Poemas de Xurxo Nóvoa Martins

Poemas de Xurxo Nóvoa Martins

0 comentários 🕔11:30, 12.Mar 2014

PASODOBLE DO BERBÉS

“Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, sempre haverá guerra.”
Bob Marley.

A noite, camponesa rebelde,
Be la la brega revolta da
perde o rosto;
o trânsito descalço,
com res
tos do seu ras to,
suga o ssssOL
em cada esquina;
das tuas coxas
pingam se
mentes.

Fica o teu cheiro
a tua falta
e o nosso leito
como ampla embarcação
que sai do Berbés
em mares de saliva
de seiva suave de Eva
sem maçã.
A viajar até
A guerr
Ilha vir
Tu………………………………………………..@l

E então soa a canç aão
dos teus pés no chão
e entoam emigrantes
africanos
partituras de montras,
desenganos,
a subasta do peixxxx
e as bermas cheias
de sereias es cravas.

A tua voz é tão teimosa
entre estes versos movediços,
guarda-chuvas roubados,
táxis, polícias, vendedores
de jor nais,
enleados na espinha
dor
sal
da repressão,
na banca rota
bancarrota
banca arrota,
no roteiro da linha da de rrota.

Sinto a tua sílaba d’água
nesta Galiza às vezes
áfono instrumento
na que o mar tam bém
chora de tristeza
e os ciganos mmurmmuramm
alalás sonâmbulos.

Hoje as pétalas murcham
Dolorosas e inúteis
Com a pólv ora molhada.
Inventaremos noites nuas
e furiosas estrelas
para evitar que a brêtema
nos in vada.

Através dos teus OlhOs
a resistência é praia,
a fouce é meia-lua
nas tuas pupil as
e a tua alma sem rédeas
explode como uma granada
na n eve m
alva
desta ma drugada.

ANUVIA

Às vezes é fácil
fugir polo caminho branco
atravessar a orla
do espelho
escapar da miséria
contagiosa
aspirar o recendo
delicado
da discriminação.

Às vezes o tempo
treme
com medos tremendos
e nas profundas
covas dos ódios
agroman estalactitas
e dores
descarriladas.

Às vezes
como Alícia
caemos polo tobo
bebemos lágrimas
misturadas
com cerveja preta,
e achamos em falta
o frio da roupa
polo chão
das madrugadas
o calor das línguas
inexpertas
os filmes
con desconhecid@s;fartos nos têm
os minutos burócratas
as manchas de reproches
nas paredes.

Envelhecem as águas?
O péndulo faz lembrar
ou esquecer?
O sol solta
o cabelo?
Construirei casa
no rio
pra tela sempre lavada?
Quantos poetas chovem
por milímetro quadrado ?

Às vezes gosto
de repenicar
versos
que falam sobre
o arume pingando
o capricho do lixo
as estrelas de lama
nos elos
dos calendários
os dias perfeitos
ardendo
em chamas húmidas
a felicidade musical
nas mucosas
quando os nosos corpos
anuviam
espidos como pássaros.

TAROT

Na beira do silêncio,
no rio que afia
fios de sorrisos,
no divorcio
das abelhas
e os trens rápidos
da incomunicação,
nas minhas pegadas
que arremedam
eucaliptos,
no óxido
nas pálpebras
do pescador,
-tormentelos
que amanhecem
nos seus olhos
de tormenta-,
nas minhas dúvidas
como alga sem raiz,
na insónia
das sementes,
nos muros que dividem
a nossa pele…
são tuas as linhas
desta mão
que o serão
desenha com poeira
quando o vento
se deita
na crina dos montes
e as moças trigueiras
penduram as ondas
nas polas das árvoresda febre,
quando o Tarot
fala dos lobos
da matogueira,
dos nossos gritos
na cozinha;
os arcanos maiores
viram costas
aos telejornais,
a noite cresce
nos caminhos,
os corvos aninham
no teu cabelo
em fervença,
no sofá
a roda do leme
balança
os nossos corpos
e os vizinhos
discutem
quem liga
a lavadora.

ARREFECE

Deixa-me morder essa boca de curcuma
e que os teus olhos durmam o sol
com cantigas-leme que me guiem
até a espuma brilhante
da tua beira-mar.

Deixa-me lavar os cabelos
de bela concubina
que exalam sons famintos
e derramam afagos
de angústia adormentada.

Deixa que o amor peneire
sobre os corpos que pairam,
igual que as báguas quentes
sobre o frio que volta
teimoso nos magustos.

Deixa que a minha língua
esta noite fedelhe
e que ajude a que encha
a maré-solidão
com os cheiros intactos
da rapa das bestas.

Deixa-me apanhar a chorima
sem pranto
e tender-te na cama
ao jeito francês
para sentir a dor
que, de novo, nos salva.

Deixa que a vida escorra
cíclica entre os dedos
e que o lácteo presente
desta noite
esbare os nossos beiços
num fio de esperança.

Sobre o autor / a autora

Xurxo Nóvoa Martins

Xurxo Nóvoa Martins

(Galiza) Xurxo Nóvoa Martins nasceu Vigo em 1975. É licenciado em Filologia Hispânica e Filologia Galega e Portuguesa pela Universidade de Vigo. Poeta e ator ocasional (é uma das personagens masculinas do filme “Artaud em Compostela” do poeta e realizador brasileiro Márcio-André). Textos de canções, crónicas e poemas seus aparecem nos discos “Meu canto” (2011) de Uxía, “Magnético Zen” (2011) de Xoán Curiel, melhor álbum galego nos "V premios da música independiente" (2013), “Son Brasilego” (2013) de Sérgio Tannus e “Na língua que eu falo” (2013) de Najla Shami, com a qual colabora assiduamente como letrista. Poemas e letras suas aparecem aliás no livro-CD-DVD “CoraSons” (Kalandraka, 2013) e no livro “Quem vê Corações” (2013), editado pelas Edições Afrontamento em Portugal. Fez parte do grupo Bilbao de poetas galegos em Madrid e publicou poesia e microcontos na revista de estudos galegos da Universidade Complutense de Madrid “Madrygal” e nos livros coletivos Marés nos Pousos do café e Madrid era unha praia de baleas entre néboas, entre outros. Colaborou também com o coletivo poético “A Porta Verde do Sétimo Andar”, em Pegadas. Produtor e organizador de eventos culturais lusófonos como o Festival FIGA 2009 no espaço cultural brasileiro Kabokla em Madrid, o Encontro de Escritores da Lusofonia no Palácio da Brejoeira em Monção-Portugal, a Apresentação do Instituto Cultural Brasil-Galiza na Casa do Brasil de Madrid ou o éMundial em Vigo-Galiza. Atualmente, continua esta atividade na “Ciranda, à volta do Português” em Santiago de Compostela e foca a sua energia criadora como poeta, letrista, e cantor, a preparar o que será o primeiro trabalho poético-musical com a sua banda, Guilherme e Bastardo.

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