Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (VIII) ~ Bertran De Born (…1159-1215…)

0 comentários 🕔08:30, 14.Mai 2014

BERTRAN DE BORN (…1159-1215): tradução de Graça Videira Lopes

Rassa, tan créis e monta e póia

Rassa, tant créis e monta e póia
cela qu’es de totz engans vóia
sos pretz a las autras enóia,
qu’una no·i a que re·i nóia;
que·l vezer de sa beutatz lóia
los pros a sos obs, cui qu’en cóia;
que·l plus conoicent e·l melhor
manténon adés sa lauzor,
e la ténon per la gençor;
e sap far tan entiéra honor:
non vol mas un sol preiador.
 
Rassa, domna ai qu’es fresc’e fina,
coinda e gaia e mesquina:
pêl saur, ab color de robina,
blanca per cors com flors d’espina,
cóude mol ab dura tetina,
e sembla conil per l’esquina.
A la fina, fresca color,
al bon pretz et a la lauzor,
léu pódon triar la melhor
cilh que se fan conoicedor
de mi vas cal part iéu ador.
 
Rassa, als rics es orgolhosa,
e fai gran sen a lei de tosa,
que non vol Peitiéus ni Tolosa
ni Bretanha ni Saragoza,
ans es tant de pretz enveiosa
qu’als pros paubres es amorosa.
Póis m’a pres per castiador,
prec li que·m tenha car s’amor,
et am mais un pro vavaçor
que comte ó duc galiador
que la tengués a desonor.
 
Rassa, rics hom que ren non dóna,
ni honra ni acuolh ni sona,
e que senes tort ochaisona,
e, qui mercê·lh quier, non perdona,
m’enóia, e tota persona
que serviç’i non gazardona;
e li ric home caçador
m’enóian, e·l busacador
gabán de volada d’austor,
que jamais d’armas ni d’amor
non parlará hom entre lor.
 
Rassa, aiçó volh que vos plaça:
rics hom que de guerra no·s lassa,
ni no s’en recré per menaça,
tró qu’hom se lais que mal no·l faça,
val mais que ribiéira ni caça,
que bon pretz n’acuolh e n’abraça.
Maurin, ab N’Aigar, son senhor,
tê hom per bon envasidor.
E·l Vescoms defenda s’honor,
e·l Coms deman la·lh per vigor,
e veiam l’adés al Pascor!
 
Marinér, vos avetz honor,
e nos avêm camjat sènhor
bon gerriér per torneiador!
E prec a·N Golfiers de la Tor
mos chantars no·lh faça paor.
 
Papiol, mon chantar recor
en la cort mon mal Bel Sènhor !
 
Be·m me platz lo gais temps de Pascor
 
Be·m platz lo gais temps de Pascor,
que fai fólhas e flors venir,
e platz mi quand aug la baudor
dels auzels que fant retentir
lor chan per lo boscatge;
e plaz me quand vei per los pratz
tendas e pavailhons fermatz;
et ai gran alegratge,
quan vei per campanhas rengatz
cavaliérs e cavals armatz.
 
E platz mi quan li corredor
fant las gens e l’aver fugir,
e plaz mi, quan vei aprés lor
gran ren d’armatz ensems venir;
e platz m’en mon coratge,
quand vei fortz chastels assetgatz
e·ls barris rotz et esfondratz,
e vei l’ost e·l ribatge
qu’es tot entorn claus de fossatz,
ab liças de fortz pals serratz.
 
Et atressi·m platz de sènhor
quand es primiérs a l’envazir
en caval armatz, ses temor,
qu’aissi fai los siéus enardir
ab valen vassalatge.
E póis que l’estorns es mesclatz,
chascus deu ésser acesmatz
e segre·l d’agradatge,
que nulhs hom non es ren prezatz
tró qu’a mains colps pres e donatz.
Maças e brans, elms de color,
escutz trancar e desgarnir
veirêm a l’intrar de l’estor,
e maint vassal essems ferir,
don anarán aratge
cavalh dels mortz e dels nafratz.
E quand er en l’estorn intratz,
chascus hom de paratge
non pens mas d’asclar caps e bratz,
car mais val mortz que vius sobratz.
 
E·us dic que tant no m’a sabor
manjar ni beure ni dormir
cuma quand auch cridar: “A lor!”
d’ambas las partz et aug bruír
cavalhs voitz per l’ombratge,
et aug cridar, “Aidatz, aidatz!”
e vei cazer per los fossatz
paucs e grans per l’erbatge
e vei los mortz que pels costatz
an los tronçôs ab los cendatz.
 
Baron, metetz en gatge
castels e vilas e ciutatz
enans qu’usquecs no·us gerreiatz.
 
Papiols, d’agradatge
ad Oc-e-No te·n vai viatz
e di·lh que trop estai en patz.
Rassa(4), tanto cresce e sobe e aumenta
aquela que de todo o engano é isenta,
que o seu mérito às outras agasta,
já que nenhuma o pode impedir:
pois a visão da sua beleza arrasta
os nobres ao seu serviço, seja como for;
e se os mais sabedores e os melhores
mantêm sempre o seu louvor
e a têm pela mais graciosa,
ela sabe ater-se à sua honra inteira:
não quer mais do que um só adorador.
 
