Traduttore traditore… e sognatore

Traduttore traditore… e sognatore

0 comentários 🕔16:00, 08.Abr 2015

Quando comecei com a maldita tradução sobre os últimos anos da monarquia austro-húngara, o primeiro que me perguntei foi em que língua estava escrito aquele texto. Teoricamente era alemão, mas só teoricamente. Havia mesmo palavras que nem o Google encontrava. Não existiam em todo o www! Talvez sim no wwww, mas no www não e acho que o wwww ainda não fora inventado. Àquele fulano já traduzira mais algum texto. Mesmo amigos alemães me dixeram que como podia traduzir textos escritos naquela espécie de alemão medieval. Bom, medieval não sei se era, mas esquisito sim. Traduzir do idioleto do escritor não era o pior, simplesmente tinha que botar mão à minha capacidade de inventar, muito útil nestes casos.

Enquanto traduzia, tentei compreender a sua fixação com o imperador Francisco José (e não com a sua mulher Sissi). Contava tantos pormenores das suas manias gastronómicas, de como se organizavam os banquetes, do que comia no palácio ou na casa da sua amante, de como vestiam os serventes do palácio, das dúzias de géneros de vinhos que tomava, etc., tudo com tanto detalhe (quando conseguia entendê-lo), que por um instante pensei que o tradutor estivera ali, na corte, naqueles tempos. Estava fascinado com as descrições tão precisas que fazia até da maneira de sentarem os convidados por rangos e hierarquias. Mas mesmo assim, aquela tradução estava a consumir todas as minhas energias físicas e mentais, e ademais existia o risco de o Google se declarar em greve.

Mas aquelas dores internas vieram acompanhadas também de dores externas. O prazo para a entrega da tradução estava prestes a chegar. Durante o período em que eu devia fazê-la, sofri uma gripe e um ataque de hemorróides sensacional. Portanto, comecei muito tarde a trabalhar na tradução. Escrevi para a gestora do projeto e comentei-lhe que precisava três dias mais. Durante dous dias nem tive resposta; depois, de repente, chegou-me uma mensagem da editora, mas escrito por alguém para mim desconhecido, onde me comentavam que não havia problema com me darem mais dous dias de prazo, mas que, ademais, devia fazer uma nova tradução/revisão de seis páginas de um livro que já traduzira anos atrás para a mesma editora e do mesmo autor. Logicamente, a revisão/tradução não era paga. Nesse momento pensei que se já me pagavam pouco pola primeira tradução, por volta de 350 euros por dez dias de trabalho incessante que, por riba, me foderam as férias, ainda a cousa piorava por ter que adicionar seis páginas de graça.

Fizem uma pausa. Fum ao banho. Daquela olhei-me no espelho. Reparei nos meus traços. Tentei imaginar como seria o meu rosto com umas patilhas povoadas. O cabelo já o tenho branco demais. E então voltei a me contemplar no espelho. Fiquei assombrado. Tinha quase os mesmos traços do derradeiro imperador da monarquia austro-húngara. Seria eu mesmo a reencarnação do Francisco José? E a minha dona então a reencarnação da Sissi? Emocionado, fum falá-lo com ela, queria que soubesse que existia tal hipótese. Encontrei-a precisamente diante do meu computador a mexer no rato.

“O que andas a fazer?”, perguntei-lhe.

“Corrias o risco de perder toda a tradução”, explicou ela. “Não tinhas salvado o texto e a corrente hoje pode marchar em qualquer momento. Estava a che salvar o trabalho.”

Eu ranhei-me as patilhas imperiais que não tinha e dixem:

“Tanto tem se se perde. Eu próprio poderia reescrever esse texto segundo as minhas memórias”. A minha mulher olhou para mim surpreendida, não conseguia perceber que eu me estava a referir à minha vida passada e que provavelmente o autor do texto e eu nos conhecêramos um século atrás. Tudo tinha uma lógica e uma ligação para além do que se via a olho nu.

“A propósito”, dixo-me então a minha mulher, “não sei se te decataste, mas o fulano que estás a traduzir quitou todas as informações de um web sobre os Habsburgo. Está tudo aí. Tem-che bem pouco de original…”

Nesse momento, senti como as minhas patilhas imaginárias de imperador caíam para o chão e senti o que realmente era: um triste e covarde tradutor que trabalhava com tarifas de miséria. E sem mais uma palavra, comecei a trabalhar com aquelas seis últimas páginas naquele idioleto do qual me estava a converter no único especialista mundial. Polo menos, aquilo era um consolo.

Sobre o autor / a autora

Xavier Frias Conde

Xavier Frias Conde

(Galiza)

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