<em>Um homem, uma cabra-loura, um horizonte de eventos</em>

Um homem, uma cabra-loura, um horizonte de eventos

0 comentários 🕔11:30, 09.Abr 2014

Havia um homem que dentro de si caminhava.

Ele seguia sem direcção, absorto pelo número de vezes que perscrutava o céu, num abismo de olhar, entre a melancolia e a admiração, que o fazia crer que em algum sítio haveria de entender o percurso que trilhava. A estrada abria-se no horizonte de eventos, numa amplitude espacial que o abrangia. Já não sabia, a certo ponto, se o que via diante de si seria um trilho ou um sonho. Já não sabia. Estava confusamente sóbrio dentro de um pensamento. Conversava, no meio da caminhada, com os bichos que ia encontrando. Falava sempre, mesmo que passassem fugazes, mesmo que só as palavras ficassem penduradas no eco. Tinha passado um esquilo tão veloz de uma ponta à outra do caminho, que mal tinha tido hipótese de o felicitar com um dito bom dia, até porque o próprio dia também já se tinha ido, sorrateiramente, com uma cauda em haste e um olhar patusco, entre sentido de missão para futuro e receio do que vem atrás. Também passara um rato do campo, como um relâmpago e, nesse momento em que o avistara, sendo já noite, ficara somente uma exclamação, como que lembrando a sua mãe que, em desajuste histérico com a realidade, subia às cadeiras da cozinha, com muito nojo dos pequenos carnívoros. Tinha, depois, passado uma cabra loura, muito lentamente, e fora nesse exacto momento que tivera tempo suficiente para cumprimentá-la, saber das suas angústias mais profundas, inteirar-se das dificuldades do animal para sobreviver ao inverno e de outros pormenores, relacionados com as estações, os predadores, as presas e outros assuntos de prioritário interesse para a cadeia alimentar. O lucano dava-lhe o que antes não tinha – tempo. Por vezes, há coisas estranhas que favorecem a reflexão, como a travessia da estrada, por este bicho de uma dinâmica impressionante. O homem dava consigo a pensar na tecnologia de que dispunha: um telemóvel, um isqueiro, um abre-latas, uma prótese dentária, duas lentes de contacto…Depois parou onde a estrada se bifurcava e acendeu um cigarro. O vento parecia louco. Não parava de o impedir de avançar, nem de ficar ali quieto, como arbusto. Não seria propriamente um furacão, mas uma ventania considerável que fazia com que todos aqueles objectos se soltassem de si, como ímanes, em direcção a parte incerta. O homem começava a ficar aflito e muito seriamente sem saber o motivo da mudança de humor do tempo. Tivera de se agarrar a uma árvore. Os cigarros tinham sido lançados pelo bosque que ladeava o percurso térreo, o isqueiro tinha caído e algum deslize de terras o soterrara, o telemóvel caíra e desconjuntara-se, arrastado pela força do ar em direcção a uma rocha, as lentes soltaram-se dos olhos porque os esfregara para enxergar os passos e, enfim, só tinha restado do bionicle uma prótese. Ainda segurado com toda a força a uma árvore que, embora delgada, ainda o sustinha, o homem desafiava-se, estoicamente, a si mesmo. Acabava de reparar que tinha músculos poderosos e que este impasse atmosférico poderia bem ser um exercício de treino de sobrevivência. Começava a rir-se da situação. Pouco depois, dera por si a pensar que não tinha cigarros e que o próximo café ainda estaria longe, talvez a uns dez quilómetros dali. De súbito, começava a sentir a terra tremer, juntamente com a árvore e o seu corpo, cujos pés se começavam a enterrar, cada vez mais, à medida que respirava, numa espécie de implosão lenta de areia movediça. A cabra–loura aparecera de novo e fora juntar-se à sua aflição, dizendo implicitamente que estava ali para o imprevisto que a vida lhes tinha proporcionado. Parecia simpática e tivera, muito prestável, uma solução: com a sua tecnologia de ponta, perfurara o chão e acelerara, generosamente, o processo da queda. Já não teria sido preciso esperar para que o homem se despedisse da existência, em sofrimento atroz, como é próprio dos mártires. Aquele rompimento rápido da terra, em jeito de eutanásia, fizera com que o homem acordasse de rompante com a luz aguda da manhã que entrava por um dos rasgos do para–vento que servia de cortina de quarto. Tinha a carocha razão, quando concordara em experimentar um sono partilhado com o seu sem–abrigo de estimação, com o qual coabitava o mesmo vão de escadas exteriores. Ficava esse não–lugar numa das ruas mais estreitas e sombrias de Lisboa, na 11ª dimensão.

Marília Miranda Lopes

Sobre o autor / a autora

Marília Lopes

Marília Lopes

(Portugal) Marília Miranda Lopes nasceu no Porto, em Portugal. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade da cidade onde nasceu. É professora de Língua Portuguesa do Ensino Secundário e formadora pelo Conselho Científico -Pedagógico de Formação Contínua nas áreas das Didácticas Específicas e das Oficinas de Escrita – Poesia e Teatro. Foi bolseira dos Serviços de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, ao abrigo do programa “Dramaturgia Portuguesa”. Integrou a representação do Norte de Portugal no Congresso Luso-Galaico “O Livro e a Leitura”, realizado em Santiago de Compostela, juntamente com António Cabral, A. M. Pires Cabral, António Mota, Miguel Miranda, Luísa Dacosta, João Pedro Vaz, Manuela Bacelar, Manuel António Pina, entre outros escritores. Participou nos Primeiros Encontros Poéticos de Espanha e Portugal, organizados por Jesus Losada, em Alcanices. Participou, juntamente com Maite Dono, Fernando Echevarría, José Luis Peixoto e Valter Hugo-Mãe, entre outros poetas, no calendário para o ano de 2002, organizado por ADATA, textos estes lidos no mesmo espaço da Raya. É autora de canções para a infância que integram vários projectos de animação do livro e da leitura a partir da obra de Aquilino Ribeiro, dos irmãos Grimm e de Alfonso Sastre. Escreveu ““Framboesas” (Teatro, 1996), Geometria (poesia, 1998), O Escudo Invisível (conto da antologia “Histórias Tiradas da Gaveta – edições Tellus); ““Maria da Silva, pastora e rainha”(peça ainda inédita, representada pela Filandorra- Teatro do Nordeste; 2002) “Templo” (poesia, colecção Tellus, nº10; 2003); “Duendouro – Era uma vez um rio…” (Teatro, 2007 - Edições Afrontamento – livro incluído no Plano nacional de Leitura), “Aqua” (conto, 2012 - incluído na antologia Pegadas com autores portugueses e espanhóis – de A Porta Verde do Sétimo Andar) e “Castas” (Poesia, 2012 – Cadernos Q de Vien de A Porta Verde do Sétimo Andar – Galiza, Espanha). Tem participado, com poesia e prosa, em algumas revistas literárias e antologias (Portugal, Espanha, África e Brasil), entre as quais a “Arqueologia da Palavra (coordenada por Amosse Mucavele, Moçambique, 2013) e “Recordando a trina…” (organizada por Ahmed Mohamed Mgara, Tetuán, 2013). Tem escrito recensões literárias, algumas das quais publicadas na revista Letras & Letras e, ultimamente, na Revista Nova águia nº 13, a propósito da homenagem ao poeta António Ramos Rosa. Autora de várias canções, ainda inéditas, realiza, em quarteto, alguns concertos poético – musicais.

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