Fragmentos de <em>Poemas Apócrifos de Paul Valéry, traduzidos por Márcio-André</em> (II)

Fragmentos de Poemas Apócrifos de Paul Valéry, traduzidos por Márcio-André (II)

0 comentários 🕔13:32, 03.Dez 2014

Os Poemas Apócrifos de Paul Valéry, traduzidos por Márcio-André foram publicados neste 2014 pela editora brasileira Confraria do Vento. Desde a Palavra Comum agradecemos imenso ao Márcio-André partilhar estes poemas da obra. Aqui há mais informação deste livro, e lembramos ao público galego e europeu que tem exemplares disponíveis da mesma na Livraria Ciranda, em Santiago de Compostela, o único espaço onde se pode adquirir fora do Brasil.

“Muitos já se aventuraram com a poesia de Paul Valéry, uma das maiores referências literárias do séc. XX, mas poucos ouviram falar das dez obras fantasmas supostamente escritas e rechaçadas por ele. Reunidos pela primeira vez em livro, os poemas apócrifos chegam com exclusividade ao leitor pelas mãos do poeta Márcio-André. Nesta estranha coletânea, tão improvável na bibliografia do escritor, a ponto de autor e tradutor se confundirem, o leitor se deparará com textos híbridos, contraditórios, atuais e provocadores, para conhecer um Valéry imprevisto, que tenta deliberadamente testar os limites entre a ficção e a realidade.”

da série “Toda matéria é leve quando dita levemente”

sair de casa sem o idioma e voltar ao mundo

pelo caminho mais curto

sair da cidade e sair do nome

à espera que

da ausência de antônimos

surja uma qualquer semântica

de afetos selvagens

toda fronteira é mais verbal que física:

no perímetro da língua

todo um contorno de corpo

e os pensamentos

só existem enquanto pensados

na erosão do limite

da expectativa do som

pelo mínimo dialeto das máquinas:

serão as máquinas nossa única herança

as únicas que nos rangerão

versos de amor até o fim

com sua devoção aos mantras

tentarão compor obra maior que a vida

sem entender que a única tarefa

razoável do poeta

é noticiar o fim do mundo

***

mudar de país já não faz diferença

os feriados são os mesmos

com datas distintas

os sotaques são os mesmos

para outros ouvidos

a burocracia é a mesma

com outros nomes para os papéis:

se pudéssemos morrer somente uma parte

– essa que é infeliz –

seria sim possível partir de um lugar a outro

como se fosse mera questão

de deslocamento espacial

mas é preciso levar todos os deuses dentro de si

ante o trânsito das horas:

o que demarca as etapas da vida

são as mudanças do número de telefone

e delas herdamos apenas

as infinitas possibilidades

de uma chamada por engano:

nenhum lugar cabe totalmente em nós

com suas pedras e suas pontes

com seu ar cheio de cor

a volta das borboletas

ao viver na convergência das línguas

conhecemos a dinâmica entre os acentos:

mudar de país já não faz diferença

as vidas ali são as mesmas

em outras pessoas

***

um homem fala

diariamente ao cão

o cão compreende até

onde o afeto permite –

o homem se humaniza com o que há

de humano no não compreender dos cães

como se preexistisse animal

no fim do animal

ou fosse canto de outro canto

no antidizer do latido

ainda perto de onde estamos

quando somos o outro

no oráculo dos afetos:

as cidades não estão somente no espaço

estão no tempo e nós

no tempo delas

aprendendo sobre o mal:

no limite do pátio

o cão mija num limoeiro dourado

fazendo celeste o seu entender

de onde começa o cão

de onde acaba o homem

***

Performance de Poesia Sonora de Márcio-André.

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