Lembrança da professora de literatura

2 comentários 🕔11:30, 18.Jun 2014

A vida consiste em sucessivas mutações do amor

A Maria Díaz Vidal, in memoriam

Ó Maria, acho menos as tuas coxas
carregadas de poesia,
teus lábios de vénus aloirada
e teus quadris para sempre rimados
no meu coração.
Teus andares sinestésicos
forneciam a métrica semanal
do tambor literário que ardia
no meu peito, adolescente encavalgado
na metáfora encarnada
que às vezes imaginava
sob as meias florais de um sonho.
Porque é assim o amor e assim
se reveste de sexo para apontar mais alto
e fazer-nos vibrar
sobre os estúpidos cumes do convencional.
Porque o erótico é o grande catalisador
de todo aquilo que cresce,
mesmo se não se tratar
das calças de um adolescente.
Agora sei que estás morta, Maria,
e fico triste por não ter chegado a tempo
de te dizer o muito que gostava
das tuas pernas e das aulas de literatura,
e de como umas e outras são só a mesma cousa:
o desejo que provém da carne
e o prazer de escrever um verso que arde.

Sobre o autor / a autora

Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro

(Galiza) Alfredo Ferreiro nasceu em 1969 na Corunha, onde estudou Filologia Hispânica. Pertence à Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, à Associaçom Galega da Língua e ao Grupo Surrealista Galego. Tem participado desde os anos 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas galegas e portuguesas. Na atualidade trabalha como escritor e consultor tecno-cultural.

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