O medo num post-it, por Marília Lopes

O medo num post-it, por Marília Lopes

0 comentários 🕔10:45, 04.Jun 2014

Se havia coisa que se tinha incrustado na pele de Perpétua, era o medo. De manhã, ensaboava-se tanto e tão repetidas vezes, que a pele ficava, em certas zonas, cheia de vermelhidão. Repugnavam-lhe os maus cheiros e como quisesse afastá-los de si, procedia a todo um ritual matutino de aperfeiçoados gestos, acompanhados de utensílios eficazes, como a esponja, a luva de crina e uma mãozinha chinesa que conseguia alcançar, mais ao pormenor, certas zonas dificilmente tangíveis com os membros superiores. Lavava-se tanto, que pouco faltaria para que arrancasse de si a epiderme, já desbotada pela insistência. De vez em quando, parava para pensar num produto que tivesse sido esquecido e, na urgência de ir buscá-lo à farmácia ou ao supermercado, resolvia sair naquele momento, como se estivesse para rebentar uma guerra e os produtos pudessem esgotar, drasticamente.

Perpétua vivia sozinha e resolvera alugar um quarto a uma colega da escola onde leccionava. A princípio, digamos que o convívio entre ambas era normal, isto é, aparentemente saudável e sem grandes interferências. Com o passar do tempo, tornara-se um pesadelo. O facto de Camila ir beber um copo de água, durante a noite, era uma ocorrência extremamente preocupante, na óptica de Perpétua. Imediatamente se levantava, assim que a colega se recolhia, para verificar o estado em que tinha sido deixada a banca da cozinha. Verificando que o copo, pelo qual bebera Camila, permanecia no balcão e não no devido sítio, lavado e enxuto, agitava-lhe de tal forma os nervos, que se via impossibilitada de voltar a adormecer, de modo que aproveitava a insónia para escrever bilhetes que afixava nas portas, para que Camila os lesse. O primeiro bilhete fora escrito nessa tal noite e continha os seguintes dizeres: “colocar sempre o copo no devido lugar”. Nas noites seguintes, parecia ter-se enamorado deste género de literatura e, neste estado, prosseguia com a empreitada, onde a personagem principal, a vilã, era alvo de crítica, cada vez mais cerrada, como se fora rato de laboratório, observado ao mínimo pormenor dos movimentos, em contexto de habitat.

Um dia, acordando, Perpétua fora à casa de banho lavar os dentes e o rosto. Depois limpara-se à toalha, meticulosamente pendurada para o efeito. Quando olhou para o espelho, para se pentear, viu um novo post-it que, desta vez, dizia: “É favor de não respingares sabão para o espelho”. Na estranheza de se sentir pessimamente naquele momento, Camila correu a verificar se alguma bolha minúscula tinha saltado, descuidadamente, para o dito espelho que parecia um altar de brilho imaculado. Havia, de facto, duas ou três bolhas mínimas que, se olhássemos bem, eram visíveis a olho nu. Resolvera o problema de especial interesse para a humanidade, com um pedaço de papel higiénico. O assunto, portanto, ficaria assim arrumado, ou melhor, limpo, tão limpo como o caminho de regresso da famigerada e austera troika que tinha produzido, nas mentes mais sensíveis, episódios frequentes de confusão, depressão e manias várias. A limpeza –coisa inquietante, agora, pensava. Não seria cuidadosa o suficiente? Estaria a perturbar o ecossistema da amiga e não se estaria a dar conta de alguma negligência? Por momentos, invadiram-na, sem piedade, sentimentos de grave culpa. Depois, bebido o café matinal, ocorreram-lhe várias sugestões que, eventualmente, pudessem colmatar o problema que tinha em mãos, não menos danosos do que a crise económica em Portugal: aperfeiçoar os gestos, melhorar a atenção com possíveis migalhas, pegadas, vestígios de pó ou de outras impurezas, andar mais devagar, talvez, observar a casa de banho com maior e redobrada atenção, a fim de não ser notória a sua passagem, quer pela banheira, quer pelo bidé ou o quer pelo lavatório com espelho exemplar em cima. Começara a ouvir vozes. Uma delas dizia:

