Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (IV) ~ Raimbaut D’ Aurenga

0 comentários 🕔10:15, 16.Abr 2014

RAIMBAUT D’ AURENGA (…1147-1173…): Er resplan la flor enversa (trad. Graça Videira Lopes)

Er resplan la flors enversa
pels trencans rancs e pels tertres.
Quals flors? Néus, gels e conglapis
que cotz e destrenh e trenca,
don vei mortz quils, critz, brais, siscles
pels fuelhs, pels rams e pels giscles.
Mas mi ten vert e jauzen Jóis
er quan vei secs los dolens cróis.
 
Car enaissi o enverse
que bel plan mi semblon tertre,
e tenc per flor lo conglapi,
e·l cautz m’es vis que·l freit trenque,
e·l tron mi son chant e siscle,
e paró·m fulhat li giscle.
Aissi·m sui ferm laçatz en jói
que re non vei que·m sia crói.
 
Mas una gen fada enversa,
com s’érom noirit en tertres,
qu·m fan pró piegs que conglapis,
qu’us quecs ab sa lenga trenca
e·n parla bas et ab siscles;
e no i val bastôs ni giscles,
ni menaças, ans lur es jóis
quan fan çó don hom los clam cróis.
 
Qu’ar en baisan no·us enverse
no m’o tólon glatz ni tertre,
dona, ni gel ni conglapi;
mas non-poder trop en trenque.
Dóna, per cui chant e siscle,
vostre belh uelh mi son giscle,
que·m castíon si·l cór ab jói
qu’iéu no·us aus aver talant crói.
 
Anat ai com causa enversa
lonc temps cercan vals e tertres,
marritz cum hom que conglapis
cocha e mazelha e trenca
– que anc no·m conquis chans ni siscles
plus que fols clercs conquer giscles.
Mas ar, Diéu lau, m’alberga Jóis,
malgrat dels fals lauzengiérs cróis.
 
Mos vers an – qu’aissi l’enverse,
que no·l tenhon val ni tertre –
lai on hom non sen conglapi,
ni a freitz poder que i trenque:
a midons lo chant e·l siscle
clar, qu’e·l cór li n’intro·l giscle,
celh que sap gen chantar ab jói;
que no tanh a chantador crói.
 
Douça dóna, Amors et Jóis
nos ajusten malgrat dels cróis.
 
Joglar, granré ai menhs de jói,
car no·us vei, e·n fas semblan crói.
Ora resplande a flor inversa
pelos agrestes penhascos e pelos cerros.
Qual flor? Neve, gelo, geada branca
que seca e aperta e corta,
e morrem silvos, gritos, trinados, assobios
pelas folhas, pelos ramos, pelas varas;
mas verde e feliz me mantém a alegria
ora que vejo secos os malvados e vis.
 
Pois de tal forma tudo inverto
que belas planícies me parecem cerros,
e por flor tenho a geada branca,
e o calor me parece que o frio corta,
o trovão me soa a canto e assobio
e frondosas me parecem as secas varas
– tão firme e preso estou à alegria
que nada vejo que me seja vil.
 
Pois uma gentil fada os inverte,
como se fossem criados em cerros,
os que pior me fazem que a geada branca
– que cada um com a sua língua corta
e fala baixinho e com assobios;
e de nada valem bastões nem varas,
nem ameaças, antes rejubilam
quando fazem o que lhes dá nome de vis.
 
Que vos beijando eu vos inverta
não mo impedem planícies nem cerros,
dona, nem gelo nem geada branca;
mas o não-poder muito me corta.
Dona, por quem canto e assobio,
vossos belos olhos para mim são varas
que me educam o coração na alegria,
e já não ouso ter desejo vil.
 
Andei todo eu como coisa inversa
por muito tempo, buscando vales e cerros,
infeliz como aquele a quem a geada branca
persegue, atormenta e corta
– pois nunca ganhei com cantos ou assobios
mais do que o falso clérigo conquista: varas.
Mas ora, a Deus graças, me alberga a alegria,
mau grado os falsos maldizentes vis.
 
O meu verso vá – que assim o inverto,
para que o não detenham vales nem cerros –
ali onde não se sente a geada branca,
nem o frio tem poder para cortar:
à minha senhora, o canto e o silvo
claro – e que no coração lhe entre a vara –
daquele que sabe gentil cantar de alegria;
pois não convém a cantador vil.
 
Doce dona, amor e alegria
nos ajustem, mau grado os vis.
 
Jogral, assaz tenho eu menor alegria,
pois não vos vejo e faço cara vil.

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