Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (VII) ~ Bernart De Ventadorn (…1150-80…)

0 comentários 🕔11:09, 07.Mai 2014

BERNART DE VENTADORN (…1150-80…): tradução de Graça Videira Lopes
Quan vei l’alauzeta mover

Quan vei l’alauzeta mover
de jói sas alas contra∙l rai,
que s’oblida e.s laissa chazer
per la douçor qu’al cór li vai,
ai tan grans enveia m’en vê
de cui qu’eu veia jauzion!
Meravilhas ai, car dessê
lo cór de dezirér no.m fon.
 
Ai las! tan cuidava saber
d’amor, e tan petit en sai!
Car eu d’amar no.m posc tener
celeis don já pro non aurai.
Tot m’a mo cór, e tot m’a me,
e se mezeis e tot lo mon!
E can si.m tolc, no.m laissét re
mas dezirér e cór volon .
 
Anc non aguí de mi poder
ni no fui méus de l’ora en çai
que.m laisset en sos olhs vezer,
en un miralh que mout me plai.
Miralhs, póis me mirei en te,
m’an mort li sospir de prion,
qu’aissi.m perdiei com perdét se
lo bels Narcisus en la fon.
 
De las domnas me desesper;
já mais en lor no.m fiarai!
Qu’aissi com las suolh captener,
enaissi las descaptenrai.
Póis vei qu’una pro no m’en te
vas leis que.m destrui e.m cofon,
totas las dopt’ e las mescrê,
car be sai qu’atretals si son.
 
D’aisçó·s fa be femna parer
ma domna, per qu’éu.lh o retrai:
car no vol çó qu’hom déu voler,
e çó qu’hom li devéda, fai.
Chazutz sui en mala mercê,
e ai be fach co.l fols e·l pon!
E no sai per que m’esdevê,
mas car trop pugei contra mon.
 
Mercês es perduda, per ver,
e éu non o saubi anc mai,
car cilh qui plus en degr’aver,
no.n a ges; e on la querrai?
Ai! quan mal sembl’, a qui la vê,
qu’az aquest caitiu desiron
que já ses leis non aurá be,
laisse morrir, que no·lh aon!
 
Puóis ab midons no.m pot valer
precs ni mercês ni.l dreitz qu’éu ai,
ni a leis no ven a plazer
qu’éu l’am, já mais no.lh o dirai.
Aissi.m part de leis e.m recrê!
Mort m’a, e per mort li respon;
e vau m’en, puós ilh no.m retê,
caitius, en issilh, no sai on.
 
Tristans, ges no.n auretz de me,
qu’éu m’en vau, caitius, no sai on;
 
de chantar me lais e.m recrê,
e de jói e d’amor m’escon.
 
 
Lo temps vai e vem e vire
 
Lo temps vai e ven e vire
per jorns, per mês e per ans,
et éu, las! no.n sai que dire,
qu’adés es us mos talans.
Adés es us e no.s muda,
qu’una.n volh e.n’ai volguda,
don anc non aic jauzimen.
 
Póis ela no.n pert lo rire,
a me.n ven e dols e dans,
qu’a tal joc m’a fach assire
don ai lo peior dôs tans,
– qu’aitals amors es perduda
qu’es d’una part mantenguda-
tró que fai acordamen.
 
Be deuri’ésser blasmaire
de me mezeis, a razô,
qu’anc no nasquét cel de maire
que tan servis en perdô;
e s’ela no m’en chastia,
adés doblará.lh folia,
que fols no tém tró que pren.
 
Já mais no serai chantaire
ni de l’escola N’Eblô,
que mos chantars no val gaire
ni mas vóutas ni méi sô;
ni res qu’éu faça ni dia,
no conosc que prós me sia,
ni no.i vei melhuramen.
 
Si tot fatz de jói parvença,
mout ai dins lo cór irat.
Qui vid anc mais penedença
faire denan lo pechat?
On plus la prec, plus m’es dura!
Mas si·n breu tems no.s melhura,
vengut er al partimen.
 
Peró ben es qu’ela.m vença
a tota sa volontat,
que, s’ela a tort ó bistença,
adés n’aurá pietat!
Que çó mostra l’Escriptura:
causa de bona ventura
val us sols jorns mais de cen.
 
Já no.m partrai a ma vida,
tan com sia sals ni sas,
que póis l’arma n’es issida,
balaia lonc tems lo gras.
E si tot no s’es cochada,
já per me no.n er blasmada,
sol d’eus adenan s’emen.
 
