<em>Voz de uma estátua</em>, por Marília Lopes

Voz de uma estátua, por Marília Lopes

0 comentários 🕔12:30, 12.Mar 2014

Continuo de pé na velha cidade, à espera das carícias do Sol que aquece os corpos frios. Sou uma estátua cuja erosão arruinou membros, mas que ainda não emudeceu a voz aflita. Ouço melodias, contornos de oboé em boca de seda, um concerto aéreo. É então que me sinto mais só e distante, abandonada na Avenida Principal que nunca sentiu os meus gélidos pés, nem meus membros a sua textura. A cidade tornou-se o eco dos meus murmúrios, resto e rasto do vestido fantasma a deslizar de nuvem em nuvem, envolvendo a lua cheia, gata prenhe arregalando os olhos pardos.

A vida compensa-me nestes instantes parados. Olho o infinito com sofreguidão, deixo que os meus olhos voem com as aves que me visitam e me conspurcam. Os dejectos não me diminuem a auto-estima, antes me conduzem ao pensamento do que a vida significa para alguns. Daqui vejo passar a D. Amélia, apressada como sempre. Vai às compras do dia para que o marido tenha a horas as refeições. Ela nem repara em mim, tão cismada que está, a pensar na monotonia da vida que leva. O Sr. Silva espera-a, de relógio em punho, a importunar-lhe os dias. Não sabe que faz de Amélia uma escrava contemporânea. Alivia-se da culpa junto da ignorância, ainda no estado de causa – efeito.

Daqui vejo o Isaac que sai das tascas e se põe de joelhos a pedir-me mais vinho, quando, de madrugada o corpo treme; daqui vejo o Dr. Alcino a correr para a Câmara cumprir o horário de funcionário público e a vigarizar o povo; Daqui vejo o fundo do poço a que chegou o moço que vai ali. Coitado! Ninguém lhe liga. Ligam à polícia, a dizer que o miúdo não pode andar assim ao Deus dará, embriagado e andrajoso, a pedir cigarros, a cravar moedas para pão e sopa. Ligam e desligam. A polícia reencaminha-o para a Segurança Social que por sua vez se desmarca, porque aquela criatura, apesar dos distúrbios mentais alegados e falta de afecto comprovada, tem já dezoito anos e, sendo maior, “não há nada a fazer”…Daqui vejo esta injustiça que me dói o coração de ferro. Aquele menino qualquer dia morre…e não será de pé, como eu…; Daqui vejo a política enferma desses senhores que compactuam com a podridão a que chegou o país; Daqui vejo a D. Justina, cambaleando, sem dinheiro para comprar os medicamentos de que tanto necessita…tanto sofrimento que leva a subir a Avenida, na ânsia de poder deitar-se, mal chegue a casa. Dantes era uma mulher tão forte, dedicada ao trabalho…a sociedade é assim que faz aos velhos. Torna-os ainda mais velhos e acaba com eles, mesmo antes de eles sentirem que se acabam. Quero sair daqui e não posso, nunca poderei. Fizeram-me muda, fria, parada. É como convém. É como convém. Não me conformo com a minha figura a comandar este pedestal de memórias. Quiseram-me aqui a simbolizar o que nunca tiveram, precisam de exemplos, de heróis, de mártires, de promessas, de cabeças laureadas, de homens vis e determinados que desafiem contrariedades. Eu preferia que não precisassem, que olhassem para si próprios e se descobrissem em liberdade. Estar aqui é uma prisão e este sistema um lago estático e mal cheiroso, onde os sapos continuam a engolir moscas a cada oportunidade. Vejo tantas moscas por aí…são terrivelmente entediantes, deixam-se apanhar, mau grado andarem a velocidades incríveis nos carros que substituíram os cavalos ecológicos. Esses eram-no verdadeiramente. Os sapos gordos e inchados deliciam-se com o seu jeito aguçado de lançar a língua às presas. Deviam pensar em emagrecer e em copular menos. Há girinos por todo o lado a estagiarem para rãs e sapos. Reproduzem-se como coelhos e o sistema não pára. Ao invés, avança para uma insuportável esquizofrenia colectiva.

