Entrevista a Samuel Pimenta

Entrevista a Samuel Pimenta

0 comentários 🕔16:00, 28.Jan 2015

- Palavra Comum: Que é para ti a poesia/literatura?

- Samuel Pimenta: A literatura, e em particular a poesia, é um espaço de liberdade de excelência, de amor também, para comigo e para com a realidade, pois através dela conecto-me com o interior para compreender o exterior, olho através de dentro, cumprindo com o meu propósito de reconectar, coser palavras, criar sintonias e dar vida ao mundo.

- Palavra Comum: Como entendes o processo de criação artística?

- Samuel Pimenta: O processo de criação artística é próximo ao acto de fazer amor, pois é um encontro, um processo de puro erotismo, uma comunhão com um outro (ou outros) no artista, que conduz à catarse, à criação propriamente dita, à vida. Tal como o sexo, o processo de criação artística é uma celebração, uma confirmação e uma necessidade da vida se manifestar.

- Palavra Comum: Qual consideras que é -ou deveria ser- a relação entre a literatura e outras artes (plásticas, música, audiovisual, fotografia, etc.)? Como é a tua experiência nestes âmbitos?

- Samuel Pimenta: Penso que a relação entre a literatura e as outras artes só pode ser a de diálogo constante e é assim que me posiciono. Tenho percebido que, algumas vezes, algumas áreas estão muito fechadas ao que é exterior a elas, mas vejo cada vez mais projectos de fusão que materializam esse diálogo que defendo e que é tão enriquecedor para a construção da arte como um todo.

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes criativos (desde qualquer ponto de vista)?

- Samuel Pimenta: Tenho como referentes criativos, além de todos os livros que leio, a música que escuto, os teatros e filmes que vejo, os quadros, as esculturas, as conversas, os debates, a natureza… No fundo, todas as experiências, toda a vida que experiencio.

- Palavra Comum: Que poetas e formas criativas, em geral, reivindicas por não serem suficientemente conhecidos (ainda)?

- Samuel Pimenta: Os poetas actuais dos outros países falantes de Português. É impressionante o silêncio a que são votados, por vezes dentro dos seus próprios países. Felizmente existe a internet para nos aproximar.

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com a sociedade, etc.) estimas interessantes para a criação literária hoje?

- Samuel Pimenta: O caminho que leve as pessoas ao encontro da arte e da literatura, mas que também leve a literatura e a arte ao encontro das pessoas. Tudo o que cristaliza, não evolui, e precisamos de uma cultura povoada e dinâmica, não de uma cultura elitista e distanciada das pessoas.

- Palavra Comum: Que conheces sobre a cultura e língua galegas e sua vinculação com a Lusofonia? Que achas das relações existentes e para onde consideras que se deveriam/poderiam dirigir e mesmo, talvez, confluir de maneira enriquecedora?

- Samuel Pimenta: A Galiza, para mim, é uma outra parte de Portugal, uma outra identidade da nossa cultura da qual fomos forçados a distanciar-nos pela imposição de uma fronteira. Temos uma série de símbolos culturais em comum, como o mar, a resistência à opressão, a vivência na diáspora, a espera de um devir, que na Galiza é uma Penélope e um Ulisses num poema, em Portugal é um D. Sebastião, entre tantas outras referências. Penso que são estas proximidades que têm mantido os nossos povos em diálogo constante, não através das instituições, mas das pessoas, dos indivíduos, e é por aí que devemos seguir, nutrindo os nossos laços, já que as instituições nos representam cada vez menos. Através dessas conexões com Portugal, mas também com todos os outros países que se expressam em Português, a Galiza retorna, por fim, ao seu núcleo inicial linguístico. Nada poderia ser mais justo para vós.

- Palavra Comum: Que projetos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Samuel Pimenta: De momento, estou a organizar com a editora Livros de Ontem uma antologia de poesia que se chama Emergente – Novos Poetas Lusófonos, que se destina a todos os jovens poetas que se expressem em português, em que a Galiza está incluída. O prazo para as participações já terminou, mas no final do ano lançaremos uma nova convocatória, o objectivo é organizarmos esta iniciativa anualmente. Todos os anos teremos um escritor já com uma carreira sólida para nos ajudar na selecção. Este ano é a escritora angolana Ana Paula Tavares. Além deste projecto, tenho alguns livros que sairão em breve.

- Palavra Comum: Que achas de Palavra Comum? Que gostarias de ver também aqui?

- Samuel Pimenta: Gosto especialmente da vossa abordagem multidisciplinar e da conexão que fazem com outros falantes de Português. De futuro, espero encontrar aqui mais artigos provenientes dos outros países falantes de Português.

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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