Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (XIV) ~ Peire Vidal

0 comentários 🕔16:00, 24.Set 2014

PEIRE VIDAL (…1183-1204…): Ab l’alen tir vas me l’aire (tradução de Graça Videira Lopes)

 

Ab l’alen tir vas me l’aire
qu’iéu sen venir de Proença;
tot quant es de lai m’agença,
si que, quan n’aug ben retraire,
iéu m’o escout en rizen
e.n deman per un mot cen:
tan m’es bel quan n’aug ben dire.
 
Qu’hom no sap tan douç repaire
cum de Rozer tró qu’a Vença,
si cum clau mars e Durença,
ni on tant fins jóis s’esclaire.
Per qu’entre la franca gen
ai laissat mon cór jauzen
ab liéis que fa.ls iratz rire.
 
Qu’hom no pot lo jorn mal traire
qu’aia de liéis sovinença,
qu’en liéis nais jóis e comença.
E qui qu’en sia lauzaire,
de ben qu’en diga, no.i men;
que.l mielher es ses conten
e.l gêncer qu’e·l mon se mire.
 
E s’iéu sai ren dir ni faire,
ilh n’aia.l grat, que sciença
m’a donat e conoiscença,
per qu’iéu sui gais e chantaire;
e tot quan fauc d’avinen
ai del siéu bel cors plazen,
neis quan de bon cór consire.
 
 
Car’amiga dolç’e franca
 
Car’amiga dolç’e franca,
covinens e bela e bona,
mos cors a vos s’abandona
si qu’ab autra no s’estanca;
per que.us port amor certana
ses orguelh e ses ufana,
e mais desir vostra amança
que Lombardia ni França.
 
Car vos etz arbres e branca
on fruitz de gaug s’assazona:
peró qui a vos s’adona
no tém folzer ni lavanca;
car vostr’amors segurana
gueris e.m reven e.m sana,
e.m tol enuei e pesança
ab gaug de fina alegrança.
 
Qu’ab color vermelha e blanca
fina beutatz vos faiçona
ad ops de portar corona
sus en l’emperial banca.
E car es dolç’e humana,
tenô.us tuit per soberana
de jói e de benestança
e de valor e d’onrança.
 
Ges no.s dol de pé ni d’anca
la bela Na Guilhamona,
ni es falsa ni felona,
ni porta soc ni sanca.
Anc tan gentils ciutadana
no nasquét ni tan dolçana,
neis la filha Na Constança,
per cui Jovens saut’e dança.
 
Qu’hom no.m poiria ab planca
gitar del linh de Narbona:
car en tan quan revirona
cels, non a saura ni dança,
tan avinen crestiana
ni juzeva ni pagana,
que denan totas s’enança
vostra covinens semblança.
 
Vielha rica tenh per manca,
quant a poder e no dona,
e acuelh mal e pieitz sona:
pretz la meins que s’era ranca.
Mas de gentil castelhana
ben faita, ab color de grana,
am mais sa bon’esperança
que pel froncida ni rança.
 
Qui d’En Diego s’arranca,
non a mestiér mas que.s pona,
ó qu’hom tot viu lo rebona,
en privada pozaranca,
a lei de chica vilana,
recrezen, cór de putana,
si tota al taulat se lança
ni.s ponha d’emplir sa pança.
Com o alento aspiro o ar
que eu sinto vir da Provença;
tudo o que é de lá me encanta,
tal que, quando a ouço gabar,
sempre eu escuto sorrindo,
e peço, duma palavra, cem,
tanto me agrada ouvir dela bem.
 
Pois não há tão doce morada
como do Ródano até Vence,
fechada pelo mar e pelo Durense26,
nem onde tão clara alegria resplandeça.
Por isso, entre a franca gente,
deixei meu coração contente,
com aquela que faz os tristes rir.
 
Pois ninguém pode mal passar
o dia em que dela não se esqueça,
que nela nasce a alegria e começa.
E quem quer que a queira louvar,
por bem que diga, não mente:
que a melhor é, claramente,
e a mais gentil que o mundo viu.
 
E se eu algo dizer ou fazer sei,
a ela cabe o mérito, que ciência
me deu e competência
que me faz ser alegre e cantador;
e tudo o que eu faço de excelente
me vem do seu belo coração ridente,
até quando, com gosto, só nela penso.
 
 
 
 
Cara amiga, doce e franca,
amável, formosa e boa,
meu corpo a vós se abandona,
sem em outra se deter;
pois vos tenho amor seguro,
sem orgulho e sem vaidade,
e mais desejo vossa amizade
que a Lombardia ou a França.
 
Pois vós sois árvore e ramo
onde o fruto do prazer cresce,
e quem a vós se oferece
não teme raio nem alude;
vosso amor assim seguro
me cura, reanima e sara,
me tira angústia e tristeza,
com gozo de firme prazer.
 
Com a cor vermelha e branca,
fina beleza vos molda,
pronta para levar coroa
sobre o trono imperial.
E pois sois doce e humana,
todos vos têm por soberana
de prazer e perfeição,
de valor e de honradez.
 
Não se dói de pé nem de anca
a bela Dona Guilhamona27,
nem é falsa nem traidora,
nem calça soca nem chanca.
Jamais tão gentil cidadã
nasceu, nem outra tão doce,
nem a filha de Dona Constança28,
por quem Juventude salta e dança.
 
Ninguém me poderia, duma prancha,
deitar fora do barco de Narbona29,
pois em tudo quanto rodeia
o céu não há, loira ou morena,
tão graciosa cristã,
nem judia, nem pagã,
pois a todas se adianta
a vossa bela aparência.
 
Velha rica tenho por manca
quando tem poder e não dá,
e acolhe mal e pior fala:
prezo-a menos que coxa.
Mas de gentil castelhana30,
bem feita, cor de romã,
amo mais a boa esperança
que pele franzida nem rança.
 
Quem de D. Diogo se arranca31
só lhe resta que se atire
(ou que vivo o enterrem)
em privado poceirão,
à lei de moça vilã,
vil coração de rameira,
quando para a mesa se lança
e se põe a encher a pança.

 
 
Notas

26 São os limites geográficos do condado da Provença: o Ródano a oeste, a cidade de Vence (perto do Mónaco) a leste, o mar Mediterrâneo ao sul, e o Durense, afluente do Rodano, a norte.

27 Poderá tratar-se de uma donzela da família dos Lara, ligados aos viscondes de Narbonne (note-se a referência à linhagem dos viscondes no v. 34).

28 Já esta filha de uma D. Constança é difícil de identificar. Riquer crê que se poderá tratar de Constança de Aragão, filha de Afonso II e casada com o rei Aimeric da Hungria (até porque Peire Vidal esteve, de facto, neste país).

29 O trovador faz aqui um jogo, difícil de traduzir, com o termo ling, ao mesmo tempo “lenho, navio” e “linhagem”. É ao primeiro sentido que se refere o anterior termo “planca”, a prancha ou passarela para embarcar num navio.

30 Mantenho, na tradução, o termo “castelhana”, que é também o utilizado por Riquer na sua tradução (e que justifica em grande parte a sua identificação das personagens referidas). Mas note-se que o termo também se poderia traduzir simplesmente por “castelã”.

31 Trata-se de D. Diogo López de Haro, senhor de Biscaia, um dos mais poderosos ricos-homens peninsulares, e grande protetor dos trovadores. Esta última estrofe hiperboliza, em tom nitidamente cómico, a impossibilidade de alguém abandonar a companhia do senhor de Haro.

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