Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (XIII) ~ Raimbaut de Vaqueiras

0 comentários 🕔12:26, 27.Jun 2014

RAIMBAUT DE VAQUEIRAS (…1180-1205…): Calenda maia19 (tradução de Graça Videira Lopes)

Calenda maia20
ni fuelhs de faia
ni chans d’auzel ni flors de glaia
non es que.m plaia,
prós dona gaia,
tro qu’un isnel messagiér aia
del vostre bel cors, qui.m retraia
plazer novel qu’Amors m’atraia
e jaia, e.m traia vas vos,
domna veraia,
e caia de plaia .l gelôs,
ans que.m n’estraia.
 
Ma bela amia,
per Diéu non sia
que já.l gelôs de mon dan ria,
que car vendria
sa gelosia,
si aitals dôs amants partia;
qu’iéu já joiôs mais non seria,
ni jóis ses vos pró no.m tenria;
tal via faria qu’homs já
mais no.m veiria
– celh dia morria, domna
prós, qu’ié.us perdria.
 
Com er perduda
ni m’er renduda
domna, s’enans non l’ai aguda?
Que drutz ni druda
non es per cuda!
Mas quant amants en drut si muda,
l’onors es grans que.lh n’es creguda,
e.l bels semblans fai far tal bruda;
que nuda tenguda no.us ai,
ni d’als vencuda,
volguda, crezuda vos ai,
ses autr’ajuda.
 
Tart m’esjauzira,
pós já.m partira,
Bels Cavalhiérs, de vos ab ira,
qu’alhors no.s vira
mos cors, ni.m tira
mos desiriérs, qu’als non desira;
qu’a lauzengiérs sai qu’abelira,
domna, qu’estiérs non lur garira:
tals vira, sentira mos dans,
qui.ls vos grazira;
que.us mira, cossira cuidanz,
don cors sospira.
 
Tant gent comença,
part totas gença,
Na Beatritz, e pren creiscença
vostra valença!
Per ma credença,
de pretz garnitz vostra tenença
e de bels ditz, senes falhença;
de faitz grazitz tenetz semença;
siença, sufrença avetz
e coneiscença;
valença ses tença vistetz
ab benvolença.
 
Donna grazida,
quecs lauza e crida
vostra valor qu’es abelida,
e qui.us oblida,
pauc li val vida;
per qu’ié.us azor, domn’ eiscernida,
car per gençor vos ai chauzida
e per melhor, de prez complida,
blandida, servida gencês
qu’Erecs Enida.
Bastida, finida, N’Englês,
ai l’estampida
 
 
Altas undas que venez sus la mar23
 
Altas undas que venez sus la mar,
que fai lo vent çai e lai demenar,
de mon amic sabetz novas contar,
qui lai passet? No lo vei retornar!
E oi Déu! D’amor
ad ora.m dona jói et ad ora dolor!

 
Oi, aura douça, qui vens devérs lai
on mon amic dorm e sejorna e jai,
del dolç alen un beure m’aportai!
La boca obre, per gran desir qu’en ai.
E oi Déu! D’amor,
ad ora.m dona jói et ad ora dolor!

 
Mal amar fai vassal d’estranh país,
car en plor tórnan e sos jocs e sos ris;
já non cudei mon amic me traís,
qu’éu li donei çó que d’amor me quis.
E oi Déu! D’amor,
ad ora.m dona jói et ad ora dolor!
Ramo de maia,
nem folha de faia,
nem canto de ave nem flor de gladíolo
não há que me atraiam,
nobre dama gaia,
até que veloz mensageiro haja
de vossa bela pessoa, que me relate
novo prazer que o Amor me traga
e me deite, e me atraia para vós,
dama veraz;
e caia, de praga, o ciumento
antes que a tal renuncie.
 
Bela amiga minha,
por Deus não seja
que já o ciumento21 de meu dano se ria,
que caro venderia
a sua felonia
se tais dois amantes desunisse;
que eu já alegre mais não seria,
nem gozo sem vós me aproveitaria;
tal via faria que ninguém já
mais me veria
– esse dia, morreria, senhora,
em que vos perdesse.
 
Como será perdida
ou restituída
a dama, se antes não a possuí?
Que amante, ele ou ela,
não se é por cuidar!
Mas quando um amado em amante se muda
grande é a honra que lhe é acrescida,
e o seu rosto feliz faz correr tal rumor;
mas pois nua não vos hei tido,
nem vencida,
desejada e querida vós sois,
sem outra ajuda.
 
