Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (XVI) ~ Peire Cardenal

0 comentários 🕔10:10, 22.Out 2014

PEIRE CARDENAL (…1205-1272…): Ab votz d’angel, lêngu’esperta, non blesai32 (tradução de Graça Videira Lopes)
 

Ab votz d’angel, lêngu’esperta, non blesa,
ab motz sotils, plans plus qu’obra d’Englês,
ben assetatz, ben ditz e sens represa,
mielhs escoutatz, ses tossir, que aprês,
ab planhs, sanglotz, mostran la via
de Jesu Crist, que quecs deuria
tener, com El per nos la volc tener,
van prezican com puescam Diéu vezer:
 
si non, com ilh, mangêm la bona fresa
e·l mortairol si batut qu’ho∙l beguês,
e·l gras sabriér de galina pagesa
e, d’autra part, jove jusvert ab blês,
e vin qui milhior non poiria,
don Francês plus léu s’enebria.
S’ab bel viure, vestir, manjar, jazer
conquer hom Diéu, be·l poden conquerer,
 
aissi con cilh que bêvon la cervesa
e manjô·l pan de juelh e de regrês,
e·l bró del gras buóu lur fai gran fereza
et onchura d’óli non volon ges,
ni peis fresc gras de pescaria,
ni broet ni salsa que fria.
Per qu’iéu conselh qui ‘n Diéu a son esper
qu’ab lurs condutz passe, qui·n pot aver.
 
Religiôs fon, li premiéira, empresa
per gent que tréu ni bruida non volguês,
mas jacopin aprés manjar n’an queza,
ans desputan del vin, cals mielhers es,
e an de plaitz cort establia
e es vaudês qui·ls ne desvia;
e los secretz d’home vólon saber
per tal que mielhs si puescan far temer
 
Esperitals non es la lur paubreza:
gardan lo lor, prênon çó que miéus es.
Per mols gonels, tescutz de lana englesa,
láisson celitz, car trop aspre lur es.
Ni párton ges lur draparia
aissi com Sains Martins fazia:
mas almornas, de qu’hom sol sostener
la paura gent, vólon totas aver.
 
Ab prims vestirs, amples, ab capa tesa,
d’un camelin d’estiu, d’invern espês,
ab prims cauçatz – solatz a la francesa
can fai gran freg – de fin cuer marselhês,
ben ferm liatz per maistria,
car mal liars es grans folia,
van prezicant, ab lur sotil saber,
qu’en Diéu servir metam cór e aver.
 
S’iéu fos maritz, mot agrá gran fereza
qu’homs desbraiatz lonc ma molher seguês,
qu’elas e ilh an faudas d’una ampleza
e fuoc ab grais fort leumen s’es emprés.
De beguinas re no∙us diria:
tals es turgua que fructifia
– tals miracles fan, aiçó sai per ver;
de sains paires saint pódon ésser l’er.
Com voz de anjo, língua solta e não perra,
com palavras subtis, macias mais que lavor de Inglês,
bem colocadas, bem ditas e escorreitas,
melhor escutadas, sem tossires, que entendidas,
com choros e soluços mostrando a via
de Jesus Cristo, aquela que cada um deveria
seguir, como Ele por nós a quis seguir,
vão pregando como poderemos Deus ver:
 
se não comermos, como eles, o bom assado33,
o guisado tão desfeito que se bebe,
o gordo caldo de galinha camponesa
e, ao lado, vinagre novo nas acelgas,
e vinho, que melhor não se poderia,
com que o Francês mais depressa se enebria.
Se com o bom viver, vestir, comer, dormir
se conquista Deus, bem o podem conquistar,
 
como aqueles que bebem só cerveja
e comem pão de joio e de farelo,
e o caldo de vaca gordo lhes repugna,
e não querem azeite de tempero,
nem peixe fresco gordo de viveiro,
nem caldinhos, nem molho apurado.
Pelo que aconselho, a quem em Deus espera,
que com suas comidas passe, se as puder ter.
 
As casas religiosas foram primeiro instituídas
por gente que balbúrdia nem ruído não queria;
mas os jacobinos34 depois de comer não se calam,
antes discutem qual vinho é o melhor;
e têm, de preitos, um tribunal instituído35,
e é herético quem se lhes desvia;
e os segredos de um homem querem saber
para que melhor se possam fazer temer.
 
Espiritual não é a sua pobreza:
guardando o seu, tomam o que meu é.
Por macias gonelas, tecidas de lã inglesa,
deixam o cilício, pois muito áspero lhes é.
Nada repartem das suas vestimentas,
tal como fazia São Martinho36;
mas as esmolas, com as quais se mantém
a gente pobre, todas querem obter.
 
Com bons vestidos, amplos, sob capa aberta,
de cendal no Verão, no Inverno grossos,
com bons sapatos – de solas à francesa
quando faz gram frio – de fino couro marselhês,
bem firmemente atados com mestria,
pois mal atar é grande loucura,
vão pregando, com o seu subtil saber,
que em Deus servir punhamos o coração e o haver.
 
Se eu fosse marido, grande pavor teria
que homem sem calções junto a minha mulher andasse,
pois elas e eles usam saias de largura igual
e o fogo com a gordura facilmente se acende.
Sobre beguinas37 nada mais vos diria:
tal há, estéril, que frutifica
– tais milagres fazem, isso sei decerto;
e de santos pais, santos podem os herdeiros ser.

 
Notas

32 O alvo central deste sirventês são os dominicanos, mais especificamente os franceses.

33 Todas as comidas referidas nestas duas estrofes, constituindo, no seu conjunto, um interessante documento sobre a culinária medieval, não são, nalguns momentos, fáceis de traduzir. A minha tradução tem em conta Riquer, Cabana, mas também o meu próprio entendimento.

34 Os dominicanos eram também chamados jacobinos por se terem estabelecido na Rua de Saint Jacques, em Paris.

35 É possível que os versos aludam ao tribunal da Inquisição, fundado em Toulouse em 1229, em resultado da pressão francesa sobre o papado (para combater a heresia cátara e dominar melhor os territórios do sul). Os valdenses pertenciam a um movimento dissidente cristão iniciado por Pierre Valdo, comerciante de Lyon (m. 1217), igualmente perseguido pela Igreja de Roma.

36 S. Martinho era um soldado romano convertido que, segundo a hagiografia, cortou a sua capa com a espada para dar metade a um pobre.

37 As beguinas eram mulheres que viviam em comunidade religiosa, sem terem feito votos completos.

 

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