<em>Todos eram filhos da mesma mãe</em>

Todos eram filhos da mesma mãe

0 comentários 🕔17:00, 05.Nov 2014

Já havia dous anos que morávamos naquela casa. Chegamos a ela quando casámos, cheios de alegria e de ilusões, com as energias próprias da mocidade que nos permitiriam aturar aqueles vizinhos tão particulares. Eram uma tribo duns oito ou dez, todos filhos da mesma mãe. Só três deles se podiam considerar normais, enquanto que o resto estavam todos perdidos no mundo das drogas. Quando nos cruzávamos com qualquer um deles pelas escadas, percebia-se perfeitamente o seu rosto de iônquis e colgados.
Não eram os vizinhos, no entanto, o que nos desagradava, o que nos fazia a vida um espanto constante, porque os vizinhos não incomodavam ninguém, porque, à sua maneira, eram amáveis, respondiam aos nossos cumprimentos com grunhidos suaves, carentes de violência. Não, verdadeiramente, os vizinhos não nos incomodavam, mas sim o seu cão.
Aquele monstro vivia no terraço justo em cima de nós. Tínhamos uma açoteia que dava parede com parede com a dos vizinhos. Aquele seu cão dava uns concertos de ladridos insuportáveis. Tratava-se dum pastor alemão cruzado com alguma raça da rua, a que acompanhavam, também no terraço, três cãozinhos minúsculos, mais bem ridículos, que lhe faziam os coros.
Aquele rebúmbio atravessava perfeitamente o teito e chegava nitidamente até nós, em qualquer momento do dia. Tínhamos de aguentar tudo estoicamente, porque ao cabo éramos moços e nos considerávamos tolerantes.
Se queríamos abrir a nossa porta do terraço, devíamos parar perante a porta dos vizinhos; assim que os cães nos sentiam, começavam um dos seus concertos de ladridos extraordinários e inclusive algum debruçava o focinho por baixo da fenda da porta, que era tão velha como o prédio.
Isso desanimava-nos a passar as tardes de verão baixo o sol, no nosso terraço. Se algum dia levávamos um par de cadeiras de praia, o pastor alemão assomava-se e o concerto canino era daquela um canto de ameaças.
Não, não podíamos lutar contra os elementos, sobretudo se os elementos eram tão peludos e irracionais, sem se importar se caminhavam sobre duas patas ou sobre quatro.

