<em>Poemas de comboio</em>, por João Sousa

Poemas de comboio, por João Sousa

0 comentários 🕔14:30, 10.Dez 2014

Poema de comboio – diário ou registo, poesia ou apontamento

O ‘poema de comboio’ compreende um projecto que tem acompanhado sazonalmente, quase diariamente, a ideia da viagem, do movimento, do quotidiano. Trata-se de uma reacção às constantes mudanças, ao nomadismo inventado pelo autocarro, pelo comboio suburbano, pelo metro, pelo trabalho precário e pelos breves momentos de sonho no contínuo temporal da vida em movimento.

Transparecem dúvidas, tensões entre o ter vivido no Sul, ter o coração no Norte e ter de habitar o Centro; automatismos da escrita, livre de preconceitos ou regras; influências literárias; observações de passageiros, das gentes nas paragens, das vidas que se cruzam e não se tocam.

Da mesma forma que se fomenta a criação livre e semiautomática, também a sua difusão é confusa e plural. Os poemas de comboio estão espalhados pelo blogue colectivo AEQUUM, pela pouco frequente revista digital D’AEQUUM, pelo Diário Liberdade, portal informativo da Galiza e países lusófonos, pelo jornal de expressão anarquista A Batalha, pela revista da Associação Modos de Ser Letra a letra. Serviu de base também para o trabalho conceptual da banda de rock progressivo com que toco, A VOLTA dos a-nimal.

Pareceu-me interessante introduzir-me nas malhas da Palavra Comum com a criação poética que mais me tem acompanhado (e que é, de certa forma, a menos mascarada pelos artifícios da palavra): uma mistura de impulsos externos em confronto com crenças internas; uma batalha entre a norma e o desejo plural da liberdade; um registo da inconformidade no solo pleno e tranquilo de um rebanho; uma luta de ismos e sismos emotivos.

Queria frisar também a presença do ‘melro’, pássaro que encontrei às 6 da manhã a cantar – enquanto caminhava depressa para a minha primeira aula de condução. Duas coisas me levaram a aceitar este melro como raiz de alguns dos poemas (com símbolo presente na poesia do transporte e do quotidiano) que agora partilho: nunca tinha ouvido um melro a cantar e, em particular, um melro que parecia estar velho e nos seus últimos dias. A progressiva luz do amanhecer dava a ilusão de que o seu bico era branco, luminoso, ao contrário do habitual laranja.

Um especial abraço aos companheiros Alberto Pombo (DL) e Ramiro Torres (Palavra Comum).

poema de comboio #38

sentado no vazio
lago vazio corrente
torrentes do vazio ausentes
sentadas na encosta longe
longitudinal vazio existente
ou talvez não num lago
não creio
marcámos caminhos
pedras de lago no vazio
da estrada sentados
em lagos em que não creio.

poema de comboio #39

e eu sei lá se é verdade a actualidade do estado da língua
que se me aparece actualizada na forma como a escrevem
tudo o resto me parece tão vazio como um lago de pedras

eu acredito mesmo que ainda estou no comboio quando durmo
acredito mesmo que o melro de bico branco da madrugada
me dizia que havia que escrever de novo, mesmo que

não acredite em novas ortográficas maneiras de vender livros
acredito antes nos crioulos, e o melro anuncia-me a primeira
aula de condução no vazio do lago empedernido e eu não sei

talvez nem queria saber que um novo eu já cá está
e foi o de bico esbranquiçado que mo cantou e eu nunca tinha ouvido
nada como aquele despertar entre o lusco e o fusco das seis da manhã.

poema de comboio #41

problema

existo e sei que existo porque me dói…
e porque o peso de ser…
é como a mesma existência. outra maneira… problema

o dizer sem ser
eu… custa tanto ter-me num bolso, para ver que
o meu sorriso dói-me na cabeça…
sempre esta imagem e parece que soa sempre rápido demais.

não houve problema

poema de comboio #43

se existir uma plasticidade forçada (?)
no poema de luz feito pedra
talvez o melro saiba que é sua culpa
e o poema tenha quatro dedos apenas
ou nem dois dedos de testa ou de café

eu não devia pontuar esse parêntesis
muito menos depois de ver o poema balançando
entre a lígnea esquadria que aguenta a árvore
crescendo, e o melro feito poema extasiado

se existe uma força que me enforca
um enfoque carinhoso verde escuro
(?) entre parêntesis nunca rectos mas em poema
linear descontínuo ou de um outro mineral qualquer
rochoso sem corpo de asas prenhes ou sequer testa
(mas que susto)

eu não devia ver o poema baloiçar
o poema
entre a língua acudida e pontuada
o poema
um melro e seu enfoque auroral
madrugador o poema crescendo
o poema
eu não forço o poema verde escuro
eu não sou o número de um comboio de poemas
de um poema de comboio qual número
qual número? donde veio? o poema?

não queria acabar em

poema de comboio #44

o peso, o peso… sempre o peso
uma pedra encabeçada
uma liderança pós-nocturna
que pesa da pedra… sempre o peso

Sobre o autor / a autora

João Sousa

João Sousa

(Portugal) Redactor, produtor, director, editor e músico na empresa A Besta, Músico na empresa a-nimal e Músico na empresa O Poema (A)Corda

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