Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (II) ~ Jaufré Rudel

0 comentários 🕔11:30, 02.Abr 2014

JAUFRÉ RUDEL (…1125-1148…): Lanquan li jorn son lonc en mai (tradução de Graça Videira Lopes)

Lanquan li jorn son lonc en mai
m’es belhs douç chans d’auzelhs de lonh,
e quan mi sui partitz de lai,
remembra.m d’un’amor de lonh;
vau de talan embroncs e clis,
si que chans ni flors d’albespis
no.m platz plus que l’iverns gelatz.
 
Já mais d’amor no.m jauzirai,
si no.m jau d’est’amor de lonh,
que gençor ni melhor no.n sai
vés nulha part, ni prés ni lonh;
tant es sos pretz verais e fis
que lai e.l renh dels sarrazis
fos iéu per liéis chaitius clamatz.
 
Iratz e jauzens m’en partrai,
s’iéu la vei, cest’ amor de lonh;
mas non sai quoras la veirai,
car trop son nostras terras lonh.
Assatz i a pas e camis!
e per aiçó non sui devis…
Mas tot sia cum a Diéu platz!
 
Be.m parrá jóis quan li querrai,
per amor Diéu, l’amor de lonh;
e, s’a liéis platz, albergarai
prés de liéis, si be.m sui de lonh.
Adonc parrá.l parlamens fis
quan, drutz lonhdás, er tan vezis
qu’ab cortês ginh jauzis solatz.
 
Be tenc lo Senhor per verai
per qu’iéu veirai l’amor de lonh;
mas, per un ben que m’en eschai,
n’ai dos mals, car tant m’es de lonh.
Ai! car me fos lai pelegris,
si que mos fustz e mos tapis
fos pels siéus belhs uelhs remiratz!
 
Diéus, que fetz tot quant ve ni vai
e formet cest’amor de lonh,
mi dón poder, que cór iéu n’ai,
qu’iéu veia cest’amor de lonh,
veraiamen, en locs aizis,
si que la cambra e.l jardis
mi resemblés totz temps palatz.
 
Ver ditz qui m’apela lechai
ni desiron d’amor de lonh,
car nulhs autres jóis tan no.m plai
cum jauzimen d’amor de lonh.
Mas çó qu’iéu vuelh m’es tan taís!
Qu’enaissi.m fadét mos pairis
qu’iéu amés e non fos amatz.
 
Mas çó qu’iéu vuelh m’es tam taís!
Tot sai mauditz lo pairis
que.m fadet qu’iéu non fos amatz.
 
Quando os dias são já longos em maio
doce me é o canto dos pássaros de longe,
e quando me afasto dali
lembro-me de um amor de longe;
vou, de desejo, curvado e triste,
tal que nem canto ou flor de branco-espinho
me agradam mais que o inverno gelado.
 
Jamais prazer de amor terei
se não tiver este amor de longe,
pois de melhor nem mais gentil não sei
em qualquer parte, seja perto ou longe;
tão certo é o seu valor, tão elevado,
que lá no reino dos Sarracenos
fosse eu por ela cativo chamado.
 
Triste e contente me partirei
se um dia vir este amor de longe;
mas não sei em que hora a verei,
que muito são as nossas terras longe.
Assaz há passos e caminhos!
E por isso não sou adivinho…
Mas seja tudo como Deus quiser!
 
Alegria será quando lhe pedir,
por amor de Deus, o amor de longe;
e se lhe aprouver, albergarei
mui perto dela, se bem sou de longe;
então virá a conversa perfeita,
quando, amante longínquo, serei tão vizinho
que de cortês gesto goze o favor.
 
Bem tenho o Senhor por verdadeiro,
que me fará ver o amor de longe;
mas por um bem que dele me vem,
dois males eu tenho, pois me está tão longe.
Ai! assim fosse até lá peregrino,
e fossem meu bordão e minha esclavina
por seus belos olhos contemplados.
 
Deus, que fez tudo o que vem e vai,
e criou este amor de longe,
me dê o poder – que ânimo terei –,
de ver em breve este amor de longe,
verdadeiramente, em lugar propício,
em tal que o quarto e o jardim
me parecessem todo o tempo palácio.
 
Verdade diz quem me chama ávido
e desejoso de amor de longe;
pois gozo nenhum me agrada mais
como o prazer do amor de longe.
Mas o que eu quero me tarda tanto!
Que assim me fadou meu padrinho
que eu amasse e não fosse amado.
 
Mas o que eu quero me tarda tanto!
Maldito seja para sempre o padrinho
que me fadou que eu não fosse amado!
 

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