Branco e vermelho: poesia dos trovadores provençais (XIX) ~ Cerverí de Girona

0 comentários 🕔10:59, 17.Dez 2014

CERVERÍ DE GIRONA (…1259-1285…): Si nulh temps fui pessius ne cossirôs (tradução de Graça Videira Lopes)
 

Si nulh temps fui pessius ne cossirôs
sirven Amors, ni.n perdei mon cabdal,
sufren pena, tormen, trebalh e mal,
ne.m tengren dan maritz ne fals gelôs,
er m’adutz jói, qu’ésser no.m pot vedatz,
us gentils cors, adreitz, gras e delgatz
on es Jovens e franc’humilitatz.
 
E s’ausés dir qual domna.m te joiôs,
ne com m’a fi, humil, franc e leial,
e.m din soven, ab mant sospir coral,
baisan: «Amics, quan eu no sô ab vos
muír desiran, e pus pres mi·us lonhatz,
del revenir vos clam mercê viatz»,
estortz fora, e·mos clars di vertatz.
 
Eras dirán lausengér envejôs
qu’eu dic fenha, a lei de desleial;
mas pus midons m’o perdô, no m’en chal,
car ma raizô tenrán tuit l’amorôs;
qu’eu dic que quan vau lens e apesatz,
pesan vei lei e sas plazens beutatz,
que·m ditz plazers ab ditz enamoratz.
 
E tenria lo rei per enuiôs
si·m sonava quan faç tan douç jornal,
ne·m tocava, qu’eu no n’ai plazer d’al;
ans fora mortz si.1 pesamen no fos.
E dic a cels qui.m dizon: «Que.us pessatz, .
En Cerveri? Ajâm qualque solatz!»,
«Lachatz m’estar, sènher, que coblas fatz!.»
 
D’aitan me tenc per ben aventurôs,
car çó qui notz als altres a mi val;
e no vis mais nulh trobador aital,
ne qu’en durmen fezés vers e chançôs;
qu’en durmen fo aicest chans començatz,
per que non es ab motz prims ne cerratz
ne·i er per me sôs ne motz esmendatz.
 
Pus en durmen e pesan gen pessatz,
Na Sobrepretz, de me velan, si·us platz,
prec que pessétz, ó que tost m’auciatz.
 
De la Dona-dels-Cardos sui paiatz,
e del Enfan, quan pres lui m’assolatz.
Se alguma vez estive pensativo e absorto
servindo Amor, e perdi o meu cabedal,
sofrendo pena, tormento, trabalho e mal,
receando maridos ou ciumentos falsos,
ora me traz alegria, que não me pode ser vedada,
um gentil corpo, perfeito, são e delgado,
onde residem Juventude e franca humildade.
 
E se ousasse dizer qual dona me tem radioso,
ou como me faz humilde, franco e leal,
e me diz muitas vezes, com suspiros sinceros,
beijando-me: “Amigo, quando não estou convosco,
morro desejando, e quando vos afastais de mim,
vos peço, por mercê, que depressa volteis”,
sairia, das minhas claras palavras, a verdade.
 
Agora dirão os maldizentes invejosos
que digo mentiras, como qualquer desleal;
mas, pois minha senhora mo perdoa, não me importa,
pois todos os amantes minha razão sustentarão:
que eu digo que, quando ando devagar e pesadamente,
no meu pensamento a vejo, na sua graciosa beleza,
dizendo-me coisas deleitosas com palavras enamoradas.
 
E teria o próprio rei por importuno,
se me chamasse quando faço tão doce jornada,
ou me tocasse, pois não tenho prazer em mais nada,
antes estaria já morto sem pensamentos tais.
E digo àqueles que me dizem : “Em que pensais,
D. Cerveri? Tenhamos algum recreio!”
“Deixai-me estar, senhor, que faço versos”.
 
E por isso me tenho por bem aventurado,
pois o que desagrada aos outros a mim me vale.
E nunca haveis visto um trovador tal,
que, dormindo, fizesse versos e canções;
que dormindo foi este canto começado,
pelo que não tem palavras subtis ou fechadas,
nem por mim serão música ou palavras emendadas.
 
Pois dormindo e pensando gentilmente pensais,
Dona Sobrevalor, em mim, acordada, por mercê,
vos rogo que penseis, ou que logo me mateis.
 
Da Senhora-dos-Cardos39 estou satisfeito,
e do Infante, quando junto dele me recreio.

 

Notas

39 Trata-se da viscondessa de Cardona, Sibila de Ampúrias.

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