Entrevista a Antom Laia

Entrevista a Antom Laia

0 comentários 🕔14:20, 18.Mar 2015

- Palavra Comum: Que supõe para ti a literatura?

- Antom Laia: A verdade é que eu nom som um teórico da literatura, e gosto pouco de opinar em clixés -sempre discutíveis, sempre inexatos e sempre fechadores-quando eu entendo as artes como algo aberto, tremendamente inescrutável e profundamente ambíguo…

De cativo -e sempre volvo à nenez- esse mundo sempre de revolta -a literatura foi algo que tivem que estudar quando era neno. Nesse estudo -e nom sei porque -achei chaves de tesouros, mundos lonjanos, palavras constantemente repetidas (eu tenho um amor imenso polas palavras -sobretudo por esses verbos perdidos (encirrar, acanhar, esgaçar, asalar,…), e logo fum, por vezes orientado, mas moitas vezes como leitor impulsivo e compulsivo buscando, disgregando, disgredindo, até achar neste mundo parte do meu mundo….

- Palavra Comum: Como entendes o processo de criação artística?

- Antom Laia: Como entendo?, pois sim que me metedes num apuro, mas diría que é um ato sempre livre, tremendamente individual no seu nascemento e sempre buscador de leitores e transgressor de mundos, algo em origem que nasce nos teus dedos mas que tem um destinátario coleitivo -seja poesía social- ou qualquer jeito de comunicaçom. Gosto também do que foge do politicamente correto -neste caso do literalmente correto ou de moda, para que cada quem se submerja nos oceanos que nos permite a escrita. Nisto som abusivamente libertário, profundamente comunal, tremendamente respetuoso com moitos jeitos de escrever… só ao longe rejeito a obra perfeita de literatura que foi desenhada para leitores cultos, críticos sanhudos ou amigos de camaretas…, tamém rejeito a literatura pola literatura quando esta se converte em sagrado culto…, e olho -que sei que escrever é também um oficio diário, umha disciplina férrea-dura… Ainda assim fico mais a gosto com aquela que sae em borbulhas efervescentes e vivazes, que essa outra de citas eloquentes…

- Palavra Comum: Qual consideras que é -ou deveria ser- a relação entre literatura e outras artes (música, fotografia, artes plásticas, etc.)? Como é a tua experiência nestes âmbitos?…

- Antom Laia: Como na vida mesma -cordial, enriquecedora e cooperativa— dito assim soa a pedantéria- mas se observamos com tino- isto é diálogo-expressóm e vida —Rosalía -por pór algum caso -ve-se complementada em Najla Shami— e tantos outros e outras cantautores—“O Segredo da Pedra Figueira”, sobre todo naquela ediçom de Tintimán -sendo umha obra descomunal ve-se enriquecida solenemente coas ilustraçons de María Fe Quessada -se comparamos a ediçóm de Tintimán coas seguintes de Xerais, há diferência…

Na poesía que é do que mais gosto—sempre que o texto nom se dilúa—qualquer achega pode resultar interessante…

Que sería dos velhos livros de Galaxia sem os desenhos de Luís Seoane e Isaac Díaz Pardo? –boa literatura—mas sem essas joias de portadas…

Eu só tenho um livro publicado… “No balouçar do vento”, este livro nâo tería sentido sem a aportaçom, o cuidado e os debuxos de Xosé Tomás. “Nas margens do tempo”, pronta a saír,
tampouco tería sentido sem a obra de Tomás Roures…

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes criativos? Quais deles reinvindicas por nâo ser suficientemente (re)conhecid@s?

- Antom Laia: Os meus, eu que som ateu, meu Deus, que vou dizer?, possivelmente os livros de texto de aquela editorial Aguilar onde lia a Gabriela Mistral, Rubén Darío…, logo por chiripa decatei que existía umha literatura em galego, lim a Rosalía e Curros sendo cativinho. Eu só-case ás agachadas. Quando empecei o Magisterio já era um leitor apaixoado da literatura galega, pero antes lera já “LONGA NOITE DE PEDRA” moitas vezes, tantas como días lhe levou a meu pai fazer umha casa de tres pisos. Lim afervoadamente todo e acolhim gostosamente “O SILABARIO DA TURBINA” e “COM PÓLVORA E MAGNOLIAS”, logo desisti, cansei, houvo um tempo que deixei de lêr, mas nisso chegárom essas mulheres que lavárom as letras com pedramol, ira e palavras, volvim lêr:Pilar Palharés, Olga Novo, Medos Romero, Lupe Gómez, Marta Dacosta, Isolda….

Estamos em boas mâos —só falta o elo principal— que os leitores busquem, remexam, leiam…

Olvidava outro livro transcendental para mim… “Poemas de amor sen morte”, e para ser justos, tantos e tantos…”Estacións ao mar”,”Tempo de ría”… E mesmo os tapados, esse home inconmensurável que é Emilio Arauxo—, e por suposto, a aposta de A. Pexegueiro, passe o tempo, “Seraogna” e “Mar e naufraxio” estarám sempre na minha mesinha de noite…

De Europa pouco —(nisso som um indocumentado,um analfabeto)— de Hespanha o que vinha nos livros de texto “Inhiesto surtidor de sol y sombra”…, e pouco a pouco, buscando, Catalunya -Marti i Pol- ou em Euskalerría —Joseba Sarrionandia—, Portugal chegava-me através de “Colóquio-Letras”…

Hoje sinto-me perto de Fernando Sylvan, e leio demoradamente ao Mia e a Ondajki, e ficam os que descubro— …e tantos no tinteiro…

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com a sociedade, etc.) estimas interessantes para a criaçâo literária hoje-e para a cultura galega, em particular?

