Nazar bocuk

Nazar bocuk

0 comentários 🕔09:30, 19.Mar 2014

I

Ofereceu-me um nazar bocuk, um olho de turco que protege da inveja. Insistiu uma e outra vez, até que acabei por comprar.

Não acredito nas superstições, mas tenho que reconhecer que é bonito: uma esfera azul cobalto com um íris mais claro descentrado. Nada do acontecido está relacionado com talismãs. Deve-se a uma sucessão de casualidades. Não se trata de nenhuma proteção especial, nem de qualquer força de atração. De que estás a falar? É verdade que os olhos da rapariga que acompanhava ao vendedor eram tão azuis como o amuleto, também é certo que cada dia passo pelo recanto do homem com a ilusão de encontrá-la e que, quando a vejo na loja, parece que o coração se achega à garganta e lateja ali, entrecortando as palavras. Desde que tenho o meu olho de turco não saio convosco, é verdade. Mas apenas porque os dinheiros da festa os gasto naquele bazar. É também certo que a família me percebe diferente, mas não estão descontentes, deixam-me encher a casa com figas, incensários, atrapasonhos… tudo em troco da minha repentina formalidade: do estudo ao quarto, do quarto ao estudo, a passar sempre por ela.

Sim, sou livre, não estou amarrado a nada nem a ninguém. Como podes pensar? São épocas, momentos, interesses… todos achamos alguma vez uma rapariga com uns olhos singulares e deixamos um bocado aos amigos por questão de semanas. Depois compartilharei outra vez convosco, irei à festa de Dila. Ficarás então convencido de que não há motivo de preocupação?

II

Como ia saber que a rapariga dos olhos cor turquesa ia estar na festa? Não tinha contado para ti? É a filha do vendedor. Foi ela quem me falou, eu nem podia, a sua presença produziu aquele efeito em mim desde que a conheci, mas o seu olhar azul cativava-me, protegia-me. Achá-la no aniversário foi uma surpresa. Contou-me que era a prima de Dilara. Dila também tinha vindo do Leste quando era uma pequenina, lembras?

Perguntei pelo seu nome: Aylin. Considerei precioso e disse. Foi a primeira confiança. Explicou-me que significa “luz de lua” e percebi que ela ia estar em mim tantas noites como o luar.

Não estou namorado. É outra coisa. Sei que não se trata de uma emoção, de um derretimento passageiro. Aylin é o único nazar bocuk.

III

Quero ser um semâzen. Sei que julgas esquisito, mal mesmo, mas, na verdade, é extraordinário. Ir com Aylin a Koniah e dançar a Semâ em círculos ante a tumba de Mevlânâ, o poeta que dizia:

Que podo fazer, ó muçulmanos? Pois não me reconheço a mim mesmo.
Não são cristão nem judeu, nem mago, nem muçulmano.
Não sou do Leste, nem do Oeste, nem da terra, nem do mar.
Não sou da mina da Natureza, nem dos céus giratórios.
Não sou da terra, nem da água, nem do ar, nem do lume.
O meu lugar é o sem-lugar, o meu sinal é o sem-sinal.
Descartei a dualidade, vim que os dois mundos são um;
Um busco, Um conheço, Um vejo, Um chamo.
Estou embriagado com a copa do Amor,
Os dois mundos desapareceram da minha vida.

IV

Um semâzen? Um semâzen não é exótico, ou é: tudo é relativo. Somos estranhos os uns para os outros quando nos desconhecemos. Para um semâzen é normal ser semâzen, como para um sapateiro ser sapateiro. Para um galego não é raro ser galego e para um hindu é própria a sua origem. Um semâzen dança, a girar na harmonia cósmica dos planetas para ascender à verdade. É incomum procurar a verdade? Eu a conheci num olhar. Julgas-me louco? Bem podes. Na casa também andam a resmungar. Antes queixavam-se porque saía muito, agora preocupam-se pelo contrario. As considerações sobre o normal e o anormal são relativas.

V

Achar-te aqui foi uma surpresa. Dilara acabou também por volver às origens. Ocupa um quarto desta casa. Sei que sempre tens estado muito próximo a ela, e por ti fui convidado à festa do seu aniversario, lembras? Mas não sabia…

Na loja que o pai de Aylin tinha na nossa terra havia uns braceletes formados por olhos de turco de cor parda. Agora que o penso, aquela espécie rara de nazar bokuc também a mim me lembrou a tua amiga.

Sinto-me feliz com a tua vinda. Achega-te: giraremos com os dervixes em torno ao mundo e saberemos das palavras profundas, as que levam nos olhos Dilara e Aylin.

Sobre o autor / a autora

Iolanda R. Aldrei

Iolanda R. Aldrei

(Galiza)

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