Músicas de Auel 12. Mai matrística. Ugia Pedreira & Pierrot Rougier

Músicas de Auel 12. Mai matrística. Ugia Pedreira & Pierrot Rougier

0 comentários 🕔13:00, 29.Mai 2015

Certamente, só há umha mai biológica, mas som tantas as que aprenderom a coidar-me! Som tantos os que me aprenderom a andar polo mundo! Nom acredito que tenha mais valor um pássaro em mao que cento voando pois amo a liberdade dos 100 pássaros soltos, nom acredito quando me dim a estabelecida frase “nom cámbies nunca, segue assi”, pois aí tá a capacidade de inteligência, adaptar-se, transformar-se e medrar cada dia para melhorar as conexons do cérebro; nom acredito nos jubilados quando dim que aguardam para a morrer e nom tenhem já nada a aprender; nom acredito na resistência ou em aguantar como dim os nossos velhos: há que aguantar! (o tema nom é aguantar, senom afastar-se do vieiro marcado polos bons costumes; o inconformismo leva à disidência, ao exercício produtivo e positivo de abrir caminhos alternativos. Martin Pawley ensinou-me este). Nom acredito que esteja no mesmo plano o músico que come da súa música e o funcionário que fai cançons, nom acredito nas coerências, sim nas contradiçons, nom acredito na conquista mas si na espera observativa. O copo de água cai sempre no lugar exacto onde tem que cair, nom acredito no sofrimento nem no esforço porque desdebuxam o Talento natural, e ademais apuxam à penitência e ao sacrifício do traballo (de raiz tripalium, objecto de tortura e castigo em latim, dixo-me Lhosca) tam louvável para o sistema; nom acredito no prémio-recompensa para nengum feito, nem na perfeiçom. Mas isto é só umha opiniom. Umha opiniom dumha mai cumha situaçom “especial” cumha filha diferente como tantas outras, umha opiniom dumha mai ferida como tantas outras que escrevem.

Nom confio nem acredito na sociedade matriarcal nem na passada e presente sociedade patriarcal, confio e até sonho, naïf, que algum dia caminhemos para a MATRÍSTICA, onde nom se manda nem há competência entre sexos (bem sei dela entre mulheres, entre homes e mulheres e entre mulheres e homes), nem há hierarquia. (Graças Katherina e Mov por alertar-me).

O Sr. Humberto Maturana, de origem chilena (ser de Chile tem fundo mapuche), tem vários oficios, masters e diplomas que dam credibilidade a um sector da povoaçom, mas sobre tudo a cabeça e corpo em efervescência aos seus 80 anos. Nada a perder, tudo a ganhar para espremer as suas investigaçons sobre os chamados problemas de género graças a esculcar na origem da Europa Indígena. Aqueles povos matrísticos europeus colaboravam e travalhavam polo bem comum sem apropriar-se de animais nem pessoas (antes de serem conquistados polos pastores indoeuropeus que criam na propriedade privada e matarom os lobos), veneravam a deusa mai como útero da terra, mas isso nom a fazia imperativa nem sofridora, nem orgulhosa, nem castradora, nem manipuladora do Poder. A deusa mai, como a terra, guarda o equilíbrio selvagem baseando-se na cooperaçom, entre outros tantos valores. Confio na futura matrística porque nela Lu seria gozosamente aceitada como diferente, porque na matrística o diferente é o valioso, o que se promove, ainda que talvez na Europa Indígena sem atelier mecánico de cirurgia médica ela e eu estaríamos mortas.

Como mai ferida, filha de mai ferida e educada na extrema obediência-medo-castigo, nom sinto o levantamento de monumento algum diante de quem pariu e quem aleitou durante anos ou meses. Si é genial, umha experiência da natureza que cada vez é menos natural! Ser mai nom nos converte em terra sa pola graça divina. Ou polo menos, desculpem, eu nom o som. Só indivíduos sans convertem a sociedade em sa, polo tanto caem-se todos os roles; creio que teriamos que dar passo dumha vez a educar, educar, educar, educar, educar ambiental e emocionalmente a umha sociedade escura que busca desesperadamente luz.