* * *

Todo mudou quando nasceu a cativa. A nossa alegria de tê-la embafou logo quando a menina não podia dormir de noite por causa dos ladridos dos cães. Parecia como se aqueles filhos do diabo –quero dizer, os cães dos vizinhos– intuíssem que a pequena dormia para começarem a ladrar.
Era horrível quando a pequena abria os olhos de repente e rompia a chorar da que sentia os ladridos, que atravessavam a casa desde o teito até os alicerces.
– Cumpre rematar com esta história –disse um de nós os dous.
– Sim, mas como? –respondeu a seguir o outro sem nenhuma esperança.
Era terrível não podermos subir a cativa ao terraço para tomar o sol. Os cães tinham uma especial fixação nela e nas poucas ocasiões que ela esteve conosco no terraço, os animais foram ainda mais selvagens. A criança, como era de esperar, sentia-se aterrorizada em escutando aqueles grunhidos, pelo que devíamos voltar às carreiras para a casa.
– E se falamos com a vizinha? –sugeriu a Joana, a minha dona–. Bem sei que é inútil falar com os filhos, mas ela é-te’ uma mulher bastante compreensiva e se lhe contamos o que acontece com os cães, penso que será consciente do que há e poderemos ir ao terraço quando tivermos gana com a pequena.
– Não sei, mas cuido que esses cães não calarão nunca…
A mãe da tropa era uma mulher de idade indefinida, que podia abalar entre os quarenta e cinco e os sessenta anos. Era muito gorda e quase que nem saia da casa. Podíamos senti-la berrar às vezes quando um filho lhe chegava mais enganchado do habitual; daquela, os gritos e os golpes das portas ecoavam na casa toda, seguidos de cagamentos da mãe chamando ao filho em questão todo género de insultos, mostrando em tais ocasiões um rico repertório léxico.
– Tu havias de falar com ela –repetiu-me um domingo a Joana.
– Agora mesmo? De seguida?
– Acabo de ouvir a porta do seu terraço e sei que ela está ali agora.
Dava-me muita vergonha reconhecê-lo, mas o mero facto de entrar naquele lugar causava-me pânico, ainda que fosse irracional, bem o sei. Vi daquela como a minha filha adormecia sobre o peito de sua mãe, com a mamila ainda na boca, a deixar escapar umas pinguinhas de leite pelo bordo dos seus lábios.
Subi ao terraço com a imagem da cativa dentro da minha cabeça. Da que ia erguendo os pés pelos degraus, o barulho dos cães era mais e mais notável. Assim e tudo, continuei para acima.
A velha e ferrugenta chave do terraço dos vizinhos estava no fecho. Eu sabia que os cães não podiam sair, mas o meu medo não era menor por isso. Quando já estava ao pé da porta, um dos cadelos recebeu-me histérico, debruçando o focinho no buraco debaixo da porta, como sempre. Por se aquilo não chegava, o pastor alemão acudiu para lhe fazer companhia. Com os dous monstros ali, eu batia-me em retirada quando senti a voz da vizinha que perguntava desde o limiar:
– Quem está aí?
– Sou eu, o vizinho, que queria falar consigo.
– Ah, sim, passe, faça o favor.
O seu tom era doce. Aquela mulher era uma boa pessoa que tivera a má sorte de ver os seus filhos ir por um caminho inimaginável por ela havia quarenta anos, ou os que fossem. Ela sempre se mostrou muito serviçal connosco à hora de nos recolher o correio quando estávamos de férias.
Eu não tinha qualquer intenção de entrar naquele terraço. O medo paralisava-me perante a ideia de me encontrar de frente com aqueles monstros pequenos e que o monstro maior me pousasse as poutas no peito, enquanto me ensinava os cairos como se eu fosse o seu dentista.
– Não quer passar?
– É que…
Ela deveu intuir que o motivo da minha imobilidade eram os cães e acougou-me dizendo:
– Fique descansado, os cães estão amarrados.
Finalmente empurrei a porta e passei pela primeira volta naquele terraço que eu só vira desde o meu. Estava todo rodeado de plantas, sobre todo gerânios, enquanto que o meu estava todo ermo.
Fizeram uma espécie de alpendre num dos extremos, onde os cães se abeiravam do sol. A vizinha limpava o chão com uma vassoira, a recolher toda classe de lixo que havia por ali espalhado. Via-se claramente que os animais não eram os únicos que deixavam ali o seu rastro, mas também os filhos; estava todo coberto de garrafas de cerveja vazias, caixas de tabaco e outras embalagens impossíveis de identificar.
– Hei de limpar todos os dias –explicou-me a paisana quando ao cabo estive dentro–. Os filhos vêm dormir aqui quase todas as noites no verão, porque dizem que aqui vai menos calor.
O fedor que surgia da mistura de restos humanos e animas fazia-se-me inaturável. Tive náuseas.
– Têm-me a trabalhar na casa todo o dia –continuava a mulher–, e além disso faço horas extras agora no verão se quero deixar todo uma migalha curioso, não sabe?
O pastor alemão olhava para mim desafiante sem parar de me grunhir. Tinha a sensação que romperia a cadeia e a seguir espetaria os seus dentes no meu pescoço.
– … os filhos não me ajudam nada. Eu tenho que alimentar os animais e mais a gente da casa, não sabe? E já lhe são velha demais para tanta léria, que me pesam os anos e as pernas…
Os cadelinhos comiam os restos duma paelha sem parar de mirarem para mim. Eu sentia mais náuseas a cada vez.
– E que era o que me queria dizer? –perguntou ela de repente–, porque eu me pus aqui a lhe contar a minha vida, mas não o deixei falar, não é? Já vê você, tanto trabalho, tantos sacrifícios e depois não temos nada na vida. Estes cães vivem melhor do que eu, sempre têm algo no prato, mas eu, em troques… Mas já lhe-lo disse aos meus filhos, que quando morram os animalzinhos, particularmente a cadelona, eu já não quero mais aqui. Mas também é verdade que são uns animalzinhos que fazem muita companhia e nos guardam o terraço, não sabe?
Eu semelhava um boneco todo imóvel, sem gurgutar.
– Mas fale você…
Retornei à realidade. Era evidente que aquilo que queria comentar com a mulher seria incompreensível para ela. Cuidava mais dos cães do que dos filhos. Logo tive de procurar uma saída:
– Somente queria pedir-lhe se seria tão amável de nos dar algum dos seus gerânios, desses tão bonitos que tem aí, porque nos prestaria pôr um raminho na janela da nossa cozinha…
– E logo, como não ia? Tenho-lhe uma cheia deles aqui. Agarre do que mais gostar –respondeu-me ela com o seu melhor sorriso, onde se podia apreciar a falta dalguns dentes no meio da boca.
– Obrigado…
Sentia-me estúpido a descer as escadas de volta para a casa com um gerânio na mão e embaraçado por ter que explicar à minha dona que não fora quem de falar dos cães com a vizinha.

