, uma gigantesca outsider –no sentido mais construtivo–, porque esta ponderação fundamenta um dos tópicos mais ajustados a todo e qualquer entendimento da sua obra.
E isto por tratar-se de uma interpretação que nos parece de uma evidência universal, mas, também, por ser, segundo a circunstância, vazia ou fértil em extremo. O caráter distintivo desta escrita pode constituir uma via de aproximação aberta à totalidade da obra. E, ao mesmo tempo, o conceito da singularidade pode ser tão vago que lhe retire a especificidade. Este impasse, foi, na verdade, o ponto de partida do ensaio Nenhum vestígio de impureza, em que pretendi refletir, principalmente, sobre a escrita literária andreseniana e, complementarmente, sobre os discursos críticos que esta suscita, a fim de evitar uma perigosa preferência pelos livros sobre livros, em detrimento dos próprios livros.
Neste sentido, considero que a grandeza e a perspicácia, que me deslumbraram no percurso desenvolvido através desta proposta literária, permitem confirmar que a autoridade e expressividade formidável dos escritos da autora esclarece por si própria os motivos da referida conclusão, relativamente ao seu lugar na história literária portuguesa –e não só– do século XX, determinado pela inegável condição original da sua produção.
No entanto, se a inteligência, o poder de comunicação e de inspiração consentem que falemos da autora como uma outsider colossal, acreditamos que também exigem uma aproximação analítica que prossiga a partir dessa evidência para a sua decomposição.
E foi essa demanda de exaustividade que norteou o meu trabalho, demanda e pretendida resposta, porém, que nunca consumirão o fenómeno, como revela o fluxo constante de aproximações sagazes e oportunas à obra andreseniana e como me revelou, também, a dificuldade que experimentei latente no ensaio, ao pretender cercar a sublimidade desta escrita, e de que recordarei aqui um exemplo: o número considerável de ocorrências no ensaio de adjetivos, como ‘difuso’, ‘vago’ ou ‘incerto’, que incorporam à análise uma dose oportuna de imprecisão.
Mas apesar da resistência que a obra andreseniana oferece, não nos podemos conformar com aquilo que se infere do célebre apotegma de Georges Braque, segundo o qual na arte só importa uma coisa: aquilo que não se pode explicar.
É por isto que, na medida do possível, procuramos acostumar os olhos ao deslumbramento e à obscuridão que alternam na palavra da autora, com o propósito de decompor certas complexidades próprias desta escrita realizada à margem dos standards estéticos do seu tempo.
Pretendemos focar assim a obscuridade e a heterogeneidade próprias da obra de Sophia; uma obra que, lembremos, representa uma das vias possíveis de retorno à pura necessidade intelectual de beleza, verdade e sabedoria. Uma obra que, através de valores como o de um domínio estético excecional, um saber intuitivo luminoso equilibrado com uma poderosa capacidade intelectual e uma certa vontade tutelar, nos oferece uma representação literária fundadora de um sentido diferente para o mundo.
Como sabemos, as suas obras apresentam um certo valor arcangélico e ao mesmo tempo, também perturbador, mas sempre luminoso. Neste sentido, a essência da poesia de Sophia revela-se consequência da oposição radical contra qualquer forma de mistificação ontológica ou moral, como a indiferença, a alienação, a mentira ou a injustiça.
Esta orientação conduz à separação da banalização do real. A possibilidade da literatura numa civilização dominada por um racionalismo conformista torna-se um problema específico da escrita que Sophia soluciona por duas vias: ou se afasta do mundo para oferecer uma idealidade só possível na arte ou, num movimento oposto, encara desde o seu próprio centro a circunstância contemporânea como única possibilidade de negá-la de modo fundamentado, embora, na esteira de Baudelaire, seja capaz de vislumbrar um certo mistério belo e, ao mesmo tempo, desassossegador na decadência metropolitana.
Apoiando-se nestes dois extremos, Sophia Breyner Andresen cultivou no seu percurso literário “uma admirável renovação da sua mesma identidade de poeta”, como dissera Jorge de Sena da obra Livro sexto, em carta à autora datada no ano 1962. É assim que podemos falar de conformidade coerente, de variações dentro do discurso, mas não de vários discursos diferentes, porque no seu percurso observamos como a poeta aprofunda e diversifica a capacidade de sondagem e revelação da sua palavra, sendo essa mesma capacidade, cada vez mais categórica, a que garante a unidade da voz literária.
Deste modo, situando-nos no primeiro dos polos antes referidos, essa perícia assume um valor positivo, nomeadamente através da indagação metafísica e da função exemplar que fazem com que a obra de Sophia Andresen, especialmente a sua poesia, sobressaia na história da espiritualidade portuguesa.