Na minha vida houvo mais que abandonarom a filhas de distintas formas, mais que maltratarom psicologicamente a pais e filhos-as, mais maltratadas, mais mortas, mais perdidas, mais visionarias, mais com a cabeça por um lado e o corpo por outro, mais que nom matarom os homes cum objecto material, mais que ajudarom a toda umha aldeia, mais que se levantam polas noites a embalar as pícaras mentres os homes dormem, mais controladoras, conquistadoras, mais sofredoras, mais que se permitem deixar-te cair para aprender a levantar-te só, mais invejosas e competitivas com a vida dos filhos, mais valentes e potentes, mais reprochadoras, mais abertas de miras, mais que negavam o sexo, mesmo a tenrura, mais republicanas, mais soberbas por ter casa-coche-filho-home-pote-pasta, mais de tacons vermelhos, mais com pés de vidro, mais doces, calculadoras, mais capadoras, mais de grandes coraçons, mais patriarcais, mais hipermatriarcais, mais frias e mais quentes. (aconselha-se fazer o exercício de troca da palavra mai por pai também). O caso é que as mais ou nom mais mortas tam aí cada dia com as crianças em África ou nas distintas guerras abertas no planeta, morrendo e nascendo por viver numha escuridade brutal, numha crueldade que ordena. Educar! Educar! Desesperadamente umha política educativa, educar!

Quando vês isto e também amigas que nom puiderom ter filhos, ou nom quixerom, ou nom forom elegidas polo filho-a e tenhem conversas e leituras de género respostando perguntas que som cavilhas tanto deles coma delas, entom chimpo os valados e confio só em quem tenciona, nom em quem leciona. Bem che sei do poder inquestionável da palavra, do movimento, do gesto minimal, da melodia, da harmonia, do espaço onde se di, das leis de marketing; aprendim qual é o preço de cada palavra directa, dita de lado, clara ou críptica. Diferentes tod@s e a muita honra! (ver Poesia e Cérebro, artigo de Músicas de Auel).

Antes do embaraço nom fum apoiada na minha música por minha mai, e no embaraço nom fum apoiada pola mai porque tava cheia de medos que me transmitiu (algum entrou). Lim como tantas pré-mamás acarreiradas um pouco de sociologia, história, inteligência emocional que envolve o totem Mai para atopar bálsamos. Atopei um guia maternal que tinha entre as normas de embaraço nom estar muito com a própria mai. Alucinei! Talvez lim de mais e sentim de menos. Fotocopiei a Gabrielle Roth antes de conhecer a Matrística, claro, e encheu-me. No Mapas para o Éxtase de Roth fala-se da funçom mai-pai. Queria saber, quer dizer, ler como poder ser umha boa mai. O intelecto puxem-no antes da intuiçom.

A grande tarefa da mai é transmitir-lhe ao-à filho-a o instinto de cuidado e autoestima, mas nom cuidando-o o resto da vida porque um-uma deve saber converter-se na sua própria mai. Se forom alimentados quando nom tinham fame, dormidos quando nom queriam, tapadas quando tinham calor, ponhendo a roupa que se mandava, forom educadas na desconfiança das mensagens internas e assim incomodadas com os nossos corpos até quando? Andamos feridas pola mai? Logo somos adultos que tratamos de calmar a dor e satisfazer a fame de carinho, de seguridade e aprovaçom com álcool, drogas, sexo mal exprimido, e vazio geral.

Contaminar o corpo = Contaminar a terra. Onde tá a mai? Onde tá a terra?

E acompanhando tá a figura do pai que, segundo Roth, está fora. Nós saímos do corpo mai-terra e o outro tá fora esperando: o pai. O primeiro com o que aprendemos o mundo de fora: dar, tomar, receber, a amizade, os limites, explicar os nossos coraçons, conversar. Como te relacionas com o teu pai, assim te relacionas com os demais.

Logo de adultos temos aberta a ferida do pai: agochar-se detrás do trabalho seja qual for e dos filhos, a triste vida cheia de melancolia, de vidro, desesperaçom, buscar a aprovaçom, buscar o pai na parelha, pesar que subjaz debaixo de todas as histórias da vida aparentemente feliz e correta (conversas corretas, roupa correta, trabalho correto, sucesso profissional), mas faltando a chispa, a paixom, a aventura, faltando os motores de alta cilindrada.

Logo, de adultos, temos aberta a ferida de pai ou mai, abandonadas por um ou por umha. Ó, si, há quem tem umha família perfeta e feliz ;-)

Seguindo esta vaga de proceder, qualquer pessoa pode cuidar e ajudar a relacionar-se: avó, pai, irmá, madrinha, porque todos levamos umha mai dentro, um pai e como di Mov todos-as somos filhos-as. Se o cuidado materno nom é valorado com total consciência depois dos miles de teoremas sobre feminismo-capitalismo, busca de igualdade, dias assinalados de violência de género, … Imaginemos qual é o valor consciente do cuidado paterno, agora que os dous trabalhamos para conseguir dinheiro e nom tar com os-as filhos-as, agora que andamos com “outros-as” no móvel habitual deixando tempo para os-as outros-as, agora que o “home” mais ca nunca tá perdido buscando o seu lugar na “terra”, agora que a mulher tá perdida sem saber que é “terra”.

      Estíbaliz Espinosa para Lua Auel Makun

Makun, por Estíbaliz Espinosa.