* * *

Faltavam-nos ainda quinze dias para irmos de férias. O calor na cidade, durante aquele mês de junho, era insofrível. O alcatrão da rua, ao meio dia, tornava-se uma massa líquida que semelhava o sangue mouro do inferno.
Daquela sentíamos mais claramente o rebúmbio, a música a todo o volume dos vizinhos no terraço até as três da madrugada. Levavam alguns amigos com que compartiam aquelas noites de calor. Mas o pior era que, ao acabar a festa humana, começava a canina. Não lhes fazia falta usar nem música nem estimulantes como faziam os seus proprietários. Não, a eles bastava-lhes com aquele concerto de ladridos dirigido pela cadela velha, a mestra da orquestra.
– Contra os filhos da vizinha não podemos fazer nada –comentou um dia a Joana às cinco da manhã da que escutávamos, impotentes, os gemidos de nossa filha–, mas com os cães há que acabar já.
Compreendi o que queria dizer.
– Falei com meu irmão –seguiu ela depois duma breve pausa–. Chamei-o hoje de manhã ao hospital e pedi-lhe ajuda…
O seu irmão era médico e estava perfeitamente ao corrente da nossa desesperação.
– Esta tarde enviou-me um pacote a través dum mensageiro.
– Ligastes para ele hoje e já está aqui, no mesmo dia?
– Havia que atuar depressa.
Eu seguia em silêncio. Ela não me dissera nada do que planeara, mas eu já o sabia e havia forçosamente concordar com toda a operação. A Joana explicou-me o seu plano.
– No paquete há um fármaco que se bota na comida. Paralisa o coração em questão de minutos. É morte instantânea.
– Como é o fármaco em questão?
– São pós.
Olhamo-nos. Não era preciso falar mais disso. Concordávamos: Íamos desfazer-nos dos malditos cães.