Como sabemos, a autora devota a sua escrita, numa meditação tranquila de vagos contornos filosóficos, a uma procura sagrada da unidade e do conhecimento de mistérios como o infinito presumido ou, de modo secundário, o Deus pressentido, no sentido artisticamente sacral com que Hölderlin falava de um “sereno serviço divino”.
Portanto, esta orientação ascensional implica a recusa da banalização da realidade contemporânea, mas nunca da realidade onde se repousam esses mistérios. A poeta reorienta o olhar, e, com esta estratégia, consegue que a idealidade não condene a sua escrita à total irrealidade e nunca cede à contemplação do mundo através de um constructo intelectual que atue como filtro da dureza do real.
À diferença da perspetiva cartesiana moderna, neste seu estar literário na terra, não há uma distinção firme e racional entre a existência interna e a ordem externa da existência. Esta certa irracionalidade materializa-se numa necessidade de fusão com as coisas, com a realidade pura, que fará com que Sophia Breyner Andresen seja, em palavras do seu marido, Francisco Sousa Tavares, “inédita na violência e na verdade alucinante com que sente o mundo físico”, como demonstra o seguinte excerto do texto de prosa poética «As grutas»: “Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu”.
A escritora não evita a realidade, mas sim aquilo que considera a sua cada vez mais decadente intelectualização; intelectualização, aliás, que hoje impede o acesso completo à plenitude, agora apenas evocada como ideal. Porém, como era esperável de um processo de simplificação intelectual como o que está em curso nos nossos dias, a quebra que provoca, em relação à crença arcaica de que o divino ecoa no universo, não leva consigo uma reflexão sobre a condição precária em que essa quebra deixa ao ser humano.
A meditação a respeito dessa divisão entre a aspiração e a sua impossibilidade surge, paradoxalmente, naqueles autores que, como Sophia, não seguiram as diretrizes do pensamento contemporâneo mais confortante, mas que, pela sua exigência de verdade, foram obrigados a lidar com as consequências desse pensamento.
A celebração do ideal implica, portanto, a preocupação prévia com o real, do mesmo modo, mas num sentido inverso, que o segundo espaço da sua palavra, dominado pelo sofrimento da condição atual, parte de uma preocupação anterior com o ideal.
Se a primeira vertente da sua obra tem como horizonte de destino a procura de unidade –do homem com a transcendência–, esta segunda tem como ponto de partida a constatação da falta de unidade “do homem com os outros homens”. A justiça e a liberdade permitem rejeitar de modo fundamentado a circunstância contemporânea através, quer da função edificante privilegiada, por exemplo, por composições como «A paz sem vencedor e sem vencidos», do livro Dual ou pelos Contos exemplares, quer através do referido pendor baudelairiano ou, finalmente, nesse movimento descendente do ideal ao real, através dos signos de revolta e mal-estar presentes nas evocações mais desoladas do país.
Esta obra manifesta, portanto, a força de expressão da literatura na situação material e, principalmente, espiritual do presente e, como muita grande literatura, entende a escrita como recomeço. E este recomeço literário de Sophia contém, no seu valor de princípio, as noções de início e rutura, às quais, no seu valor suplementar de recomeço –isto é, de começo que remete implicitamente para uma origem anterior–, acrescenta, num equilíbrio digno de acrobata, tradição e universalidade. Eis os termos que, por um lado, situam a sua obra de maneira tangencial em relação aos grupos, aos modos e às modas preponderantes, e que, por outro lado, a tornam uma obra paradoxalmente clássica e moderna.
Desde este ponto de vista, se nos posicionamos na circunstância da escrita, o tempo da Arte Moderna, encontramo-nos orientados, evidentemente, na direção da rutura que, porém apresenta constantes e ligações a respeito das quais Sophia se posicionou a uma distância segura, como condensam, de maneira exemplar, as suas próprias palavras, quando ao referir uma conferência sobre Ezra Pound, a autora afirmava: “Alguém citou a célebre frase do Ezra Pound: “Make it new”, “façam-no novo” e eu disse que se ele vivesse agora depois de tantos “avantgardes” diria “Don’t make it new”. Porque houve uma tal inflação de “avantgardes” que se criou um academismo “avantgarde”.
É interessante verificar como na sua crítica está o germe da solução que ela própria aplicaria: a criação de uma outra forma de arte após o crepúsculo, que será fruto consciente dessa aversão experimentada em relação ao escândalo mórbido e já neutralizado.
Se Fredric Jameson apresentava a cena mais pessimista para qualquer estética progressista numa leitura baseada, igualmente, na ideia do desgaste e se perguntava como poderiam manter o efeito transgressor a montagem, a colagem ou o estranhamento, a palavra de Sophia apresenta uma saída para este impasse. Numa linha de pensamento paralela à manifestada por Octavio Paz, ao decretar o fin da estética fundada no culto à mudança e à rutura, a poeta frisa, numa prática modernista ‘viável’, o abandono da necessidade de transgressão, mas não da necessidade de perturbação.
