<em>Eu vi sol em toda a sua glória</em>, poemas de Amosse Mucavele (I)

Eu vi sol em toda a sua glória, poemas de Amosse Mucavele (I)

0 comentários 🕔16:30, 08.Abr 2015

Amosse Mucavele, nascido em 1987 em Maputo (Moçambique), onde vive, é poeta, ensaísta, antologiador, tradutor e cronista. Dirige o projecto de divulgação Literária Esculpindo a Palavra com a Língua, é chefe da redacção de Literatas, Revista de Literatura moçambicana e lusófona, membro do Conselho Editorial da Revista Mallarmagens (Brasil), Revista Eisfluencias – Portugal, colaborador do Pavilhão Literário Singrando Horizontes – Academia de Letras do Paraná, Jornal Coruja, Revista Triplov e outras. Membro da academia de Letras de Teófilo Otoni-Minas Gerais e da International Writer Association (IWA-Ohio-USA). Publicou textos em diversos jornais do mundo Lusófono.

Guerra Popular

A cidade é um inventário de angústias
uma música cega
um eco que se fecha em silêncio
Na veloz saudação dos chapas

***

Bairro Magude

Regresso ao avesso
com luzes apagadas
faço da escuridão a condição pela qual vivo
arrasto o silêncio para onde o sonho se abre em charco

***

Subúrbio

Nas margens da cidade
as acácias são como almas adiadas a arder
na melancólica procura de um sonho
para enxugar os pés
e sei que nenhum peão restituirá os buracos

***

Macaneta

Nessa praia tínhamos perdido o caminho para o mar
o resto da terra caiu em lágrimas
num rio calado pelo tempo
feitos de náufragos

(choramos com a bússola na mão)

***

Inhaca

Haverá ainda este sol
a murmurar na água
se a fome dos barcos alcançar a terra

Haverá esta tamanha glória
no corpo insaciável dos remos
que sugam o mar todo

se com os olhos continua(r)mos a desfolhar o distância?

***

Na maré do meu diário – o incerto
reescrevo com os olhos
a fonte do imaginário desta cidade
sem rumo, anoiteço no corpo do poema
onde voa o sol em toda sua glória

***

Eu vi o sol em toda sua glória
a procura de refúgio longe do florir da noite
sem nome, os barcos vacilam geometricamente
no corpo húmido de silêncio

(tal como as estrelas a apodrecer no charco)

***

Magumba

Se tu remas e eu remo
eu me remo rumo a ti
é no mar onde desnorteia-se a vítima

***

Canção do Pescador

Tenho muito mar – o rumo
onde sílaba a sílaba, remo
os dias todos
como uma pedra na água
encosto o ouvido sobre o barco
oiço
uma oração natural do anzol

(pela boca morre o peixe)

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