Um dia destes, deitar-me-ão abaixo. As civilizações nascem e morrem e, com elas, as estátuas dos heróis. Poderá surgir a hipótese de uma ruína, de um resto do que fomos um dia. Se os livros forem destruídos, acaba-se tudo, porque se acaba a memória. Ainda hoje sabemos quem foi Sertório e também que fora inspirado por uma corça branca, segundo Aulio Gélio, um lusitano. Sabemos das festas das colheitas, do calendário reformado por César, como eram organizadas as villas, quais eram os dias fastos e nefastos. Conhecemos hoje o oráculo de Delfos tal como existiu. Mudaram-se apenas os nomes. Os conceitos são parecidos. Se romanos e gregos diziam “deuses”, nós também o dizemos, de outra forma. Não lançamos cristãos às arenas, mas touros. Não é parecido? Só não edificámos templos, onde eram templos. Construímos outros, os do consumo. Sou uma estátua consumível. Com o olhar consomem-me. Só por me olharem sem me verem. Nunca me vêem. Estão cegos nas suas vidinhas mesquinhas e burguesas. Estou ávida de andar. Queria correr, lançar-me rua fora e, além dos montes, ver um horizonte liso e sem ninguém, Estou farta de gente em dias de festa, honrando tudo, menos os verdadeiros santos. Quem são os santos de hoje? Quem não se rende à hipocrisia – eis a minha resposta. Não conheço ninguém. Todos se mascaram, todos entram no palco caracterizados pelo que conseguem vender. Vão em busca do que deviam ter naturalmente, mas eles acreditam que têm de pagar um preço por tudo. Neste S. Pedro, encheram-me a vista de meias e de cuecas. Não há paciência. Ao que chegam as tradições! Quero ir-me embora, mas não me deixam. Querem-me aqui vigiando, de punhos cerrados, olhar triunfante, como se soubesse orientar todas as embarcações. Eu não sei de cor caminho nenhum. Inventem outra para o meu lugar, que estou exausta! Quero gritar e não sai um som, nem sibilante, nem estrondoso. Não sai nada. Um melro toca-me na boca com o seu bico trémulo. Chama os companheiros e todos vêm, em bando, escutar-me em cima da cabeça. Que estranho! Acho sempre que sou dos pássaros, que eles são os meus únicos ouvintes, mas não. É porque nem para espantalho sirvo, já se vê, todos reparam, sobretudo os turistas. Os outros estão habituados, nem um olhar breve, sequer. Os pássaros conferenciam partidas e não me pedem opinião. Significo um lugar para eles. Para os outros sou um não lugar, no caso de caírem de pára-quedas nos meus ombros. Se tal acontecer, não posso agarrar ninguém. Um dia, se houver um terramoto violento, cairei. Aí, sim, será esse o meu dia triunfal. Levar-me-ão para reciclar para o ferro velho e eu sorrirei muito. Não darei gargalhadas, porque respeito as transformações com uma serenidade zen. Irei feliz, pois. Também não quero que me chorem. Seria desumano, quase. Só os pássaros saberão apreciar-me na partida. Tenho um plano de fuga para esse dia: no momento em que cair, a minha carapaça estilhaçar-se-á. Sairei, então, seguindo sempre em frente, em direcção à claridade, depois cortarei à esquerda, onde, finalmente, me encontrarei em alto mar, de onde nunca devia ter saído. As gotas, minhas irmãs, perguntar-me-ão se fui feliz, eu direi que quase, que todos temos a insana tarefa de vivenciar estranhas dimensões, como se fossem verdades…

…Depois, encolherei os ombros de água e rir-me-ei na soltura dos espaços acima da Avenida. Surgirá, enfim, um efeito livre na minha voz projectada em stereo love e nunca mais dormirei ao relento, ao granizo e à geada das noites repetidas.

Maria Miranda Lopes

Sobre o autor / a autora

Marília Lopes

Marília Lopes

(Portugal) Marília Miranda Lopes nasceu no Porto, em Portugal. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade da cidade onde nasceu. É professora de Língua Portuguesa do Ensino Secundário e formadora pelo Conselho Científico -Pedagógico de Formação Contínua nas áreas das Didácticas Específicas e das Oficinas de Escrita – Poesia e Teatro. Foi bolseira dos Serviços de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, ao abrigo do programa “Dramaturgia Portuguesa”. Integrou a representação do Norte de Portugal no Congresso Luso-Galaico “O Livro e a Leitura”, realizado em Santiago de Compostela, juntamente com António Cabral, A. M. Pires Cabral, António Mota, Miguel Miranda, Luísa Dacosta, João Pedro Vaz, Manuela Bacelar, Manuel António Pina, entre outros escritores. Participou nos Primeiros Encontros Poéticos de Espanha e Portugal, organizados por Jesus Losada, em Alcanices. Participou, juntamente com Maite Dono, Fernando Echevarría, José Luis Peixoto e Valter Hugo-Mãe, entre outros poetas, no calendário para o ano de 2002, organizado por ADATA, textos estes lidos no mesmo espaço da Raya. É autora de canções para a infância que integram vários projectos de animação do livro e da leitura a partir da obra de Aquilino Ribeiro, dos irmãos Grimm e de Alfonso Sastre. Escreveu ““Framboesas” (Teatro, 1996), Geometria (poesia, 1998), O Escudo Invisível (conto da antologia “Histórias Tiradas da Gaveta – edições Tellus); ““Maria da Silva, pastora e rainha”(peça ainda inédita, representada pela Filandorra- Teatro do Nordeste; 2002) “Templo” (poesia, colecção Tellus, nº10; 2003); “Duendouro – Era uma vez um rio…” (Teatro, 2007 - Edições Afrontamento – livro incluído no Plano nacional de Leitura), “Aqua” (conto, 2012 - incluído na antologia Pegadas com autores portugueses e espanhóis – de A Porta Verde do Sétimo Andar) e “Castas” (Poesia, 2012 – Cadernos Q de Vien de A Porta Verde do Sétimo Andar – Galiza, Espanha). Tem participado, com poesia e prosa, em algumas revistas literárias e antologias (Portugal, Espanha, África e Brasil), entre as quais a “Arqueologia da Palavra (coordenada por Amosse Mucavele, Moçambique, 2013) e “Recordando a trina…” (organizada por Ahmed Mohamed Mgara, Tetuán, 2013). Tem escrito recensões literárias, algumas das quais publicadas na revista Letras & Letras e, ultimamente, na Revista Nova águia nº 13, a propósito da homenagem ao poeta António Ramos Rosa. Autora de várias canções, ainda inéditas, realiza, em quarteto, alguns concertos poético – musicais.

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