Ai, bona amors encobida,
cors be fach, delgatz e plas,
frescha chara colorida,
cui Déus formét ab sas mas:
totz tems vos ai desirada,
que res autra no m’agrada;
autr’ amor no volh nien.
 
Douça res ben ensenhada,
cel que.us a tan gen formada,
me.n dô cel jói qu’éu n’aten.
Quando vejo a cotovia mover
de alegria as asas contra o raio,
que se esquece e se deixa cair
com a doçura que no coração lhe vai,
ai! tão grande inveja me vem
daqueles que veja andar contentes!
E maravilho-me como de repente
de desejo meu coração não se funde.
 
Ai eu! tanto cuidava saber
de amor e tão pouco sei!
Pois eu de amar não me posso abster
aquela cujo favor nunca terei.
Tem meu coração e tem-me todo a mim,
e a si própria e ao mundo inteiro!
E quando me prendeu nada mais me deixou
senão desejo e coração voraz.
 
Perdi já eu sobre mim o poder
e nunca mais fui meu desde o instante
em que me deixou nos seus olhos ver,
num espelho que me agrada tanto.
Espelho, pois me mirei em ti,
mataram-me os suspiros mais profundos,
que assim me perdi, como se perdeu
o belo Narciso na fonte.
 
Das donas me desespero,
não mais nelas me fiarei!
Que assim como as usava defender
assim as desabonarei;
pois vejo que nenhuma me auxilia
junto daquela que me destrói sem razão,
de todas duvido, de todas desconfio,
pois sei bem que todas iguais são.
 
Nisso faz bem o papel de mulher
a minha dona, o que condeno assaz:
pois não quer o que se deve querer
e o que lhe é vedado faz.
Caído sou em sua impiedade
e agi como o louco na ponte!i
E não sei porque me vou curvado
se não por querer subir muito alto.
 
Piedade está perdida a valer,
e eu não o soube jamais,
pois aquela que mais a deveria ter
não a tem; e onde a irei buscar?
Ah! como mal parece, a quem a vê,
que este desgraçado amador,
que já sem ela não encontrará bem,
deixe morrer, sem socorro lhe dar!
 
Pois com minha dama não me podem valer
preces, nem piedade, nem a razão que tenho,
nem a ela lhe causa prazer
que eu a ame, nunca mais lho direi.
E assim dela me afasto e me rendo!
Matou-me, e como morto lhe respondo;
e vou-me daqui, pois ela não me retém,
desgraçado, em exílio, não sei onde.
 
Tristão, nada mais tereis de mim,
pois me vou, desgraçado, não sei onde;
 
ao cantar volto costas e me rendo assim,
e da alegria e do amor me escondo.
 
 
 
 
O tempo vai e vem e vira
por dias, por meses, anos,
e eu, ai! não sei que diga,
pois é só um meu desejo.
É só um e não se muda,
que a uma só quero e quis,
que nunca prazer me deu.
 
Pois ela não perde o riso,
penas e danos me vêm,
já que em tal jogo me senta
que sofro o mal a dobrar
– que tal amor é perdido
se só por um é mantido –
até que aceda e consinta.
 
Bem devia eu censurar-me
a mim mesmo, e com razão,
que jamais nasceu de madre
quem tanto servisse em vão;
e se ela não me censura,
logo dobrará a loucura,
que louco não teme até levar.
 
Não mais serei eu cantor,
nem da escola de D. Ebloni,
pois meu canto nada vale,
nem minhas voltas, nem meu som;
nem nada que eu faça ou diga
não sei que proveito me traga,
nem vejo já que melhore.
 
Se bem que finja alegria,
dentro tenho o coração magoado.
E quem viu jamais penitência
antes de se ter pecado?
Quanto mais a rogo, mais dura é comigo!
E se em breve não melhora,
acabarei por partir.
 
Mas bom é que ela me submeta
à sua vontade inteira,
pois se é injusta ou hesita,
logo terá piedade!
Que assim mostra a Escritura:
em coisa de boa ventura,
vale um dia mais de cem.
 
Já não me irei em vida minha,
enquanto forças tiver,
que tanto que o grão não é saído
balança longo tempo a espiga;
e se agora não se apressa,
por mim não será censurada,
se em seguida se emendar.
 
Ai, bom amor cobiçado,
corpo airoso, esbelto e firme,
fresca cara colorida
que Deus com suas mãos fez!
Sempre vos hei desejado,
nenhuma outra me agrada,
outro amor não quero eu!
 
Doce coisa bem formada,
aquele que vos fez tão gentil
me dê a alegria esperada.

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