<em>A última festa</em>, por Marcos Abalde

A última festa, por Marcos Abalde

0 comentários 🕔12:15, 04.Jun 2014

1.
Um polícia agarra umha mulher polos cabelos. Mete-lhe a cabeça num balde de água. Saca-lha.

POLÍCIA: Quem é o vosso infiltrado? A ti o que che fai falta é um homem. Se ainda te depilasses, fazia-che eu um favor. Dás nojo, caralho! Só três dias sem dormir e já estás feita um farrapo. Nom valedes para nada. Por que o figestes? Quem vos ajudou? Nom se che refrescárom as ideias? Tés o coraçom dum atleta! Como aguentas! Nós já te tínhamos fichada. Ou que pensas? Que somos parvos? A minha mae também trabalhou para o chefe e nunca se queixou. E isso que tem chegado a casa sangrando polos dedos. Eu, quando a via assim, chorava como um meninho porque eu era um meninho. Vós de que tanto vos queixades? Se nascestes cansadas! Todo vos parece mal e agora com esta léria. O buque que afundistes levava mais de dous mil contentores. Mais de dous mil! Olha o que me obrigas a fazer! Por que tremes? Agora o medo é inútil! Com o desgosto o chefe está outra vez ingressado. Tira esse sorriso da cara! Que imos fazer contigo? Limpa o vómito. Traga-o. Non quero nada de ti. Assim, com as maos. Vás aprender… Para que arriscas tanto? Ninguém cho vai agradecer. Ninguém se vai lembrar de ti. Sabes o gosto que dá quando tés muita vontade de mijar e mijas? Pois assim vou ficar eu quando acabar contigo.

2.
Umha doutora entra na sala de operaçons. O chefe está deitado.

DOUTORA: O acidente desta mulher vai-lhe salvar a vida. Os seus contatos fôrom bem eficientes. Pode estar contento. Arranjárom o coraçom dumha atleta 100% compatível com o seu. Relaxe-se. Nom se mova. Imos aplicar-lhe umha técnica de última geraçom muito pouco invasiva. Já sei que nom suporta a anestesia. Nom se preocupe. Vai ficar como novo. Tem que nos mandar umha caixa desse vinho chileno. Estava boíssimo. Bem, já sabe como vai. É a terceira vez que nos visita. Em cinco segundos vai perder a consciência. Cinco. Quatro. Três. Dous. Um. Todo pronto? Amarramos braços e pernas para evitarmos convulsons. Fazemos umha incisom desde a parte inferior da garganta até a parte superior do umbigo. Acendemos a serra. Partimos o esterno. Levantamos-lho devagar. Evitamos inalar o cheiro que expulsam os pulmons. Esta é a parte mais delicada. Esfriar o coraçom e ligar o paciente ao sistema de circulaçom extracorpórea. Perfeito! O paciente começa a abrir os olhos. O paciente está a despertar! Chega antes do que esperávamos. Tanto tem. Bem-vindo ao inferno! Muito apreciamos a sua presença, por isso imos mantê-lo assim um par de horas. Já verá o moito que se vai divertir. Temos tanto do que falar… O seu coraçom está nas minhas maos. Olhe para el! Esta vai ser a sua última festa!

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