Os filhos nom som teus, venhem para o mundo.
Martina Nogueira.

Umha conceiçom matrística. Na Matrística, na Europa Indígena, antes do pater familias, o órgano-grupo dumha tribo girava arredor da infância. Entom nom havia família nuclear, como bem sabedes, pois nom era útil. O órgano-grupo é a origem do que som agora as conceiçons familiares. Adultos arredor das crianças, seja qual for a orientaçom sexual. Portanto, como iam existir chagas de pai e mai se nom havia a conceiçom de filho-a como propriedade privada. Para nós é preciso e necessário umha ajuda colectiva arredor de Lua na sua educaçom e estimulaçom, umha ajuda corpo-a-corpo real mais alá do núcleo familiar. A família nuclear é cartesiana, pequena em miras, falta-lhe variaçom constante, faltam liberdades, tá no seu próprio cárcere de confortabilidade.

Esta frase de Martina ajudou-me neste processo de ser mai biológica cumha pistola na cabeça, cheia de medo castanheando os dentes (dim que se nom conheces o verdadeiro medo já se encarrega ele, o medo, de que o conheças algum dia) e vendo um minúsculo ser humano cheio de cabelos, com pele negra. Ajudou-me para converter-me em porteadora. Antes de Lu nascer já carregava em mim uma raiva contra a minha espécie destrutiva que botava o lixo ao-à outro-a, a mim mesma. Mas agora que Lu tá na vida e a caca é tam importante na casa, vou convertendo ao home e a mulher na mesma merda (iguais) complexa e surpreendente, e assim reconciliando-me. Graças a ela, à sábia infante, podemos ser melhores e limpar, ou curar se vos parece mais justa a palavra, as feridas desta família europeia do montom perdida entre a velocidade, o material e o público.

Som mai, a mai de Lua, que vem para o mundo com minusvalia e com mil dificuldades para eu ensiná-la a cuidar-se. Como? Som mai que se pergunta como saberei o que necessita. Som mai cansa e cheia de dor. Som mai cheia de força e destrezas. Som mai generosa e egoísta. Violenta e finíssima. Vejo que Lu ajudou já a construir a interdependência entre mundos. Que já propuxo situaçons de igualdade. Que nos tá a dar muita informaçom. Tá propondo resoluçons familiares. Som mai, mas sobretudo, Eu som Eu.

Umha das pessoas deste universo que tá ferida pola mai . E tu? Como me dixo o amigo Caxigueiro o dia que nos conhecemos numha manifestaçom em Santiago: “És artista por tua mai ou teu pai, refiro-me aos traumas.”

E é no trauma que fazemos a arte? Nom ou…? Ou nom só.

Arte e vida, no meu caso, vam da mao. Comecei a dar-me conta ao começar a andaina com Marful. Cada cançom cantada ou composta tem a ver com o experimentado no corpo ou o que acontecia nese mesminho momento. Muitas vezes reveladoras e visionárias criaçons. Por isso, a arte da música dá-me sinais para saber que passos dar e continuar caminhos.

Agradecida aos irmaos-as que também andam no “fio da navalha” jogando-se a vida cada dia no abismo das águas, rodeados de incompreensom. A mim pola tona já nom me dá a vara de tar. Escrevo assim porque me fai falha e desejando ajuda a alguém com algumha destas palavras, escrevo assim para ir atopar o pêlo do urso que tá acima do monte, quiçá nas altas terras do Norte entre o Castro de Vilaronte e o monte de Corneria, quiçá nom: ali dim que é onde tá agochado o diamante azul do bispo bretom Maeloc e onde na prática mulher-home-mulher-mulher-home-home estamos aprendendo a mirar-nos como o horizonte da Marinha, à mesma altura dos olhos.

No es fácil, dim em Cuba.

O filho elege a porteadora e a semente. Nisso tivem que centrar-me muitas vezes para continuar a viver (cada uma agarra-se ao que pode ou tem na mao, um pao). Porque muitas vezes pensei na morte minha e na dela. Mai criadora, também podo converter-me em suicida e assassina, matar-me e matá-la! A vizinha de minha mai dixo-me que um dia pensara tirar-se pola janela com o seu filho que levava berrando horas. E outras reconhecem com a boca pequena coisas, esses segredos de charlas fêmias que nom devem escoitar os machos. Ver-te a ti mesma é espelho tam devastador como sanador.

      Track No01

Olelemolibamakasi, por Estíbaliz Espinosa.

NOTA: as duas composiçons que podem ouvir-se neste artigo, doadas por Estíbaliz Espinosa, levam acompanhando a Lua desde há meses.

Sobre o autor / a autora

Ugia Pedreira

Ugia Pedreira

(Galiza)

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