Rassa, senhora tenho que é fresca e fina,
gentil e alegre e menina,
cabelo loiro, em cor de rubi,
branca de corpo como flor de branco-espinho,
o colo suave, com seio duro,
e o dorso alçado como coelho.
Pela sua fina e fresca cor,
pelo seu bom nome e pelo louvor,
poderão reconhecer a melhor,
aqueles que querem saber
de mim em que lugar adoro.
 
Rassa, para os ricos é orgulhosa,
e é sensata como o é uma moça
que não quer Poitiers, nem Tolosa,
nem Bretanha, nem Saragoça(5)
antes é de honra tão desejosa
que para os cavaleiros pobres é cortês.
Pois me tomou por conselheiro,
rogo-lhe que tenha caro o seu amor,
e ame mais um vassalo generoso
do que um conde ou duque mentiroso
que a levariam à desonra.
 
Rassa, rico-homem que nada dá,
nem acolhe, nem gasta, nem a si chama,
e que sem culpa acusa,
e que, a quem mercê lhe pede, não perdoa,
me aborrece, e toda a pessoa
que serviço não galardoa.
E os ricos-homens caçadores
me aborrecem, e os passarinheiros
gabando o voo do seu açor,
que nunca de armas ou de amor
se poderá falar entre eles.
 
Rassa, eis o que vos peço que vos apraza:
o rico-homem que de guerra não se cansa,
nem se retrai por ameaças,
até que o outro se canse e mal não lhe faça,
vale mais que ribeira nem caça,
pois o mérito acolhe e abraça.
A Maurin, com D. Aigar, seu senhor,
se tem por bom invasor.
Defenda o Visconde o seu feudo
e o Conde lho reclame pela força,
e que o vejamos já pela Páscoa.
 
Marinheiro, vós sois honrado,
e nós trocámos um senhor
bom guerreiro por um torneador.
E peço a D. Golfier de la Tor
que o meu cantar não lhe cause pavor.
 
Papiol, o meu cantar socorre
na corte do meu mau Belo-Senhor.
 
 
 
Bem me apraz o alegre tempo de Páscoa,
que faz as folhas e flores chegar,
e apraz-me quando ouço a balbúrdia
dos pássaros, que fazem ressoar
o seu canto pelos bosques;
e apraz-me quando vejo sobre os prados
tendas e pavilhões montados;
e tenho grande alegria
quando vejo pelo campo alinhados
cavaleiros e cavalos armados.
 
E apraz-me quando os batedores
fazem as gentes com seus haveres fugir,
e apraz-me quando vejo depois deles
muitos homens armados juntos vir;
a apraz-me de coração
quando vejo fortes castelos sitiados,
e os muros rompidos e derrubados,
e vejo a hoste nas margens
dos fossos, toda à volta circundados
por paliçadas de fortes estacas cerradas.
 
E também me apraz o senhor
quando é o primeiro a invadir
a cavalo, armado, sem temor,
que assim faz os seus inflamar
de valente vassalagem.
E depois que o combate é juntado
cada um deve ser obstinado
em segui-lo com coragem,
pois nenhum homem é prezado
sem muitos golpes ter recebido e dado.
Maças e espadas, elmos de cor,
escudos penetrar e partir
veremos, e no combate e fragor
muitos vassalos uns aos outros se atingir,
e andarão errantes
os cavalos dos mortos e dos feridos.
E depois da luta começada,
cada nobre cavaleiro
mais não pense do que em cortar cabeças e braços,
pois mais vale morto que vivo desonrado.
 
Bem vos digo que não me dá tanto gosto
comer, nem beber, nem dormir
como quando ouço gritar “A eles!”
de ambas as partes, e ouço relinchar
os cavalos sem dono pelas sombras,
e ouço gritar “Ajudai! Ajudai!”,
e vejo jazer pelos fossos
pequenos e grandes, sobre a erva,
e vejo os mortos a quem, pelos costados,
saem as hastes com as bandeirolas.
 
Barões, antes empenhar
castelos e vilas e cidades
que deixardes de vos guerrear!
 
Papiol, com bom grado,
a Sim-e-Não vai-te depressa(6),
e diz-lhe que está demasiado em paz.

 
 

NOTAS
(4) Rassa é o senhal de Godofredo de Bretanha (irmão de Ricardo Coração de Leão), a quem o trovador se dirige.
(5) Segundo a longa razô que precede a cantiga nos cancioneiros, a amada do trovador, Maeut de Montanhac, era igualmente requisitada por quatro outros grandes senhores, aqui aludidos: Ricardo Coração de Leão, que era conde de Poitiers, Raimundo, conde de Tolouse, Godofredo de Bretanha (Rassa) e Afonso II de Aragão.
(6) Oc-e-No (Sim-e-Não) é o senhal de Ricardo Coração de Leão.

Sem comentários

Ainda não há comentários

Ninguém deixou um comentário para este post ainda!

ESCREVA UM COMENTÁRIO SOBRE ESTE POST

Escrever um comentário 

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *