Primeiros dias em Lisboa, por Xavier Alcalá

Primeiros dias em Lisboa, por Xavier Alcalá

0 comentários 🕔11:15, 04.Jun 2014

­Verão de 1972. Não demorei em afazer-me à vida lisboeta. O Pedro Cabo arranjara-me pensão na Rua da Misericórdia, que, embora tivesse tão assustador nome, não era de pobres e mesmo ficava perto de lugares lindos que eu lembre (a memória é fraca logo de quarenta anos).

Um deles era a Embaixada da Espanha, onde reinava o irmão do Generalíssimo “Cerillita”, assim chamado no meu Ferrol, onde todos temos alcunha (a minha, Alcalino, surgida no laboratório de Química). O outro, a Fundação Gulbenkian, um prazer de sítio pelo que andava algum senhor que sabia da Galiza, mesmo aparentemente amigo de Ramón Piñeiro, meu tutor à distância.

A vidinha naquela Lisboa resultava uma grande experiência diária para um rapaz que vinha de crescer em Ferrol, cidadela militar com porto que apenas mostrava marinheiros de jeito e fala estranhos, e formar-se em Madrid, capital artificial dum país fechado ao mundo, isolado.

Eu tinha lembranças de caballeros mutilados, já velhos, sobreviventes da Gloriosa Cruzada Nacional, mas em Lisboa era frequente encontrar-se com homens novos aos que lhes faltava algo: braço, perna, olho. Portugal estava em guerra (e não tardei em saber um segredo referente a ela que me comprometeria). Grandes cartazes pregoavam “Portugal é maior do que a Europa”, mostrando os mapas da metrópole sobrepostos aos dos países europeus.

Todo estava limpo, o branco da pedra contrastava com o verde subtropical da cidade luminosa e húmida de mar e rio. Viam-se senhoras vestidas à indiana, de sári, a falarem português; e muita gente mulata e negra. Os lisboetas abastados vestiam com toques de chique inglês, como os chefes da minha empresa, que eram todos britânicos. Era comum ouvir gente a falar inglês e francês, e produziam-me fascinação as falas dos negros que esperavam na Praça de Camões ser contratados para as obras civis.

Havia algo que me fazia sentir num sonho: os nomes das ruas, sobre tudo das velhas ruas da Alfama, da Mouraria… Eram nomes galegos, que eu imaginava na Galiza (sem ainda poder imaginar que algum dia, morto Franco, falecido o franquismo, poderíamos ver tais nomes aquém do Minho).

Lisboa, nesses primeiros tempos soube-me a mergulho no que poderia ter sido a Galiza se a sua História não se tivesse torcido para sempre; ainda mais, pareceu-me a porta aberta a um mundo imenso, que, hipoteticamente, se expressava à galega, sem receio de usar outras falas. Madrid, em contraste, parecia-me uma vila grande e provinciana, onde todo o mundo falava da mesma maneira, sem opção a mais formas de falar. Ainda não fora apresentado a Ernesto Guerra da Cal e faltava-me a sua definição cáustica da capital da Espanha…

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