- O espelho, Perpétua. Vês? Vês-te? O que vês, Perpétua? Talvez vejas um caramanchão de memórias onde as tuas tias se precipitam com repreensões e tu não as queiras ouvir. Foges, escondes-te. Não queres que te apontem nenhum dedo. Sentes que aperfeiçoas tudo, que fazes tudo com o máximo de rigor, de cuidado, sabes do que te afastas. Não suportas os chapéus delas, tão pavorosos, pois não? Sei que não são os chapéus, mas olhemos para eles. Parece que os rostos delas desaparecem sob as abas, inclinando-se para o chão onde perdem a esperança. Melancólicas, parecem desapontadas contigo. Estão à beira mar. Supostamente, devem estar quase a sorrir ao sol e às ondas, mas vejo que apenas se esforçam por esboçar esgares simpáticos para que o fotógrafo registe aquela parte do dia, tão improvável no Inverno, mas, ao mesmo tempo, tão pouco preferível ao frio que ainda não tinha provocado tantos estragos. Danos psicológicos e morais – concluem elas. Naquele dia, saberem de como realmente pensava aquela menina, tida como bem educada, aumentava um peso tal de responsabilidade, que não valia a pena convencê-las mais daquilo que tu eras, se a mente de um rapaz num corpo de rapariga era tida como uma aberração, só comparável àqueles fenómenos estranhos e bizarros do Entroncamento. Não tens dúvidas agora, mas naquele tempo era difícil suportar aqueles vestidos com folhos e ter no cabelo aqueles laços miseráveis, cor–de–rosa. A tia Ernestina era a única que te conhecia. Ela não quis aparecer na fotografia. Talvez estivesse atrás da barraca a fazer uma paciência com as cartas, ou simplesmente entretida a untar-se com creme, enquanto esperava pela hora certa da tarde para te levar aos treinos. Quando, nos passeios que ambas faziam à cidade, te oferecia uma bola para que praticasses e fosses a melhor da equipa feminina de futebol, prometia a si mesma que o teu talento haveria de se revelar, um dia mais tarde e que todos os esforços haveriam de ser compensados. Foi a tia Ernestina que te fez acreditar que eras capaz de ter jeito para aquela paixão que escondias, debaixo do olhar mais meigo que alguém podia ter.

Perpétua olhou uma segunda vez para o chão da cozinha e para a fotografia. Havia algumas semelhanças: em ambas as situações tinha permanecido irritadiça, Tinha em si a sensação repetida de que era sempre preciso esfregar. Esfregar até o brilho surtir efeito. Um brilho que lhe fugia da alma e que, à força da insistência, haveria de se manifestar materialmente, de forma nítida e indubitável, na tijoleira esbranquiçada. Haveria então, hoje, de treinar os seus alunos, com mais paciência e afinco. Os resultados haveriam de ser os melhores. Não tinha a mínima dúvida de que era das melhores professoras de educação física. Tinha havido um tempo em que poderia ter sido estrela do desporto rei, mas tal não aconteceu. Por culpa duma época, duma mentalidade vigente? Dum machismo que dominara os estádios e fizera rebrilhar o corpo masculino, preciosa máquina de marcar golos, pontos, sucesso, dinheiro, poder? Talvez as suas tias tivessem as respostas. Tinham-nas sempre. Diriam que não era por ali que devia ter seguido. Aniquilariam com todas as forças que tivessem todo e qualquer gesto que aplicasse a calçar as sapatilhas para o chuto, ciclone diáfano de uma terrível fatalidade –a de liquidar a condição com que nascera. Eram uma oligarquia tenebrosa. Tinham toldado um sonho, revogado o horizonte de uma maria–rapaz, como costumavam dizer. A tia Ernestina, era, ao contrário, um postulado. Procurava-a sempre nas taciturnas noites das dúvidas e do medo. Encontrava nela a sutura, o insuspeito apoio sem contestações, sem castigos.

