<em>A história nas costuras</em>

A história nas costuras

1 comentário 🕔11:55, 11.Fev 2015

Era no tempo em que na Europa vivíamos em bairros operários.

Uma mulher, a minha mãe, filha de um homem que morreu a construir uma casa na baixa da cidade,

ganha a vida bordando jogos de cama para meninas casadeiras.

Vejo-a agora, esfregando as mãos com um limão aberto.

É como um rito iniciático,

tirar das mãos o cheiro do peixe antes de tocar a imensa brancura dos lenços de Júvia,

a fábrica em que as mulheres da comarca se juntavam para tecer em aquele século que chamaram das luzes,

quando a cidade cresceu para além das muralhas.

A máquina com que a minha mãe borda foi comprada com dinheiro que a madrinha ganhou na América.

Depois de a guerra acabar, Antónia atravessou o mar para tirar a fome e agrandar a casa.

Nunca voltou.

A menina que lê o manual da escola ao pé da máquina sou eu.

É uma história sobre uma rainha de Espanha que levou aos índios a fé verdadeira.

Lá fora florescem as camélias.

A camélia cura a melancolia dos amores desgraçados.

Veio do Japão nas naus dos navegantes portugueses.

É a Galiza. É fevereiro.

No porto os homens contam histórias da batalha dos corpos contra o mar da Terra Nova. E contra o medo.

A minha mãe não quis que ganhasse a vida com ofício de mãos.

Estudei na universidade. Agora leciono línguas num país estrangeiro, à beira do mesmo Atlântico.

Ensino as minhas alunas a conjugarem verbos em passado.

(As leis da gramática são inflexíveis).

Hoje fazem um exame de história, dessa que conta que a ordem do mundo veio de Roma.

Na rádio falam da estratégia do governo para o mar.

Na Europa já não tecem as mulheres nas fábricas

e ninguém sabe quem domina hoje o império.

Mas algo chama por nós desde as profundezas no oceano.

Eu continuo aqui, com a pura necessidade de me vestir para não sentir frio

e este hábito da alma que de nada me separa,

memória do ofício herdado de coser retalhos para fazer a história.

Sei que não existem os outros,

ainda que não consiga demonstrá-lo,

apenas águas e fios que nos atravessam,

esses muitos nomes da vida

e o eterno presente do que floresce.

Ou é onda.

Sobre o autor / a autora

Maria Dovigo

Maria Dovigo

(Galiza-Portugal) Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.

1 comentário

  1. 🕔 2:01, 27.Mar 2015

    Sãozita

    Simplesmente, BELO!
    Parabéns a Maria Dovigo pela escrita tão fresca e tão atenta ao mundo!

    Responder comentário

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