4 poemas de <em>Da Vida Conclusa</em>, de Mário Herrero Valeiro

4 poemas de Da Vida Conclusa, de Mário Herrero Valeiro

0 comentários 🕔16:00, 22.Out 2014

Da Vida Conclusa, de Mário Herrero Valeiro, é a obra ganhadora do II Prémio de Poesia O Figurante.
Lembrando Clement Rosset. Logique du pire. Elementos para uma poesia trágica. Agora. Perversão: a poesia trágica é a história de uma visão impossível – visão de nada. Dous tópicos. Dous livros. Um só livro. Um só tópico. O que resta de mim. Sonhei, lembro que sonhei. Sonhei sonhos de homens vulgares. E do sonho só ficou a lembrança. O labirinto fecha-se. O pior começa agora.

Desde Palavra Comum agradecemos ao autor e à editora do livro que facilitassem a publicação destes 4 poemas da obra, os 2 primeiros pertencentes à primeira parte e os outros 2 à segunda.

biografia
(versão primeira)

experimento
(e o verbo exato é experimentar)
um ódio atroz por aqueles
que podem escrever as suas biografias,
em especial por aqueles
que não têm vergonha
em mostrar as suas misérias
em impúdicas narrações,
eis a minha vida, meus leitores,
do nascimento à morte,
todos os lugares, todos os corpos,
todas as palavras, o nome
da minha mãe, a tragédia do meu pai,
os irmãos que não tive,
as amantes que imaginei,
o dia em que nasceram os meus filhos,
a data da morte da minha avó,
o motivo de aquele poema,
a descrição pormenorizada
de um encontro furtivo,
a nítida futilidade dos meus atos,
de todos e de cada um dos meus atos,
as tentações e os desejos,
o retrato de uma vida inane
e perversa, a elaboração
complexa das mentiras,
e a consciência violenta de saber
que qualquer poema é,
simplesmente,
um cobarde fragmento de biografia

***

26 de março de 2014

aguardo, como sempre,
que algo ocorra,
tenho, como vós,
fome, frio, medo,
e invejo a vossa presença
nas ruas, as luzes dando voltas,
a ira que já não encontro,
partiu a vida,
fica apenas o cheiro das crianças,
os seus risos na sala,
as suas mãos na minha face,
partiu a vida, está já longe,
construiremos outra casa,
outra tumba, outro livro,
outras luzes dando voltas,
tenho, como vós,
medo, frio, fome,
desejo, como vós,
que ocorra algo,
partiu a vida,
a estrada é longa demais,
os risos das crianças
cruzando a sala,
construindo a casa,
tenho, como vós,
desejo de partir

***********************

a sensação de perda é constante,
fadiga a lembrança do poema
em que descrevi a nossa passagem
pola noite, anatomia da perda,
a iluminar o vazio em que nos
encontramos, há já tantos anos,
a inventarmos rotinas,
a cruzarmo-nos nos corredores,
a imaginarmos novas portas,
a debilidade que nos mantém vivos,
o silêncio que tudo justifica,
a perda em que sempre habitamos

***

a sua fragilidade aparente ocultava
a persistente crueldade dos néscios
que nos fragmentam a vida
em tristes episódios de fraqueza,
não era nada, e não o sabia,
por baixo de um grotesco orgulho
nada havia, nada por detrás
das suas palavras, nada entre as
pernas, nada atrás dos seus olhos,
banalidade apenas e patética máscara,
cadavérica representação da feminilidade,
presença que ainda me atormenta,
néscio que entre néscios se consome

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