Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (XI) ~ Arnaut Daniel

0 comentários 🕔11:30, 04.Jun 2014

ARNAUT DANIEL (…1180-1195…): L’aur’amara fa·ls bruolhs brancutz7 (tradução de Graça Videira Lopes)

L’aur’amara fa·ls bruolhs brancutz
clarzir, que·l douç’espeissa ab fuolhs,
e·ls letz becs dels auzels ramencs
ten balbs e mutz, pars e non pars;
per qu’eu m’esfortz de far e dir plazers
a manhs per liei que m’a virat bas d’aut,
don tem morir, si·ls afans no m’asoma.
 
Tan fo clara ma prima lutz
d’eslir liéis, don crê·l cors los uolhs,
non pretz necs mans dos angovencs
d’autra. S’eslutz rars mos preiars;
peró deportz m’es ad auzir volers,
bos motz ses grei de liei don tant m’azaut
qu’al siéu servir sui del pé tró qu’al coma.
 
Amors, gara! Sui ben vengutz?
Qu’auzir tem far, si·m desacuolhs,
tals detz pecs que t’es mielhs que·t trencs;
qu’iéu soi fis drutz cars e non vars;
ma·l cors ferms fortz mi fai cobrir manhs vers,
qu’ab tot lo neii m’agr’ops us bais al caut
cór refrezir, que no·i val autra goma.
 
Si m’ampara cilh que·m traútz
d’aizir si qu’es de pretz capduolhs,
del quetz precs, qu’ai dedins a rencs,
l’er for rendutz clars mos pensars:
qu’iéu fora mortz; mas fa·m sofrir l’espers
que·lh prec que·m brei, qu’aiçó·m ten let e baut,
que d’als jauzir no·m val jóis una poma.
 
Douça car’a totz aips volgutz,
sofrir m’er per vos manh orguolhs,
car etz decs de totz mos fadencs,
don ai manhs brutz pars. E gabars
de vos no·m tortz, ni·m fai partir avers,
qu’anc non amei ren tant ab mens d’ufaut;
ans vos desir plus que Diéu cilh de Doma.
 
Ara·t pára, chans e condutz
formir al rei qui t’er rescuolhs;
car Pretz, cecs çai, lai es doblencs,
e mantengutz dars e manjars.
De jói la·t portz, son anel mir, si·l ders;
qu’anc non estei jorn d’Aragô que·l saut
no·i volgués ir; mas çai m’a clamat Roma.
 
Faitz es l’acortz: qu’el cor remir, totz sers,
liéis cui dòmnei, ses parçoniér, Arnaut;
qu’en autr’albir n’es fort m’entent’a soma.
 
Lo ferm voler qu’e·l cor m’intra13
 
Lo ferm voler qu’e·l cor m’intra
no·m pot ges becs escoiscendre ni ongla
de lauzengiér qui pert per mal dir s’arma;
e pus no l’aus batre ab ram ni verja,
sivals a frau, lai on non aurai oncle,
jauzirai jói, en vergiér ó dins cambra.
 
Quan mi sovê de la cambra
on a mon dan sai que nulhs hom non intra
– ans me son tuch plus que fraire ni oncle –
non ai membre no·m fremisca, neis l’ongla,
aissi cum fai l’enfas devant la verja:
tal paor ai no·lh sia trop de l’arma.
 
Del cór li fos, non de l’arma,
e cossentis m’a celat dins sa cambra!
Que plus mi nafra·l cór que colp de verja
– qu’ar lo siéus sers lai on ilh es non intra –
de liéis serai aisi cum carn e ongla
e non creirai castic d’amic ni d’oncle.
 
Anc la seror de mon oncle
non amei plus ni tan, per aquest’arma!
Qu’aitan vezis cum es lo detz de l’ongla,
s’a liéis plaguês, volgr’ésser de sa cambra:
de me pot far l’amors qu’ins e·l cór m’intra
mielhs a son vol qu’hom fortz de frêvol verja.
 
