<em>Poemas de comboio (III)</em>, por João Sousa

Poemas de comboio (III), por João Sousa

0 comentários 🕔13:15, 01.Abr 2015

já é tempo de continuar o poema de comboio

O ‘poema de comboio’ compreende um projecto DISPERSO que tem acompanhado sazonalmente, quase diariamente, a ideia da viagem, do movimento, do quotidiano APENAS. Trata-se de uma reacção APENAS às constantes mudanças DISPERSAS, ao nomadismo inventado pelo autocarro APENAS, pelo comboio suburbano, pelo metro, pelo trabalho precário e pelos breves momentos de sonho no contínuo temporal da vida em movimento DISPERSO.

o poema de comboio não tem tempo a perder

Tem viajado por diferentes suportes: um jornal, uma revista, uma revista digital, um site de media independente, um blogue colectivo e uma revista digital não periódica. (…)

num tempo disperso encontramos o poema de comboio – apenas

Cabe agora largar apenas, de uma forma dispersa e sazonal, para a Palavra Comum, a terceira remessa… A unidade e simplicidade continuam patentes à doença de escrever. A sazonalidade com que escrevo também… está tudo cada vez mais disperso a vida nem sempre está alinhada com o desejo.

não há tempo para se escrever o poema de comboio

Se existe algum sub-grupo de textos dentro do documento único d’o poema de comboio que apresenta alguma coesão (e disto posso ter quase a certeza), esta pequena amostra pode ser considerado um deles. Um subgrupo da velocidade, da falta de tempo nos momentos acelerados do dia, em que a simplicidade da palavra é o motor de todo o texto, onde a confusão reina numa solidão rodeada de número, pessoas, murmúrios em nada secretos ou desejáveis. Um subgrupo do veneno dos dias, apenas isso.

faltam 15 minutos para, chegando ao comboio, chegar atrasado à estação que nos compete abraçar – passam os minutos – contam-se as moedas, bebem-se cafés, os números decrescem – o som, a cor, a luz, apenas

Mais uma vez deixo dispersos abraços aos de sempre, por aí espalhados, e para sempre.

poema de comboio #52

apenas tivesse eu tempo para passar
passar o tempo se apenas o tivesse na mão
tivesse na mão a passar o tempo, se apenas
na mão, o tempo, passa apenas por mim
e cada nota que soa é uma tecla batida
uma batida que soa em cada nota de tempo
um relógio afinado
se apenas tivesse no tom.

poema de comboio #53

se um texto começa apenas com a palavra apenas.
como por exemplo.
apenas…

e talvez nem tivesse reticências e se deixasse apenas
o apenas com avanço de primeira linha do parágrafo
com por exemplo…

apenas

apenas

apenas

seria demasiado redundante, talvez, contrariar a solidão
apenas por isolar um apenas?

poema de comboio #54

faltavam 4 dias para o último dia
havia uma enorme espera de sombras nocturnas
clamando, bradando, açoitando palavras contra o carril
sobravam 3 carruagens por preencher
estavam as outras carregadas de expectativas
que rasgavam correntes de ar apaixonantes e frias
restavam 2 horas apenas até chegar o fim
e ainda nem os 4 dias haviam passado
havia só 1 palavra capaz de se bater contra as ondas
sonoras e frias

poema de comboio #55

dentro das caixas
onde as simbioses moram
achei o transporte absoluto

dentro da carruagem achei
resultados imersos no som
onde as simbioses choram

no som
calado e expectante
tentava perceber a forma da simbiose

disse olá algumas vezes
tinha frio e percebi
que a forma era a de caixa

Sobre o autor / a autora

João Sousa

João Sousa

(Portugal) Redactor, produtor, director, editor e músico na empresa A Besta, Músico na empresa a-nimal e Músico na empresa O Poema (A)Corda

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