O legado do carvão em <em>Rainhas da Noite</em>, de João Paulo Borges Coelho

O legado do carvão em Rainhas da Noite, de João Paulo Borges Coelho

0 comentários 🕔10:00, 26.Mar 2014

O texto literário, no geral, é caracterizado por estabelecer um diálogo com o meio social e cultural a que está agregado. Cada detalhe é importante para que o leitor se sinta integrado no espaço descrito, quase como participante do enredo criado pelo escritor e/ou narrador. Em Rainhas da Noite (2013), novo romance de João Paulo Borges Coelho, a ideia precedentemente exposta é bastante saliente. Advirão várias leituras deste romance, contudo a eleita neste espaço é a: imigração.

Sem necessariamente escrever a palavra «imigração», João Paulo orla a volta da mesma para nos esclarecer o que motivava um indivíduo a sair do seu lugarejo e ir atrás de um compound. O apetite pelos recursos existentes em Tete, não é uma ideia nova ou que foi trazida pela Vale ou Rio Tinto. Por volta de 1970, muitos europeus já cobiçavam as riquezas de Moatize. A ida a Moatize aconteceu, também, com gente que vivia nas margens do Zambeze, da Beira e do Dondo. Já nesse período o negócio fulcral gravitava à volta do carvão, embora se fizesse agricultura em menor escala. Contudo, os Negócios Indígenas, na óptica Agnès Fink (personagem leitmotiv da narrativa), deviam ter como foco o regulado M`Boola, pois este preceituado é que devia produzir hortas –indústria que era mais saliente e remunerável nesse período– como forma de alimentar o compound dos mineiros. Ou seja, para que existisse uma boa produtividade de carvão, os mineiros tinham de se alimentar. Esta lógica, fez com que Moatize fosse povoada por gente estranha a ela.

Se o tema central do romance é a mineração do carvão, que atrai gente de diversas partes, quem são as «rainhas da noite»? Este epíteto de «rainhas da noite» não faz referência a mulheres bonitas ou pomposas. São, sim, «florezinhas brancas que têm o poder de cegar a terra, mas que quando trituradas dão uma força titânica a quem as consome» (cf. pp. 40-41). Por inferência, pode-se supor que quem produz o carvão são as «rainhas da noite», por isso para arrancar o carvão do solo é preciso, necessariamente, tomar essa flor. Alfa e ómega?

João Paulo, com o seu punho de historiador, nos prova que o espaço constitui uma das mais importantes espécies da narrativa. O espaço se institui como uma categoria pela sua incidência semântica. Por isso, as articulações funcionais estabelecem Moazite como o Eldorado. Sem rodeios, actualmente, a maioria de nós gostava de emigrar para Tete por causa do carvão e de todos os minerais que lá se vislumbram. Mas o narrador, usando o subconsciente de Ernesto Cambala (um dos personagens), nos alerta que: «às vezes, somos como cegos. Partimos para longe à procura daquilo que temos em casa» (p. 109).

Eis, o protótipo que esta obra nos deixa: temos de saber com que «rainhas de noite» nos sustentamos para irmos ao encontro daquilo que tanto desejamos.

Rainhas da Noite (2013). João Paulo Borges Coelho. Editora Caminho. ISBN: 9789722126526.

Sobre o autor / a autora

Cremildo Bahule

Cremildo Bahule

(Moçambique)

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