Pus floric la seca verja
ni de N’Adam foron nebot e oncle
tan fin’amors cum celha qu’e·l cór m’intra
non cug fos anc en cors, no neis en arma:
on qu’éu estei, fors en plan ó dins cambra,
mos córs no·s part de liéis tan cum ten l’ongla.
 
Aissi s’empren e s’enongla
mos cors en liéis cum l’escorça en la verja,
qu’ilh m’es de jói tors e palais e cambra
e non am tan paren, fraire ni oncle;
qu’en Paradis n’aurá doble jói m’arma,
si já nulhs hom per ben amar lai intra.
 
Arnaut tramet son chantar d’ongla e d’oncle
a grat de liéis que de sa verja a l’arma,
son Desirat, cui pretz dins cambra intra.
A brisa amarga faz os bosques frondosos
clarear, que a doce adensa com folhas,
e os ledos bicos dos pássaros dos ramos
tem gaguejantes e mudos, pares e sem par;
por isso me esforço por fazer e dizer prazeres
a muitos, sobre ela, a que me virou de alto a baixo,
do que temo morrer, se o afã não me acaba.
 
Tão clara foi minha primeira luz
ao escolhê-la, à que faz o coração acreditar nos olhos,
que não prezo dois soldos os recados secretos
de outra. Raramente se iluminam minhas preces;
mas agradável me é ouvir os desejos,
as limpas palavras daquela por quem tanto me exalto
que ao seu serviço estou dos pés ao cimo.
 
Amor, cuidado! Sou eu bem vindo?
Que temo fazer-te ouvir, se me desacolhes,
dez pecados tais que melhor é que te cortes;
pois eu sou leal amante, esmerado, e não volúvel,
mas o firme coração à força me faz cobrir muitas verdades
–e com a neve, preciso me seria um beijo para o quente
coração refrescar, que não lhe vale outro bálsamo.
 
Se me ampara a que me faz seu vassalo,
e acolhe, a que é do mérito soberana,
as silenciosas preces que dentro tenho em fila,
por fora se lhe tornaria claro o meu pensar:
que eu estaria morto, mas suporta-me a espera,
(que peço me abrevie) que assim me tem ledo e contente;
pois qualquer outro gozo não me vale uma maçã,
 
Doce rosto, com todos os encanto desejados:
sofrer por vós me será orgulho grande,
pois sois o fim de todos meus desvarios,
que me têm muitos rumores valido. Mas falares,
de vós não me desviam, nem me afastam haveres,
pois nunca nada amei tanto com menos vaidade,
antes vos desejo mais que a Deus os de Doma9.
 
Agora prepara-te, canto e melodia10
para te apresentares ao rei que te acolherá;
pois Mérito, cego aqui, lá é a dobrar,
e mantidos são dons e manjares.
Com alegria vai, e seu anel olha, se o der11;
que nunca estive um dia longe de Aragão que dum salto
não quisesse lá ir; mas aqui me reclamou Roma12.
 
Decidido está: que o coração olhe, todas as noites
aquela que corteja, sem rival, Arnaut;
que de outro alvitre mui longe está meu propósito.
 
 
 
O firme querer que no coração me entra
não mo podem beliscar bico nem unha
de maldizente, que perde, por maldizer, sua alma.
E se não lhe ouso bater com ramo ou vara,
ao menos em segredo, ali onde não haja tio14,
gozarei do prazer, em jardim ou em quarto.
 
Quando me lembro do quarto
onde, para meu mal, sei que nenhum homem entra,
– antes me são duros, mais que irmão e tio –
não há membro que não me trema, nem a unha,
tal como faz a criança diante da vara:
tal pavor sinto de não lhe ser todo da alma.
 
De corpo lhe fora eu, que não da alma,
se me consentisse, em segredo, no seu quarto!
Se mais me fere no coração que golpe de vara
– pois seu servidor, ali onde ela está, não entra –
sempre serei com ela como carne e unha
e não temerei censura de amigo nem de tio.
 
