Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (XV) ~ Cadenet

0 comentários 🕔11:33, 08.Out 2014

CADENET (inícios do século XIII): S’anc fui belha ni prezada (tradução de Graça Videira Lopes)
 

– S’anc fui belha ni prezada,
ar sui d’aut en bas tornada,
qu’az un vilan sui donada
tot per sa gran manentia;
e morria,
s’iéu fin amic non avia
cui dissês mo marrimen,
e gaita plazen
que mi fes son d’alba.
 
– Iéu sui tan cortesa gaita
que no vuelh sia desfaita
leials amors a dreit faita,
per que·m don guarda del dia
si venria
e drutz que jai ab s’amia,
prenda comjat francamen
baizan e tenen,
qu’ieu crit, quan vei l’alba.
 
S’iéu en nulh castelh gaitava
ni fals’amors i renhava,
fals si’iéu si no celava
lo jorn aitan quan poiria;
car volria
partir falsa drudaria;
et entre la leial gen
gait iéu leialmen,
e crit, quan vei l’alba.
 
Be·m plai longa nuech escura
e·l temps d’ivern, on plus dura,
e no·m lais ges per freidura
qu’iéu leials gaita no sia
tota via,
per tal que segurs estia
fins drutz, quan pren jauzimen
de domna valen,
del ser tró en l’alba.
 
– Já per gap ni per menaça
que mos mals maritz me faça,
no mudarai qu’iéu no jaça
ab mon amic tró al dia;
car seria
desconoiscens vilania,
qui partia malamen
son amic valen
de si, tró en l’alba.
 
– Anc no vi jauzen
drut que·l plaguês l’alba.
 
– Per çó no m’es gen
ni·m plai, quan vei l’alba.
– Se já fui bela e prezada,
de alto a baixo estou mudada,
pois a um vilão fui dada,
só pela sua riqueza;
e morreria
se um amigo não tivesse,
a quem minha mágoa dissesse
e amável vigia
que me faça o som da alba.
 
– Eu sou tão cortês vigia
que não quero ver desfeito
leal amor e direito;
por isso vigio o dia,
se já vem,
e o que jaz com sua amiga
despeça-se livremente,
beijando e abraçando,
que eu grito quando vem a alva.
 
Se vigiasse castelo
onde falso amor reinasse
erraria se não ocultasse
o dia, quanto pudesse;
pois quereria
quebrar falsa mancebia;
mas entre gente leal
vigio eu lealmente
e grito quando vejo a alba.
 
Bem me apraz noite longa e escura
e o tempo de inverno, em que mais dura,
e não desisto, por friúra,
de ser eu leal vigia,
todavia,
para que esteja seguro
fino amante, quando prazer sente
com dona valente,
do serão até à alba.
 
– Nem por pragas ou ameaças
que meu mau marido faça,
deixarei eu de jazer
com meu amigo até ser dia;
pois faria
uma ingrata vilania
quem separasse rudemente
o seu amigo valente
de si, antes da alba.
 
– Nunca vi ditoso
amante que gostasse da alba.
 
– Por isso me é custoso
e não me apraz, quando vejo a alba.

 

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