<em>Quando os mortos mexericam</em>, por Xavier Frias Conde

Quando os mortos mexericam, por Xavier Frias Conde

0 comentários 🕔12:30, 11.Jun 2014

Quando o Miguel chegou àquela escola pela primeira vez, sentiu medo. Bem logo sentiu como os olhos de todos os rapazes da turma se espetavam na sua nuca ou nos seus próprios olhos, a depender donde estivessem sentados.

—Este é o vosso novo companheiro, chama-se Miguel e vem de muito longe —apresentou o professor, quem ainda tinha aquele antigo costume de apresentar os novos estudantes.

O Miguel, porém, não gostou de ser apresentado porque aquilo significou que todos os rapazes da turma (e todos eram garotos, não havia lá qualquer garota) iam saber que era novo e, portanto, carne fresca. Não era a primeira vez que lhe acontecia. Por causa da profissão do pai, guarda de fronteiras, a família mudava de domicílio continuamente e o Miguel tinha já pisado várias escolas, sem chegar a permanecer em nenhuma. Sabia que o calouro era o alvo das diversões dos rapazes de todas as escolas, nomeadamente quando estes não eram da própria aldeia.

E não se enganou. O Miguel, já durante o recreio, o rapaz mais forte da turma, alto como um carvalho e olhos de boi, acostou-se dele rodeado de vários dos seus subordinados. Vinha com intenção de bater o novo, para demostrar a sua autoridade, para submeter de passagem qualquer voz discordante.

—Vamos ver que pedacinho de merda temos por aqui… —disse desafiante.

O Miguel fitou para ele. Viu que havia pele demais naquele corpo. A voz estava para mudar, para soar adolescente, mas ainda soava como uma flauta desafinada.

—Ó, Zé Pedro —disse então o Miguel—, lembras quando a tua avó Maria te bateu no cu por dar pontapés às galinhas na quinta?

O rapaz deteve-se. Já era estranho que soubesse que o seu nome completo era Zé Pedro, porque todos na aldeia o chamavam apenas Zé. Como ia saber aquele calouro? E aliás, como podia conhecer aquele episódio com a sua avó, que já estava morta?

O Miguel tentou que não se notasse o seu tremor de braços e pernas, para o qual se apoiou na parede.

—E tu —continuou o Miguel acenando para o que parecia ser a mão direita do Zé Pedro—, não te lembras quando o teu avó João te fazia comer sopa de alhos e tu choravas que toda a aldeia escutava o teu pranto?

—O avó João morreu no ano passado… —deixou escapar o rapaz.

Formou-se uma atmosfera de silêncio arredor do Miguel. Ninguém quis achegar-se mais até ele, mas ainda o Zé Pedro quis saber:

—Como é que sabes tudo isso? Falas com os mortos?

—Falo. E eles me dizem tudo. Por exemplo, a tua outra avó, a Balbina, disse-me que não fiques muito tempo ao sol, porque tens a pele muito sensível.

Apesar da atmosfera de quase terror, houve alguns rapazes que não puderam evitar um sorriso. O Zé Pedro compreendeu que não tinha nada a ganhar ali, mas para não parecer um covarde, disse:

—Á, rapazes, ainda não jogamos a partida. Vamos lá que depois vamos ficar com vontade de bater no balão.

Toda a rapaziada, como um só corpo, afastou-se do Miguel, todos eles, exceto um rapaz que não tinha participado porque também ele era marginalizado por todos. Chamavam-lhe «a Francisca», feminizando o seu nome real.

—Á Francisco —chamou o Miguel—. Vem cá.

O Francisco obedeceu, com passos lentos, porque ele sempre obedecia e, se calhar, até aquele calouro ainda bateria nele como faziam todos, mas no princípio tinha usado o seu nome verdadeiro:

—Olha, o teu tio Alexandre diz-me que fiques descansado, que algum dia sairás daqui e conhecerás alguém que te estimará como mereces.

Os olhos do Francisco espetaram-se no rosto do Miguel.

—A sério podes falar com os mortos?

—Posso. Mas escuta, o teu tio diz que…

—O meu tio morreu porque o mataram alguns daqui da aldeia, riam-se dele.

—Eu sei. Ele já me contou. Por gostar de homens.

O Francisco ficou em silêncio. Ele também tinha descoberto que, como acontecia ao seu tio, também gostava de homens. Temia acabar como o tio, morto, mas antes todos o considerariam um doente. O rapaz foi embora, a caminhar devagar, com os olhos para o chão, afastando-se lentamente.

O Miguel deixou a sua vista passear pelo pátio da escola. Sabia que todos, desde aquele momento, iam afastar-se dele. Mas era melhor assim, porque preferia estar só e tranquilo do que só e golpeado. Sabia que não teria amigos lá onde for, por aquele estranho dom de poder falar com os mortos, de vê-los ao seu lado e ouvir o que lhe contavam, mas já estava a se acostumar e, aliás, evitava-lhe conflitos.

Nessa altura soou a campainha que anunciava o retorno às aulas. O Miguel moveu-se lentamente e caminhou para a porta, abandonando aquela parede que lhe servira de refúgio, enquanto ouvia as palavras da sua avó, que também tinha morto havia alguns anos e que era o único espírito que realmente ouvia, só ela:

—É pena não poder cobrar aos mortos por falarem com os vivos, como se cobra aos vivos por falarem com os mortos…

Lástima que a sua avó fosse, tanto de morta como de viva, tão mexeriqueira e lhe contasse tantas e tantas bisbilhotices de tantos e tantos mortos que a ele não interessavam. Pelos restos, os mortos eram uma fonte de informação inesgotável…

Sobre o autor / a autora

Xavier Frias Conde

Xavier Frias Conde

(Galiza)

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