Hoje, Perpétua requisita a pernoita na expiação, à qual as tias a prenderam na infância, época em que já reprimia os seus enlaçamentos. Camila assiste ao dislate, ao êxtase com que a exorbitante mania de esfregar se sublima na clivagem do corpo e do espírito. Impossível a coabitação. Camila resolve sair, não de borco, mas alegando a incompatibilidade, o cansaço e a aumentativa falta de paciência com palavras tempestivas. A noite está chuvosa, a mala roda em direcção à estrada, no asfalto onde os passos se apressam para encontrar novo tecto. Ela olha em redor e vê uma praça. É lá que fica sentada, até que alguém passe e lhe dê uma dormida, à confiança. Não tem para onde ir, mas é incapaz de recuar ao edifício de onde saiu àquela hora tão complicada para alternativas urgentes. Em contrapartida, sente uma vantagem no desvelado frio. Imperturbável, avança. Qualquer coisa será preferível àquela posição de presa. Qualquer cenário é agora uma cura, não o manicómio. As maçãs do rosto estão frias. Alguém, porventura, passará por ali e lhe oferecerá umas castanhas assadas? O percurso é uma linha inédita. Não há setas revogadas no que se possa sonhar. O cheiro a jornal divulga-se no ar. A crioterapia revigora, mas é preciso um fogo. Um fogo que passe ali, em resposta ao oráculo da praça, isento de guardas-nocturnos. O carrinho das castanhas viria a cevar os transeuntes, os aflitos, os lazarentos, os figurantes da grande encenação viral, ecossistema que realiza a composição e a decomposição de situações, de estados, aos quais nos entregamos sem alternativa, sem égide. O vento tem a sua sagacidade de trazer à lembrança de Camila a temperatura da noite e também o que parece destinado à introdução de um capítulo novo. Apesar de tudo ser interino, há a vontade desoprimida de comer castanhas, num sítio quente.

Sobre o autor / a autora

Marília Lopes

Marília Lopes

(Portugal) Marília Miranda Lopes nasceu no Porto, em Portugal. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade da cidade onde nasceu. É professora de Língua Portuguesa do Ensino Secundário e formadora pelo Conselho Científico -Pedagógico de Formação Contínua nas áreas das Didácticas Específicas e das Oficinas de Escrita – Poesia e Teatro. Foi bolseira dos Serviços de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, ao abrigo do programa “Dramaturgia Portuguesa”. Integrou a representação do Norte de Portugal no Congresso Luso-Galaico “O Livro e a Leitura”, realizado em Santiago de Compostela, juntamente com António Cabral, A. M. Pires Cabral, António Mota, Miguel Miranda, Luísa Dacosta, João Pedro Vaz, Manuela Bacelar, Manuel António Pina, entre outros escritores. Participou nos Primeiros Encontros Poéticos de Espanha e Portugal, organizados por Jesus Losada, em Alcanices. Participou, juntamente com Maite Dono, Fernando Echevarría, José Luis Peixoto e Valter Hugo-Mãe, entre outros poetas, no calendário para o ano de 2002, organizado por ADATA, textos estes lidos no mesmo espaço da Raya. É autora de canções para a infância que integram vários projectos de animação do livro e da leitura a partir da obra de Aquilino Ribeiro, dos irmãos Grimm e de Alfonso Sastre. Escreveu ““Framboesas” (Teatro, 1996), Geometria (poesia, 1998), O Escudo Invisível (conto da antologia “Histórias Tiradas da Gaveta – edições Tellus); ““Maria da Silva, pastora e rainha”(peça ainda inédita, representada pela Filandorra- Teatro do Nordeste; 2002) “Templo” (poesia, colecção Tellus, nº10; 2003); “Duendouro – Era uma vez um rio…” (Teatro, 2007 - Edições Afrontamento – livro incluído no Plano nacional de Leitura), “Aqua” (conto, 2012 - incluído na antologia Pegadas com autores portugueses e espanhóis – de A Porta Verde do Sétimo Andar) e “Castas” (Poesia, 2012 – Cadernos Q de Vien de A Porta Verde do Sétimo Andar – Galiza, Espanha). Tem participado, com poesia e prosa, em algumas revistas literárias e antologias (Portugal, Espanha, África e Brasil), entre as quais a “Arqueologia da Palavra (coordenada por Amosse Mucavele, Moçambique, 2013) e “Recordando a trina…” (organizada por Ahmed Mohamed Mgara, Tetuán, 2013). Tem escrito recensões literárias, algumas das quais publicadas na revista Letras & Letras e, ultimamente, na Revista Nova águia nº 13, a propósito da homenagem ao poeta António Ramos Rosa. Autora de várias canções, ainda inéditas, realiza, em quarteto, alguns concertos poético – musicais.

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