Entrevista a Eli Ríos

Entrevista a Eli Ríos

0 comentários 🕔16:00, 14.Jan 2015

- Palavra Comum: Que supõe para ti a literatura?

- Eli Ríos: A literatura, para mim, é uma forma de apreender o mundo. A religiom, a história, a música, etc, sempre acompanha um conto (ou um poema ou uma cena teatral) porque a linguagem é um meio transmissor de ideias e culturas. Desde este ponto, as pessoas que criamos temos uma enorme responsabilidade e devemos ser conscientes de que a linguagem nom é inofensiva. Portanto, a literatura é uma forma reflexiva de compreender os processos vitais que acompanham esta aventura que é a vida.

- Palavra Comum: Como entendes o processo de criação artística?

- Eli Ríos: Os processos de criaçom som realmente interessantes. Há tantos como pessoas no planeta. O que me fascina é quando se dá a conjugaçom cósmica que permite a interaçom de vários processos de criaçom. Nestes momentos, estou num projeto com mais duas pessoas no que estou aprendendo a passos de gigante. Para mim, sentar-me a escrever é já o ponto final de muitos meses pensando dentro dos meus miolos, mas neste relacionamento criativo o meu modo de escrita bebe dos outros dois, medra e evolui fora de mim. É algo vivo por si mesmo. O melhor desta experiência é sentir que a criaçom nom é imutável: é incitável!

- Palavra Comum: Qual consideras que é -ou deveria ser- a relação entre a literatura e outras artes (fotografia, música, artes plásticas, etc.)? Como é a tua experiência nestes âmbitos?

- Eli Ríos: Mas… existe a literatura sem outras artes? Se fazes uma descriçom duma paisagem a pessoa que está lendo construirá uma imagem mental duma pintura, duma fotografia ou duma cena fílmica. A linguagem tem significado e significante e com isso é com o que “brincamos” quem criamos. Desde este ponto de partida, as possibilidades literárias dum livro som inúmeras.

A minha experiência, neste âmbito, é um prazer. Em Maria (O Figurante edicións) a imagem há momentos que completa o que o texto deixa no ar, em Anamnese há um poema que nunca consegui recitar depois de que Ugia Pedreira o musicasse (agora só o tenho na cabeça com a sua voz, nom como foi criado), em Diario de fotogramas começo o poemario com umha cita de Charles Chaplin que marca o ritmo dos versos e a estrutura e, no próximo, que sairá em maio, Doe tanto a tua ausencia, mestura-se a poesia com o teatro e a música. É uma decisom mui pessoal mas, no meu caso, nom som quem de ilhar disciplinas. Tampouco o faço, por exemplo, com o caldo. Nom separo as verças do compango e como sabe!

- Palavra Comum:  Quais são os teus referentes criativos (desde qualquer ponto de vista)?

- Eli Ríos: Remito-me a este vídeo.

- Palavra Comum: Que poetas e formas criativas, em geral, reivindicas por não serem suficientemente (re)conhecid@s?

- Eli Ríos: A das mulheres. Assim, em geral. Tanto as da história da literatura quanto as atuais porque quando lemos um texto, ou comentário, duma obra escrita por mulheres sempre se faz desde o ponto de vista patriarcal e do sistema literário definido desde o falogocentrismo. Todo o que nos chega vem ceifado pelo que Derrida denominava “conhecimento” aporético e apodítico. Entom, se as bases com as que “avaliamos” um texto parte dessas premissas, que procuram manter o status hegemónico, sem fazer questom de se têm algum grao de certeza ou estám transmitindo “verdades” duma única visom… como podemos esperar que a obra escrita por uma mulher tenha o seu lugar na crítica, no sistema literário, etc, se já de entrada boicota as bases pré-estabelecidas?

E a literatura galega adoece deste mal. Porra! A quem tentamos enganar com esses atos, jantares, eventos,…, nos que só aparecem homens nas fotografias? Como é que quando se faz um estudo sobre os premios literários temos como resultado que uma ínfima parte têm nome de mulher? Por que a maioria das críticas de livros se fazem sobre textos de autoria masculina? No século XXI, alguém acredita que só há 3 escritoras em toda a literatura galega às que se lhe dedique o Dia das Letras? Simplesmente nom interessa. As posturas anquilosadas som cômodas para quem as exerce… implicam ausência de movimento, de pensamento, de evoluçom,… Imagina que a mim toda a vida me dizem que Rosalía é o máximo exponente do tradicional, da sensibilidade, da maternidade, do amor pela lingua,…, e zas! Se me paro a ler os seus versos resulta que encontro um poema que fala da luta tradicional galega no que as mulheres e os homes têm contato físico e… inacreditável! nas mesmas condiçons! e “Ela venceu, venceu ela!” (Follas Novas) Pois tenho duas alternativas: a primeira dedico o meu tempo a investigar e estabelecer relaçons com outras disciplinas (um exemplo pode ser o estudo que fez há pouco Mercedes Peón com o baile galego tradicional) ou, o que é mais acomodatício, ignoro este tema e nom lhe dou visibilidade. Com isto continuo mantendo os valores aceites pela sociedade do que se supom que tem de “ser” uma mulher (e que por cima tem ideias de ser escritora) e nom faço esforço nengum.

