Poema de Eugénio Outeiro

Poema de Eugénio Outeiro

0 comentários 🕔14:15, 01.Abr 2015

aqui e ali o incenso que se entranha na consciência do cheiro
as ondas no ventre levemente moles
a saliva na língua que lambe os dentes por dentro
cá dentro os chilreios dos passarinhos lá fora
– ou os passarinhos lá dentro ou nem dentro nem fora –
e o ruído dos carros longe cá no peito que sente
alguma dor ou nenhuma ou apenas as penas
sem um contexto ou causa apenas isto
a cor castanha clara do soalho da sala
confusamente refletida nos olhos
nebulosamente
nevoeiromente
mentemente
porque a mente mente

mas quem sou eu?
esta consciência que respira e não abarca o tempo
chega até às portas daquilo que se percebe
a                                                         -será que sou
a sensação de leveza das gemas dos polegares que se tocam
ou a firmeza do corpo apoiado no períneo?
serei o ar que entra ou o que sai?
e será que são ares diferentes?
serei o espelho do oceano em calma
ou a espuma da onda a centelhar na crista?
serei o espelho da partícula da espuma
ou o espelho do meu quarto a que não limpei o pó?

pairam no ar chilreios a sensação do corpo e a memória
inspiro o ar e espiro os pensamentos que se cruzam
a construir em mim um tu que observa esta existência que abarca
o que entra pela porta invisível mas que não te delimita

serei eu tu?
mas quem és tu?
quem que aprendeu a velear e até a tocar piano?
quem que põe o mandilão de capa
que segura o cigarro na mão que faz sonetos?
quem que vê as intervius de papá no falho?
a          – (quem é papá? quem é mamá? quem será o filho do filho?)
quem és que sobes à figueira para brincar de arqueiro
ou revolucionário em Santiago?
quem que foste ao mosteiro budista e não aprendeste nada
porque as perguntas crescem?
quem que respira o pó em partículas suspendidas no ambiente
e volta a sentir a gorja transitada de espaço?

se vês o espelho vejo um espelho que se vê no espelho
se deito a vista atrás e deito a vista atrás aonde
me vão os olhos que me olham?

como uma forma de nuvem que agora está e desaparece
existo em ti que não existes
visão quimérica que nunca foste

mas afinal quem vê?
quem é visto?
quem vê quem é visto?
quem vê quem vê quem é visto?
quem vê quem vê quem vê quem é visto?

continuo?

seguro a mão que segura a mão segura

aparto com um sopro o interrogante
e volto a respirar

(volto a ser respirado)

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