A confluência de incompreensibilidade e fascinação não é alheia, num certo sentido, ao discurso literário que nos ocupa, obscuro na medida justa do fascínio, mas nunca do desconcerto, porque, se a literatura do século XX não é de fácil acesso também não o será, como literatura do seu tempo, o discurso andreseniano. Nele, a excecionalidade da palavra e o seu sentido enigmático são motores preferentes que, embora permitam que a compreensão permaneça orientada na leitura, acabam por dificultá-la e enriquecê-la, por causa do caráter múltiplo das significações.
Entre elas podemos citar a mencionada obscuridade ou, mesmo, uma certa desumanização, rearticuladas como negação, não da tradição literária, mas como única via possível de recuperação das condições refletidas por esta. Assim, por exemplo, quando a poesia da autora apresenta os seus conteúdos, com exceção daqueles poemas onde o engajamento ganha um sentido reto, na realidade, não os apresenta de modo mimético, representa-os. Os valores recuperados da civilização grega, como a celebração do mito, da pureza ou da verdade, só podem ser reabilitados no âmbito do extraordinário –podemos referir, como exemplo o espaço da natureza edénica e desabitada onde se situa a voz lírica–, o que os torna profundamente incomuns. Valores como a transcendência não podem ser medidos segundo aquilo que denominamos realidade, uma vez que esta implica a observação estrita das categorias que regulam a existência: como a iluminação e a escuridão, a mundanidade e a transcendência ou o passado e o presente.
Avançando nesta breve reflexão, gostaria de sublinhar ainda uma outra conclusão confirmada no ensaio: como, para Sophia, o esforço de desenvolver a partir de um ‘eu’ literário estes assuntos ultrapassa o subjetivismo agudo que domina muita da literatura contemporânea. Para Ítalo Calvino, a interioridade domina o fazer literário, porque depois da segunda Revolução Industrial, seria a única parte não programada do universo. E Sophia preferirá ainda uma via mais radical: o encontro não mediado com a totalidade através de um movimento “des-subjectivante”.
Neste sentido –e em muitos outros– é evidente que Sophia foi inspirada por obras do passado. A sua poesia filia-se de modo complexo a uma linhagem heterogénea de escritores, como Rilke, Hölderlin ou Shelley, preocupados com a circunstância humana e com a procura de uma visão sólida dos valores e dificuldades derivadas desta.
Apesar disso, esta viagem no tempo é de ida e volta, é uma estratégia, um trampolim se quisermos, que lhe permite encontrar a sua própria originalidade, modelada a partir do retorno a um estádio anterior ao que influenciava a arte imperante, menos radical, todavia, que o que fizera, por exemplo, o grupo pré-rafaelita, que lembro porque o seu nome é o que melhor representa a autoridade da autoconsciência neste tipo de estratégias.
Ao falar da originalidade é óbvio que não falamos de simples diferença ou novidade, mas de um talento superior, genial no sentido kantiano, que altera o campo artístico e a perceção da arte. A originalidade da autora, portanto, parte dessa acrobacia impecável de início, rutura, tradição e universalidade, num movimento que se apoia numa tradição literária heterogénea, à qual se une para depois a ultrapassar.
E este movimento harmonizador e essa compreensão extraordinária poderiam justificar a diferença específica que pretendemos sublinhar, ao procurar enquadrar aqui brevemente, de maneira necessariamente abstrata e concisa, o exercício poético andreseniano; uma diferença específica derivada de um exercício literário que arquiteta um conjunto de relações a respeito de diferentes paradigmas literários, como as preocupações metafísicas ou a recriação da herança clássica, e que situam à autora, numa curiosa relação de compromisso e descompromisso, no interior de certas tendências poéticas transversais.
Num espaço por vezes latifundiário, como é o literário, esta circunstância especial da palavra de Sophia Andresen permite desdobrar em mais um sentido o seu culto simbólico –da representação e da memória– do jardim.
Para concluir, gostaria de afirmar que a autora cultiva o seu jardim como se se tratasse de um minifúndio escritural. E que este cultivo, num labor pouco cândido, se aproxima da vocação reveladora e turbadora das obras-mestras modernas a que se filia: a propensão a aproximar-se cada vez mais ao murmúrio solitário que, segundo Maurice Blanchot, tem como efeito fazer-nos ouvir aquilo que estaríamos expostos a ouvir, se de repente desaparecessem a arte e a literatura.
Enfim, esperando ter cumprido o prometido a respeito da brevidade desta dissertação, fico muito obrigada pela sua paciência e atenção para comigo e para com as minhas, seguramente pouco interessantes, palavras.

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