* * *

Não passou da noite seguinte. A Joana ficara em baixo e eu, desde as nove, estava no terraço com todo o material já pronto para realizar aquela operação de castigo ou, mais exatamente, de canicídio.
Nunca tinha aborrecido tanto na minha vida como naquela noite. Não podia fazer nada para delatar a minha presença ali. Mesmo nem me abeirei à varanda do terraço para olhar cara a rua. Assim e tudo, os cães já me sentiram e sabiam que eu estava ao seu lado. Porém, cansaram de ladrar e grunhir cabo duma hora
Eram duas e meia quando os vizinhos subiram ao terraço. Naquela altura havia só três. Estranhou-me o seu silêncio porque não podia saber o que faziam. Logicamente não ia debruçar-me no seu terraço para comprová-lo.
O tempo não passava. Só sentia de quando em vez um carro a passar pela rua ou a súbita subida do volume dum televisor quando acabavam os anúncios e voltava a programação normal na televisão.
De repente acordei. Adormecera de tédio sem dar conta. Olhei para o relógio. Eram as quatro e dez. No terraço dos vizinhos tudo era silêncio. Chegara, portanto, a hora de fazer o meu trabalho.
Logo comprovei que não fizera bem os cálculos. Se me debruçava na parede, não tinha um acesso doado aos pratos –é um eufemismo– dos cães, porque as plantas rodeavam todo o terraço dos vizinhos e tornava-se uma magnífica proteção para eles. Estava a me anojar comigo mesmo por não ter pensado naquilo quando os meus olhos se encontraram casualmente com a antena coletiva da televisão.
Era muito grossa e tinha uma espécie de degraus de ferro. Podia solucionar o problema de seguida se agia com cautela. Subi por ela devagarzinho e detive-me quando já estivem por cima do muro. Pus lá os pés e olhei para abaixo.
Os cães estavam amarrados e olhavam para mim, sem perderem um detalhe do que estava a fazer. Sob o teito de palha parecia não haver ninguém. Assim e tudo, se houvesse alguém estaria tão drogado que seria impossível que se lembrasse de nada. Desde a rua, naquele lugar, não me podiam ver e as janelas dos prédios de enfrente não tinham luz.
Por um momento pensei que seria o crime perfeito. Comecei a quitar todo o material da mochila: primeiro o anzol e o fio de pescar, depois a carne de coelho e finalmente a minha cana de pesca desdobrável. Tinha muita prática em armar aqueles aparelhos e não botei mais de cinco minutos em ter todo pronto apesar da escassíssima visibilidade. Quando esteve tudo pronto, enganchei a carne envenenada com o anzol e fui baixando-a para o chão muito amodo.
Os cães retomaram os seus ladridos, mas não me importava. Mantinha-me firme e seguro porque já estava perto do meu objetivo. Tive de empurrar a carne até aos cães a tirar do fio porque lhes caíra algo afastado.
Quando a comida esteve diante dos seus focinhos, os animais calaram. Comeram-na em questão de minutos, exceto o troço de coelho que lhes caiu fora do prato, fora do seu alcance.
A sorte estava deitada.

* * *

O escândalo diante da porta dos vizinhos começou às nove e meia da manhã do dia seguinte. Eu não me apercebera de nada porque estava morto de sono depois da operação de castigo da noite anterior. Foi a minha dona que me despertou.
– Ergue-te, ergue-te…
Ela remexia-me junto com a cama, que vibrava como um terremoto, mas ainda assim eu não dava aberto os olhos. Finalmente abandonei o meu estado de prazer e incorporei-me à realidade.
– Que queres? Que tens?
Antes de ela responder, eu já sentia vozes no corredor de fora da nossa porta. Alguém berrava:
– Há que levá-lo já para o hospital!
– Mas é tão grave? –inquiria outra voz.
– Caralho –respondeu a primeira vez–, se ontem apenas fumara três cigarrinhos de marijuana e ia divinamente.
– Este vai-se-nos embora, bem verás…
– Não digas isso, queres?
Uma luzezinha fraca prendeu-se no meu cérebro. Compreendi o que acontecera: tratava-se do troço de carne que não comeram os cães e que caíra fora do prato. Ainda que eu pensasse que os vizinhos já não estavam no terraço, errara. Um deles dormira em baixo do teito de palha e eu não o vira. Provavelmente quando acordou sentiu fame, viu a carne e comeu-a, como de facto faziam por vezes com a comida dos cães.
Não podia ser doutra maneira.
Contei-o à minha dona.
– Não lhe farão a autopsia se morre?
Eu não respondi. Tinha mais medo que se me encontrasse diante do pastor alemão eu sozinho e desarmado.
Um bocadinho depois chegou a ambulância e atrás dela o serviço de recolha de animais mortos.

* * *

O destino é verdadeiramente cruel. Já passaram dez anos desde aquele incidente e nós temos dous foxterrier no terraço.
Não era que nem a minha dona nem eu quiséssemos tê-los, mas a nossa filha (é a única, já se sabe daquela…) convenceu-nos para comprarmos-lhos. Ela cuida-os e alimenta-os bem; ademais, no terraço têm todo o espaço que precisarem.
A única cousa que não suporto é ver a minha vizinha debruçar-se timidamente por riba da nossa parede, com a sua pele de tomate muito maduro, toda enrugada, pondo-se primeiro a sorrir e depois a chorar, a lembrar aqueles filhos adictos, aqueles filhos do ruído, quase todos já enterrados, e aqueles gerânios tão lindos que já nem tinha.

Sobre o autor / a autora

Xavier Frias Conde

Xavier Frias Conde

(Galiza)

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