Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (V) ~ Raimbaut D’ Aurenga e Giraut De Bornelh

0 comentários 🕔09:30, 23.Abr 2014

RAIMBAUT D’AURENGA e GIRAUT DE BORNELH: Era.m platz, Giraut de Bornelh (tradução de Graça Videira Lopes)

– Ara·m platz, Giraut de Bornelh,
que sapcha per qu’anatz blasman
trobar clus, ni per qual semblan.
Aiçó·m digatz,
si tan prezatz
çó que es a totz comunal;
car adonc tuch fôran egal.
 
– Senher Linhaurei, no·m corelh
si quecs s’i trob’a son talan;
mas éu son jujaire d’aitan:
qu’es mais amatz
e plus prezatz
qui·l fai levet e venansal;
e vos no m’o tornetz a mal.
 
– Giraut, non volh qu’en tal trepelh
torn mos trobars: que·l láuzon tan
l’avol co·l bon, e·l pauc co·l gran;
Já per los fatz
non er lauzatz,
car non conoisson, ni lor cal,
çó que plus car es ni mais val.
 
– Linhaure, si per aiçó velh,
ni mon sojorn torn en afan,
sembla que·m dopte de mazan.
A que trobatz
si non vos platz
qu’adés o sapchon tal e qual?
Que chans non port’autre captal.
 
– Giraut, sol que·l melhs aparelh
e·l diga adés e·l traga enan,
mi non cal si tan non s’espan;
qu’anc grans viltatz
non fo denhtatz:
per çó prez’hom mais aur que sal,
e de chant es tot atretal.
 
– Linhaure, fort de bon conselh
etz, fis amans contrarian;
e peró, si n’ai mais d’afan,
mos sos leva atz,
qu’us enraumatz,
lo·m deissazec e·l diga mal,
que no·l dei ad home cessal.
 
– Giraut, per cel ni per solelh
ni per la clardat que resplan,
non sai de que anêm parlan,
ni don fui natz!
Si soi torbatz
tan prês d’un fin jói natural:
quan d’als cossir, no m’es coral.
 
– Linhaure, si·m vira·l vermelh
de l’escut cela que reblan,
qu’éu dic “a Déu mi coman!”.
Quals fols pensatz
outracuidatz
me trais doptanza desleial?
No·m sovê com me fez comtal?
 
– Giraut, gréu m’es, per San Marçal,
car vos n’anatz de çai Nadal.
 
– Linhaure, que vés cort reial
m’en vauc adés, ric e cabal.
– Ora me praz, Giraut de Bornelh,
saber por que andais criticando
o trovar clus, nem por que razão.
E que me digais
se tanto prezais
o que a todos é comum;
pois então todos seriam iguais.
 
– Senhor Linhaure, não me queixo
se cada qual trova como quer;
mas eu mesmo quero julgar
que é mais amado
o canto e prezado
quando alguém o faz leve e popular;
e não me deveis isso a mal levar.
 
– Giraut, não quero que em tal confusão
se transforme o meu trovar: que o louvem tanto
o mau como o bom, o pequeno e o grande.
Já pelos tolos
nunca será louvado,
pois não distinguem, nem com isso se ralam,
o que mais precioso é ou que mais vale.
 
– Linhaure, se eu fico acordado
e o meu descanso se converte em afã,
parece-me que me preocupo com o que dirão.
Por que trovais
se não vos apraz
que depois o saibam tal e qual?
Que o canto não traz outro galardão.
 
– Giraut, contanto que conceba o melhor,
e o diga logo e o leve por diante,
pouco me importa se não se espalha tanto:
que nunca o mui vulgar
foi coisa digna;
por isso se preza mais o ouro que o sal,
e com o canto acontece outro tal.
 
– Linhaure, de mui bom conselho
sois, os fiéis amantes contrariando…
E no entanto, se me custa maior afã,
o meu cantar leva a melhor
de um enrouquecido
que o estropie ou o cante mal,
se não o dei a um cantor mandrião.
 
– Giraut, pelos céus, ou pelo sol
ou pela claridade que resplandece,
não sei de que estamos falando,
nem onde nasci!
Assim estou turvado
e tão preso à firme alegria natural
que, se noutra coisa penso, não me sai natural.
 
– Linhaure, tanto me mostra o vermelho
do escudo aquela que cortejo,
que eu só digo: “A Deus me encomendo!”
Mas que louco pensamento
temerário
me traz a dúvida desleal?
Esqueço-me que ela me fez condal?
 
– Giraut, pesa-me, por S. Marçal,
que tenhais de vos ir antes do Natal.
 
– Linhaure, é que para corte real
me vou agora, rica e principal.

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