Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (III) ~ Marcabru

0 comentários 🕔10:00, 09.Abr 2014

MARCABRU (…1130-1149…): Dirai vos senes duptança (tradução de Graça Videira Lopes)

Dirai vos senes duptança
d’aquest vers la començança:
li mot fan de ver semblança
– Escoutatz! –
qui vés Proeza balança
semblança fai de malvatz.
 
Jovens falh e franh e brisa,
e Amors es d’aital guisa
de totz cessals a ces prisa:
– Escoutatz! –
chascus en pren sa devisa,
já póis no.n será quitatz.
 
Amors vai com la beluja
que coa.l fuec en la suja:
art lo fust e la festuja
– Escoutatz! –
e non sap vas qual part fuja
cel qui del fuec es gastatz.
 
Dirai vos d’Amor com sinha:
de çai guarda, de lai guinha,
çai baisa, de lai rechinha.
– Escoutatz! –
Plus será dreicha que linha
quand iéu serai sos privatz.
 
Amors solia ésser drecha,
mas er es torta e brecha
e a coilhida tal decha:
– Escoutatz! –
lai on non pot mordre, lecha,
plus aspramens no fai chatz.
 
Gréu será mais Amors vera
pós del mel triét la cera,
ans sap si pelar la pera!
– Escoutatz! –
Douça.us er com chans de lera,
si sol la coa.l troncatz.
 
Ab diables pren barata
qui fals’Amor acoata;
no.lh cal qu’autra verga.l bata:
– Escoutatz! –
plus non sent que cel qui.s grata
tró que s’es vius escorjatz.
 
Amors es mout de mal avi:
mil homes a mortz ses glavi,
Diéus non fetz tant fort gramavi
– Escoutatz! –
que tot nesci del plus savi
non faça, si.l ten al latz.
 
Amors a usatge d’ega
que tot jorn vol qu’hom la sega,
e ditz que no.lh dará trega
– Escoutatz! –
mas que puej de leg’en lega,
sia dejus ó disnatz.
 
Cujatz vos qu’iéu non conosca
d’Amor s’es orba ó losca?
Sos digz aplan’e entosca;
– Escoutatz! –
Plus suau ponh qu’una mosca,
mas plus gréu n’es hom sanatz.
 
Qui per sen de femna renha
dreitz es que mals li.n avenha,
si cum la Letra.ns ensenha;
– Escoutatz! –
malaventura.us en venha
si tuch no vos en gardatz!
 
Marcabrus, filhs Marcabruna,
fo engenratz en tal luna
qu’el sap d’Amor cum degruna,
– Escoutatz! –
quez anc non amet neguna,
ni d’autra non fo amatz.
Direi-vos sem duvidar
deste verso o começar:
palavras fingem verdade
– Escutai! –
quem em Proeza balança
figura faz de malvado.
 
Juventude erra e quebra,
e o Amor é de tal jeito
que a todos chama ao seu censo
– Escutai! –
cada um sua parte paga,
e já nunca será saldada.
 
O Amor é como a faúlha
que incuba o fogo na cinza:
arde a madeira e a palha
– Escutai! –
e não sabe a que parte fuja
quem pelo fogo é devorado.
 
Direi-vos de Amor sinais:
daqui olha, dali pisca,
aqui beija, ali refila
– Escutai! –
mais direito do que linha
será quando eu for seu privado.
 
Amor era antes direito
mas ora é torto e mal feito,
e apanhou um tal jeito:
– escutai! –
se não pode morder, lambe,
mais asperamente que um gato.
 
A custo será o Amor vero
se já do mel tirou a cera;
mas sabe bem pelar a pera!
– Escutai! –
Doce será como canto de lira
se a cauda lhe cortardes.
 
Com diabos vai à praça
quem com falso Amor se abraça;
nem precisa que outra vara lhe bata:
– Escutai! –
não sente mais do que quem se aranha
até vivo se ter esfolado.
 
Amor é de mau aviso:
mil homens matou sem lança,
Deus não fez maior gramático
– Escutai! –
que já nécio do mais sábio
faz, se o tem no laço.
 
Amor tem modos de mula
que teima que homem a siga
e diz que lhe não dará trégua
– Escutai! –
mas que suba de légua em légua,
seja em jejum ou jantado.
 
Cuidais vós que eu não conheça
do Amor se é cego ou vesgo?
Seus dizeres aplana e alisa;
– Escutai! –
mais suave pica que mosca,
bem mais duro é ser curado.
 
Quem por siso de mulher se rege
justo é que mal lhe venha,
como a Escritura o ensina;
– Escutai! –
má ventura assim vos venha
se não quereis tomar cuidado!
 
Marcabru, filho de Marcabrua
foi engendrado em tal lua
que sabe o Amor descascar
– Escutai! –
e pois nunca amou nenhuma,
nem por qualquer foi amado.

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