Poemas (II), por Xurxo Nóvoa Martins

Poemas (II), por Xurxo Nóvoa Martins

0 comentários 🕔10:30, 09.Abr 2014

ICTIOLOGIA

Hoje não tenho versos
para te enviar.
Só solidão.
Saltimbanco sem rede,
fruta sem pele,
ausência do sal e da sombra
preguiçosa;
do teu olhar maroto,
espelho quebrado no check-in;
do vinho da tua voz
degustado com sede e devagar,
do eclipse
do teu sorriso em Compostela
com as ruas dentro;
do teu sexo de grinaldas
cor-de-rosa;
da espuma branca
a embalar minhas noites.

*

Ester

Os escritores só sabem
é de crimes e de viagens;
o poeta então só sabe
de esperas nos aeroportos,
de filas e de atrasos,
dos formulários de imigração,
de aeromoças orientais
de sorriso aberto e meigo
e um inglés indecifrável;
da chegada a São Paulo
um 27 de Dezembro;
da chuva de verão
e o céu cinzento na rodovia,
do calor e o suor
pingando entre as estrelas
de Natal
que enfeitam a Paulista;
de bares arretados,
de moteis e a catedral
a brilhar como estrela
de mar entre a garua,
do pessoal pela rua,
nos pontos de ónibus,
dormindo e tremendo
sob a chuva teimosa;
dos postos de polícia
piscando e refletindo
nas janelas do carro.

Ester “me guia” na cidade,
convida-me a jantar
pizza da noite passada
e vodka com limão,
dá-me aconchego e conversa,
um café na tormenta,
e o sol e a lua tatuados
no final das suas costas
lembram-me que a saudade
não é crime,
é castigo.

*

SEMBA DE BALEIA

Dorme caminhando,
e mesmo parada ela anda
[Tradição oral Umbundu, Angola]

Fiquei apeixonado
pelo mar,
pelas fatias de lua,
pelo pianista
no que atiram
sem pestanejar.

Achava que as palavras
zuniam como as abelhas
que até as formigas
da fábula
dançavam
na poeira
desta seiva vermelha.

Na noite quebrada
as costas magoadas
da Terra
esticam o seu couro
para fazer tambor.

Como uma criança
a esperança chora,
como o humbi humbi
a minha alma voa
por cima
da aguarela
das fronteiras,
do umbigo
das baleias,
da gasosa
que fazem
as ondas
na areia

Fiquei apeixonado
pelos rios,
pelas fatias de tempo
temperadas de quiabo,
pelas kiandas morenas
tépidas como estrelas
que cintilam
com a brilhantina salgada
das marés.

Pela verdade vendida
que no frio vira
combustível fóssil,
pela dignidade
que bate
como vento no musseque,
pelo momento
no que gritamos
liberdade.

*

Canto deVAGAr

Água de mar sal
iva de sílabas
ar om
a chuva
: h o r i z o n t a l ;
e fres
ca amor
discos nas cos
tas mal u
co amor
discos cant
os re
dondos sal
i vam
& vêm
as o
n das

Sobre o autor / a autora

Xurxo Nóvoa Martins

Xurxo Nóvoa Martins

(Galiza) Xurxo Nóvoa Martins nasceu Vigo em 1975. É licenciado em Filologia Hispânica e Filologia Galega e Portuguesa pela Universidade de Vigo. Poeta e ator ocasional (é uma das personagens masculinas do filme “Artaud em Compostela” do poeta e realizador brasileiro Márcio-André). Textos de canções, crónicas e poemas seus aparecem nos discos “Meu canto” (2011) de Uxía, “Magnético Zen” (2011) de Xoán Curiel, melhor álbum galego nos "V premios da música independiente" (2013), “Son Brasilego” (2013) de Sérgio Tannus e “Na língua que eu falo” (2013) de Najla Shami, com a qual colabora assiduamente como letrista. Poemas e letras suas aparecem aliás no livro-CD-DVD “CoraSons” (Kalandraka, 2013) e no livro “Quem vê Corações” (2013), editado pelas Edições Afrontamento em Portugal. Fez parte do grupo Bilbao de poetas galegos em Madrid e publicou poesia e microcontos na revista de estudos galegos da Universidade Complutense de Madrid “Madrygal” e nos livros coletivos Marés nos Pousos do café e Madrid era unha praia de baleas entre néboas, entre outros. Colaborou também com o coletivo poético “A Porta Verde do Sétimo Andar”, em Pegadas. Produtor e organizador de eventos culturais lusófonos como o Festival FIGA 2009 no espaço cultural brasileiro Kabokla em Madrid, o Encontro de Escritores da Lusofonia no Palácio da Brejoeira em Monção-Portugal, a Apresentação do Instituto Cultural Brasil-Galiza na Casa do Brasil de Madrid ou o éMundial em Vigo-Galiza. Atualmente, continua esta atividade na “Ciranda, à volta do Português” em Santiago de Compostela e foca a sua energia criadora como poeta, letrista, e cantor, a preparar o que será o primeiro trabalho poético-musical com a sua banda, Guilherme e Bastardo.

Sem comentários

Ainda não há comentários

Ninguém deixou um comentário para este post ainda!

ESCREVA UM COMENTÁRIO SOBRE ESTE POST

Escrever um comentário 

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *