Fragmentos de <em>Poemas Apócrifos de Paul Valéry, traduzidos por Márcio-André</em> (I)

Fragmentos de Poemas Apócrifos de Paul Valéry, traduzidos por Márcio-André (I)

0 comentários 🕔16:30, 26.Nov 2014

Os Poemas Apócrifos de Paul Valéry, traduzidos por Márcio-André foram publicados neste 2014 pela editora brasileira Confraria do Vento. Desde a Palavra Comum agradecemos imenso ao Márcio-André partilhar estes poemas da obra. Aqui há mais informação deste livro, e lembramos ao público galego e europeu que tem exemplares disponíveis da mesma na Livraria Ciranda, em Santiago de Compostela, o único espaço onde se pode adquirir fora do Brasil.

“Muitos já se aventuraram com a poesia de Paul Valéry, uma das maiores referências literárias do séc. XX, mas poucos ouviram falar das dez obras fantasmas supostamente escritas e rechaçadas por ele. Reunidos pela primeira vez em livro, os poemas apócrifos chegam com exclusividade ao leitor pelas mãos do poeta Márcio-André. Nesta estranha coletânea, tão improvável na bibliografia do escritor, a ponto de autor e tradutor se confundirem, o leitor se deparará com textos híbridos, contraditórios, atuais e provocadores, para conhecer um Valéry imprevisto, que tenta deliberadamente testar os limites entre a ficção e a realidade.”

da série “Campos semânticos”

obrigado senhor

por estar do nosso lado

por aniquilar nossos inimigos

por disseminar o ódio e a devastação entre os que merecem

por limpar a terra com o genocídio necessário dos que nos odeiam

por lustrar o chão da sala com a cera dos miolos dos maus pensamentos

por amansar toda uma raça e fazer a raça amansada amansar outras raças

por privar do sono quem nos tira o sono

por assar com gilete o pão de quem nos rouba a comida

por nos ofertar a brutalidade como entretenimento

por não matar tão rapidamente

por vivisseccionar ao som de declarações de amor

por tornar o homicídio um ato criativo

por nos dar prazer ao infligir a dor

por não molestar somente o corpo mas também o espírito

por buscar o espírito dentro da cabeça e apagá-lo com amoníaco

por trincar os ossos até restar um pó fino que possamos cheirar

por arrancar vísceras com os dentes

por arrancar dentes com um martelo para nos proteger

por liquidificar a mão de futuros assassinos quando ainda são inocentes

por injetar cimento na artéria de quem respira o ar que é nosso

por violar as mães e as esposas dos violadores

por amputar o tampo facial dos feios e dos sujos

por transplantar para bons homens os órgãos de criminosos ainda vivos

por gotejar ácido nítrico nos olhos dos que nos olham torto

por decepar o globo ocular dos que não nos olham

por calcificar a língua dos que nos amaldiçoam

por dar a chance de nos masturbar sobre o cadáver do adversário

por criar máquinas que exterminam humanamente

por levar a miséria a quem não nos cai bem

por levar a bactéria a quem nos inveja

por criar a vingança

por nos ensinar a generosidade interessada como alternativa à indiferença

por humilhar quem não nos entende

por dar utilidade aos corpos processados e fermentados dos inúteis

por estuprar a alma daqueles cujos corpos são também inúteis

por não nos deixar saber quando assassinam por nós

por amputar os braços de quem não queremos abraçar

por gestar fetos disformes na barriga das mulheres que não amamos

por inserir agulhas em brasa pela uretra até o escroto de quem cobiça nossas mulheres

por transladar países com sofrimento

por armar o vilão para que possamos eliminá-lo sem culpa

por nos dar motivos para odiar

por fazer da política a arte da arrogância

por purificar nosso coração com o distanciamento conveniente

por não sermos a bola da vez

***

da série “Toda matéria é leve quando dita levemente”

amar em galego não é como amar

em francês ou espanhol

amar em inglês tem o tom da carne das frutas

incandescendo na têmpora

a flor inata ante as línguas

amar em finlandês ou turco

tem seus inconvenientes:

amar em outro idioma pressupõe reinventar

a semântica de amar

repensar toda forma de dizer

e emancipar do afeto as palavras

ao nos antever pelo dizer de quem se ama:

as mulheres que um dia serão amadas

nos países mais afastados foram

desenhadas na rua da primeira infância

mas a cada amor e a cada língua

o destino alternando e se movendo

para outros destinos:

amar em galego é domesticar o mundo

sem sair da esquina

reconhecer na estranheza da fala

sta fruta-flor furta-cor

do próprio português

na boca daquela quando falo:

decifrar signos até sobrar o ar dentro deles

ali na vértebra de todas as línguas

bem dentro de onde o vento abana

o coração dos deuses

***

poderia ter nascido em cada cidade do mundo

com uma roupa diferente

em uma casa diferente

e poderia ter tido

os mesmos amigos com outros nomes

e falar tudo outra vez

em diferentes línguas

para chegar a este mesmo instante

vindo de distintas trajetórias:

há tantos

infinitos dentro do infinito

e tantos nomes para a infinita possibilidade

de ser quem se é

que o infinito não se reduz à semântica de infinito:

num café de cada cidade

o mesmo grupo de gente

repetindo-se em outras caras

cumprindo os mesmos gestos

diante das mesmas piadas:

por mais distantes ou alheios

os lugares permanecem lá

à espera

do jeito que sempre foram

na nervura luminosa da noite

suportando em si a mecânica de se vivê-los

***

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