- Antom Laia: Caminhos tantos como houver e quiçais mais ainda por inventar, como dizía o Roberto Vidal Bolanho, “nom há povo sem poetas que o cantem”, e nisso todos os caminhos podem chegar ás mesmas metas —e hoje o mundo cultural -afortunadamente- deixou de estar em mâos de poucos e som já froito de moitos/as—, e ainda estando num impaís governado por verdadeiros sátapras da cultura, esta floresce em cada esquina -também afortunadamente-.

Somos um povo de RESISTÊNCIA e nesta época de TERROR havemos de seguer vivendo —e frente aos bódrios televisivos, ás mamarrachadas múltiples, existe vida… -afortunadamente-.

Como galeg@s sempre co IDIOMA SEMPRE—escritores monolingües nesta pátria de vento e de sal…

- Palavra Comum: Que perspectivas tens sobre a língua galega (e também sobre a sua relaçâo com a Lusofonia)? Por onde encaminhar uma relaçâo mais frutifera para a literatura galega nesse(s)mundo(s)…?

- Antom Laia: O mundo é tam pequenino que pode caber nos olhos dum menino —eu nom gosto moito do termo Lusofonia— mas sei que existe umha lingua que nos une —-mas nom só pola origem da lingua— senóm polas própias palavras e mesmo polos conceitos…, quando eu leio os poemas que se me achegam de Timor Leste ou de Moçambique-estou a falar coa minha avoa Concha- que segue a fermentar no pam e a roxar no forno… isso é o que nos une —as palavras. E porque nom dizé-lo, a liberdade de criar a rás de châo. Vendo como picam as urtigas…

Esse mundo em parte é também nosso —mas NÓS para seguer sendo NÓS temos que ARREDAR-NOS de HESPANHA, culturalmente também… e de certos ISMOS— que som ilhotes corrosivos…

- Palavra Comum: Que projectos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Antom Laia: Som um trabalhador parcial, tenho mais projetos que milho. Mas se o tempo me ajuda algo tenho que rematá-los antes que o tempo me remate a mim—, umha novela-e dous poemários…

- Palavra Comum: Que achas de Palavra Comum? Que gostarias de ver também aqui?

- Antom Laia: Pois isso — Palavra Comum -a simbiose de palavra e comum dá para umha eternidade, e polo que vejo é um projeto ambicioso, necessário e útil—

Gostaría de saber que -e ainda que fosse a furtadilhas- os leitores busquem de por sim esta casa —a comum casa de moitos/as— anonimamante -como buscadores de segredos nas noites de estrelas ou violadores de céus ou transgressores de almas…

POEMAS

Nâo sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo… J. SENA.

NOM SEI MEUS FILHOS… (Nas margens do tempo. A publicar)

Nom sei ,meus filhos,que mundo será o vosso.
É possivel,porque tudo é possível,que el seja
um simples mundo ateigado de maçás e bolboretas,mesmo
cheinho de cores outoniças que tapicem os meus olhos,e
deixem entrar a luz tenue no meu quarto,para olhar essa
fotografía onde sorriem os ventos naquelas tardes de invernia-
Regresso da chuva a escorregar nos rebordos dos meus sonhos
que me batem-manselinhamente na cara-como o vento sul que lembra
as palavras primeiras que dissestes-tam inteiras na memória- que
nunca esqueço nestas horas onde a soidade se achega lenta.
Fago dos recordos estes versos em papel branco-como pai-
que caminha derreado no passar do tempo,cavalgando
continuamente dentro dos desejos-na busca da barquinha
a navegar sinuosamente-como a gota que esvara -limpa.
Quissera-meus filhos-Doa e Xoel !-porque tudo é possivel-
que no Cimo do Campo-a Folerpinha rebrinca-se como sempre,
o mesmo que rebrincam as arelas nos desejos deste mundo,
nas sopas onde amolecía o pam das avoas que nunca morrem,
nem os sabores dos péssegos da nossa Horta-aquel Jardim,
que sempre me acompanha quando vos vejo-nessa fotografia-
a olhar no sorriso do vento que permanece,ainda nos tempos.
Naquel coche amarelo que empuxava com aquel paucinho por
entre os caminhos ,naquel quebracabeças de Caperuchinha,
na Mouchinha Branca e nos contos do Cam Cadelinho—desejos…
-porque tudo é possivel neste mundo-quando as amanhâs nascem
e os recordos se ateigam de maçás e bolboretas,entre as janelas,
que se abrem como os ouriços das castanhas do nosso SOUTO…
Nom sei se este mundo que recordo é ainda o vosso-depois de
tantas horas transcorridas entre as dedas-mas tudo é possivel,
meus filhos !-pois nas silveiras ainda há ninhos-e voa a bubela
a rentes das árvores e dos jardois-como se tudo fosse um sonho-
e nada que nom seja possivel no mundo que desejo para vós—
um simples mundo ateigado de maçás e bolboretas,mesmo
cheinho de um ronsel de silêncios prolongados-nos que o vento
escreve neste folio de papel em branco,este poema,para vós um
mundo de desejos-porque tudo neste mundo é possível-

OS CORPOS (“No balouçar do vento“)

Está hoje um dia para olhar-nos.
Batem nos cristais pingas grossas
e no leito as pernas se entrelaçam
ná árvore dos desejos anelados.
O sol atravessa fugitivamanete as janelas
e mesmo que as vírgulas se apoussam
no cimo das palavras que nos quentam.
Nosso amor em segredos furacanados!.
No interior dos corpos o sangue
das veias deborcado no meu ventre

enquanto as pingas batam nos cristais e no
leito as pernas se entrelacem avidamente…

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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