E, neste ponto, é onde cada quem tem de decidir: convertemos a literatura galega num fermoso objeto de museu ou deixamos de ser pedras e solucionamos os “erros” do nosso sistema literário?

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com a sociedade, etc.) estimas interessantes para a criação literária hoje -e para a cultura galega, em particular-?

- Eli Ríos: O caminho da liberdade criativa, mas, para isso, é preciso que muitos “agentes” mudem. Há uma grande parte da nossa sociedade que nom pode nem apresentar textos a certames nem editoriais… ergo, som invisíveis. Enquanto continuemos defendendo os nossos marcos sem fazer um processo de reflexom nom se pode evoluir. Por que posso fazer público um texto com trechos em latim ou esperanto, mas se leva um -nh- já nem se valora o seu peso artístico?

Outro caminho que espero com ânsia é uma escrita aguilhoante, essa que dói, a que faz pensar, sobretudo, na literatura infantil e juvenil. A minha filha para ler a palavra “clítore” ou “cona” tem de procurar noutros sistemas literarios. Acredita! Uma adolescente que nom encontra no léxico literario galego as palavras que logo vem nas aulas ou entre as colegas. Que lhe digo? Que é o seu dever conhecer todos os nomes de pássaros, árvores e mitologia de todas as cores mas que o seu corpo é proibido? Logo, vêm as lamentaçons de que a gente nova nom lê… eu tampouco o faria! Para que? Se nom me aporta nada no meu presente! Quando quero saber coisas do aborto, da eutanásia, do período, das violaçons, do sexo, etc, todo é adoçado e irreal.

A sociedade nom é a mesma do que há nem dez, nem cinco, nem quatro anos atrás… E a escrita é preciso que acompanhe se nom queremos ficar atrás.

- Palavra Comum: Que perspectivas tens sobre a língua galega (e também sobre a sua relação com a Lusofonia)?

- Eli Ríos: As perspectivas todas! Ainda estou nessa idade em que se acredita nas utopias.

Os dados sobre o uso da lingua galega som terríveis mas, como sempre, temos a possibilidade de desistir ou ser criativos e virar as contas. Isso só se faz desde o positivismo, com o trabalho contínuo e com o próprio exemplo. E isso mesmo acontece com a lusofonia. Uma vez convidaram-me ao I.E.S Lama da Quendas e o grupo de português fez uma performance realmente incrível dum texto do Ondjaki. Foi emocionante! E por que? Porque tem uma professora que pom o 200%, porque tem os materiais, porque a esta turma a poesia do Ondjaki transmite-lhes e consegue chegar-lhes, porque … há tantos fatores que podemos resumir em um só: a vontade de fazer as coisas.

- Palavra Comum: Que projetos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Eli Ríos: O próximo projeto é mercar um par de caixas de tília porque estou aterrando da vertigem de que me dessem o primeiro prémio do Certame Nacional Galego de Narracións Breves Premio Modesto R. Figueiredo. Até agora era um texto “privado” mas quando rompe a burbulha e es consciente de que Remexido de patacas foi lido por José Ramón Fandiño, David Otero, Antonio Reigosa, Isidro Novo, Anxos Sumai e Armando Requeixo… uf! Que as minhas pataquinhas partilham lugar nessa acta com Antonio Piñeiro e César Carracedo!

Depois, em maio, sai Doe tanto a túa ausencia e já tenho muita vontade de vê-lo terminado porque leva uma fotografia incrível de Carlos Lorenzo Pérez, um prólogo formoso de Verónica Martínez Delgado, alguma surpresinha que nom podo contar e um trabalho feito ao mimo e detalhe de Santi, o técnico de Cultura do Concelho da Serra de Outes. Acho que o objeto livro vai ser mesmo muito interessante.

E por desenvolver…? Sempre há coisinhas na cabeça mas se as conto já se perde a magia… e que seria a literatura sem intriga?

- Palavra Comum: Que achas de Palavra Comum? Que gostarias de ver também aqui?

- Eli Ríos: De Palavra Comum gosto mesmo muito do seu carácter interdisciplinar e de que seja de fácil acesso, quer dizer, se viajo ao Brasil posso lê-la o mesmo que se estou na casa. A possibilidade de ter os contidos é um luxo!

Gostaria de ver mais texto de mulheres comentado por mulheres. Nem só da Galiza mas sim da Angola, do Timor, de Moçambique,… A visibilidade das vozes que têm menos oportunidades de aparecer em lugares ocupados pela crítica heteronormativa ocidental.

NOTA: a foto provém da Fototeca da autora na AELG.

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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