Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (VI) ~ Bernart Martí (meados do século XII)

0 comentários 🕔09:30, 30.Abr 2014

BERNART MARTÍ: Bel m’es lai latz la fontana (tradução de Graça Videira Lopes)

Bel m’es lai, latz la fontana,
erba vertz e chant de rana,
com s’obrei
pel sablei
tota nuéit fors a l’aurei,
e.l rossinhol móu son chant
sotz la fuelha e·l vergant.
Sotz la flor m’agrada
douç’amor privada.
 
Dona es vas drut trefana
de s’amor, pós três n’apana;
estra lei
n’i son trei.
Mas ab son marit l’autrei
un amic cortês prezant.
E si plus n’i vai cercant,
es desleialada
e puta provada.
 
Mas si.l drutz premérs l’engana
– engans, si floris, non grana –
lai felnei
ses mercei,
mas ben gart, no s’ensordei.
Qui s’amiga vai trichant,
trichatz deu anar musant.
Amiga trichada,
puóis: «Bada, fols, bada!»
 
Be.m det Diéus bon’escarida
d’amor; si.m fos ben aizida,
lai manei
e dòmnei;
non es hom que melhs estei.
Ges non ai mon cór voiant
d’amor, quan m’en vauc prezant
per Na Desirada;
mas trop m’es lunhada.
 
Tant m’es grail’e grass’e plana
sotz la camisa ransana,
quan la vei,
fé que.us dei,
ges no tenc envej’al rei
ni a comte, tan ni quant,
qu’assatz fauc melhs mon talant,
quan l’ai despolhada
sotz cortin’obrada.
 
m’amor mis, que.m fo dolçana:
ans la·m nei
que.m sordei,
mas la mélher no.m vairei.
L’esparviérs ab bel semblant
va del Pueg vés leis volant:
la longa trencada,
pren lai sa volada.
 
En bréu m’es com fils de lana
lo fortz fres e la capsana,
qui que.s grei,
çó.us autrei,
tota.l renga e·l correi.
Qu’aissi vauc entrebescant
los motz e.l sô afinant:
lêngu’entrebescada
es en la baisada.
Doce me é ali, junto à fonte,
erva verde e canto de rã,
quando se afana
pela areia
pela noite fora ao vento,
e o rouxinhol ergue o seu canto
sob a folha, no seu ramo.
Sob a flor me agrada
doce amor secreto.
 
A dama é, para o amante, malvada
se o seu amor por três reparte;
é fora da lei
se são três.
Mas, com seu marido, lhe concedo
um amigo cortês e prezado.
E se mais vai buscando,
é desonrada
e puta provada.
 
Mas se o amante primeiro a engana
– engano, se floresce, não dá grão –
engane-o ela
sem mercê,
mas bem se guarde de se aviltar.
Quem sua amiga vai traindo,
traído deve ficar esperando.
Amiga traída,
logo: “Pasma, tolo, pasma!”
 
Deus me deu boa fortuna
em amor; se me for bem azado,
logo acaricio
e cortejo;
e não há homem que melhor esteja.
Não tenho o coração vazio
de amor, quando me vou brioso
por Dona Desejada;
mas longe demais está.
 
É tão esbelta, suave e lisa
sob a camisa de Reims,
que, quando a vejo,
por minha fé,
não sinto inveja do rei,
nem de conde, pouca ou muita;
que assaz faço o que me agrada,
quando a tenho despida
sob cortina bordada.
 
En autr’amistat propdana
Noutra amizade mais próxima
meu amor pus, e me foi doce:
antes a neguei
do que me aviltei,
pois da melhor não vario.
O gavião de belo semblante
vai do Puig para ela a voar:
o cordel cortado,
para lá se ergue no ar.
 
Leve é para mim, como fio de lã,
o forte freio e o cabresto,
pese a quem pese,
isso vos garanto,
e as rédeas todas com as correias.
Que assim vou entrelaçando
as palavras, e o som afinando:
como a língua entrelaçada
é no beijo.

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