Nunca a irmã de meu tio15
amei mais nem tanto, por minha alma!
Que tão vizinho como é o dedo da unha,
se lhe agradasse, quereria ser do seu quarto.
De mim pode fazer o amor que no coração me entra
melhor o que quiser que homem forte de débil vara.
 
Depois que floriu a seca vara16
e de D. Adão vieram sobrinhos e tios,
tão firme amor como o que no coração me entra
não cuido que houvesse em corpo, nem em alma;
onde esteja eu, fora em praça ou dentro em quarto,
meu coração não se separa dela, nem por uma unha.
 
Que assim se agarra e se aúnha17
meu corpo a ela como a casca na vara,
pois de gozo ela me é torre e palácio e quarto
e tanto não amo eu irmão, parente ou tio;
e no Paraíso terá duplo gozo minha alma,
se alguém por bem amar já ali entra.
 
Arnaut envia a sua canção de unha e tio
ao grado daquela que da sua vara tem a alma,
seu Desejado18, cujo valor em quarto entra.

 

Notas

9 Doma é uma localidade no Périgord, onde existiria um mosteiro.

10 Estrofe dirigida ao jogral, que deverá levar a cantiga ao rei de Aragão, possivelmente Afonso II.

11 Possivelmente o anel do rei (ou seja, olha o anel do rei, se ele te der a sua mão a beijar). Ou será uma dádiva?

12 O final do verso tem tido diferentes interpretações. Em Riquer, mas çai m’an clamat: “roma!”, com a tradução “pero aqui me han llamado: quédate!” (entendendo roma como o imperativo do verbo romaner). Mas Riquer cita também a opção de outros editores que interpretam roma como a cidade de Roma (e, portanto, o impedimento à viagem a Aragão teria motivos religiosos, ou de cruzada). Mais uma vez, sou de opinião que o equívoco será voluntário. Como novamente os dois sentidos não são possíveis de manter na tradução, opto pela referência a Roma.

13 Lo ferm voler qu’e·l cor m’intra – Trata-se da famosa sextina de Arnault Daniel, que aqui inicia um subgénero de larga repercussão na poesia europeia posterior (via Dante e Petrarca, que a imitaram), e que se caracteriza pelo elaboradíssimo esquema rimático das estrofes, com a repetição das mesmas (difíceis) palavras-rima ao longo da composição. Note-se, no entanto, que um esquema semelhante (não em sextilhas, mas em estrofes de oito versos) já antes tinha sido posto em prática por Raimbaut d’Aurenga, na composição que apresentamos antes. Tal como acontece nessa composição de Raimbaut, também aqui o tom não deixa de ser ao mesmo tempo lírico e malicioso, resultado necessário da escolha de palavras-rima tão difíceis quanto improvavéis (como unha ou tio).

14 O tio é aqui o vigilante da conduta.

15 O sentido é, obviamente, “a minha mãe”.

16 A seca vara que floriu será uma alusão à Virgem Maria; os tios e sobrinhos que descendem de Adão são a humanidade.

17 Como anota Riquer, o verbo enonglar parece inventado por Arnaut Daniel para manter a palavra-rima. O mesmo tentei fazer na tradução.

18 son Desirat é o senhal da personagem a quem Arnault envia a cantiga. Uma glosa incluída num dos manuscritos afirma que se trata do trovador Bertran de Born, informação que alguns especialistas aceitam, enquanto outros são da opinião que se trata de uma dama. Riquer concorda com a primeira opinião, justificando que “há de ser un hombre, pues el trovador dice que es tal su mérito que en cambra intra”. Pela minha parte, não me parece assim tão evidente: a sintaxe da tornada parece implicar obrigatoriamente que a “ela” (liéis) referida no penúltimo verso é son Desirat. Sendo certo que a expressão “entrar em quarto” não é clara, não vejo também por que razão esse facto (de inseguro sentido) implica necessariamente um homem (cujo mérito seria, neste caso, superior ao de Arnault, o que não me parece credível como afirmação final).

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