Breve tempo me alegraria,
pois já me afastaria
Belo Cavaleiroi22, de vós com tristeza:
que para nada mais se vira
meu coração, nem me arrasta
meu desejo, e a mais não aspira;
mas aos maldizentes sei que agradaria,
senhora, pois de outro modo não lhes aproveitaria:
se um tal visse e sentisse o meu dano,
vo-lo agradeceria;
quem vos mira queda-se cuidando,
e o coração suspira.
 
Tão gentilmente começa,
entre as gentis,
D. Beatriz24, e vai crescendo,
a vossa valia!
A meu ver,
de valor adornais o vosso estado,
e com belas palavras, sem falta alguma;
de feitos louváveis tendes a semente;
saber, paciência tendes
e inteligência;
valimento, sem contenda, vestis
com benevolência.
 
Senhora graciosa,
qualquer um louva e proclama
a vossa valia, que é reconhecida;
e a quem vos olvida
pouco lhe vale a vida;
e assim vos adoro, senhora subida,
e, por mais gentil, por mim escolhida,
e por melhor, e de mérito cumprida,
e cortejada e servida, melhor
que Erec a Enidai25.
Produzida e concluída, D. Inglês,
está a estampida.
 
 
 
 
Altas ondas que vindes sobre o mar,
que o vento faz aqui e ali agitar,
do meu amigo sabeis novas contar,
que aí passou? Não o vejo voltar!
E ai, Deus! De amor,
ora me dá gozo e ora me dá dor!

 
Ai, doce brisa, que vens ora de lá
onde o meu amigo dorme, mora e está,
do seu doce alento um sopro me traz já!
A boca abro, com o seu desejo grande.
E ai, Deus! De amor,
ora me dá gozo e ora me dá dor!
 
Mal faz amar vassalo de estranho país,
pois em choro se tornam seus jogos e seus risos;
jamais cuidei que o meu amigo agisse assim,
que eu lhe dei tudo o que de amor quis de mim.
E ai, Deus! De amor,
ora me dá gozo e ora me dá dor!

 

Notas

19É esta a mais famosa estampida provençal, género proveniente da França do norte, e que se caracteriza por um tipo de música especial (que, neste caso, chegou felizmente até nós). O complexo esquemo rítmico e rimático da composição é um desafio a qualquer tradução, desafio perdido à partida. Convido, pois, o leitor a tentar seguir o texto occitânico, cuja beleza imagística e sonora é impossível de traduzir.

20As maias eram (e são ainda, em algumas regiões) os raminhos que se ofereciam no primeiro dia do mês de maio, e é a eles que o trovador alude (embora através da data: calenda de maio).

21O ciumento é o marido.

22Belo Cavaleiro é o senhal da dama amada.

23Altas undas que venez sus la mar – Como há muito os especialistas fizeram notar, esta cantiga, posta em voz feminina, parece manifestamente inspirada nas cantigas de amigo galego-portuguesas. Por motivos que se prendem não só com alguma incerteza no que respeita à generalidade das atribuições do único manuscrito que a transmite (mas que, neste caso, claramente a atribui ao trovador) mas também com a cronologia comparada de Raimbaut de Vaqueiras (que aparentemente nunca viajou para a Península) e dos mais antigos textos galego-portugueses do género conservados, alguns especialistas, o último dos quais Giuseppe Tavani, defenderam que a cantiga não seria da autoria de Vaqueiras, mas de um trovador anónimo e mais tardio, eventualmente catalão. Embora não seja este o lugar para uma discussão alargada sobre o assunto, não me parece que Tavani tenha razão. Tal como Riquer, continuo, pois, a considerar que a cantiga deve ser incluida na obra do Raimbaut de Vaqueiras.

24Deve tratar-se de Beatriz de Monferrato, filha do marquês em cuja corte foi feita a estampida (e que deve ser a personagem referida no final da composição).

25Erec e Enida são os protagonistas de uma novela homónima de Chrétien de Troyes. Dom Inglês, no verso seguinte, é o senhal do destinatário, possivelmente o marquês de Monferrato.

Sem comentários

Ainda não há comentários

Ninguém deixou um comentário para este post ainda!

ESCREVA UM COMENTÁRIO SOBRE ESTE POST

Escrever um comentário 

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *