<em>O Hóspede da Lua</em>

O Hóspede da Lua

0 comentários 🕔12:30, 01.Jun 2015

Quando o alvorecer se levantou atrás dos cumes couraçados de neve, que serviam de fundo ao Vale das Cerejeiras, já Chuang-tzu tinha deixado a esteira de junco da estalagem, onde Wang-ti, com antecedência,lhe reservava abrigo, sempre que, pela Primavera, pernoitava nas imediações da Montanha Azul, a caminho de Sung.
Apesar da idade, Chuang-tzu era o primeiro a pôr-se a pé, ganhando, segundo pensava, anos de vida, e tempo para aprender que o verdadeiro caminhante nunca há-de ter pressa, e assim ao dia roubar tempo que logo restituía à natureza tornando ligeiro o vento ou serenando a floresta.
Como peregrino, Chuang-tzu tudo preparava com cuidado para que, de cada viagem, viesse a guardar recordações de velho sábio que, ainda criança, descobriu como a arte de caminhar pode vir a ser, sem dúvida, o melhor entendimento da vida.
Em boa verdade, viajar pode tornar-se uma forma de oração.
Assim, por exemplo: a beleza de um riacho, que o degelo da montanha trouxera das alturas até aos arrozais, onde os camponeses se confundem com a paisagem – comoviam-no; a contemplação do dia ao entardecer; a placidez dos jardins de horas dos palácios onde gritavam pavões de mil cores; a ondulação verde das colinas por sobre as quais o arco-íris fazia cair chuvas de pétalas – levavam-no às lágrimas!
Como noutros tempos, Chuang-tzu sentia-se encantado com a música do vento na copa alta dos salgueiros que, uns atrás de outros, tomavam forma de pajens da corte o que o ajudava a adormecer e a não estranhar a esteira nas cabanas onde ficava, quando já lhe começavam a faltar as forças para prosseguir as caminhadas pelos trilhos de montanha.
De manhã, principalmente, custava-lhe bastante interromper algum sonho agradável que, depois, tinha dificuldade em recordar.
“Se acordas, Chuang-tzu, perdes o rasto à borboleta”, ouviu, então, dizer aos nenúfares do Lago Florido, perto do qual se erguia a choça onde o reteve, dessa vez, a jornada, pouco antes de começar a subir para as paragens de Sung, a formosa montanha que, entre neblinas, tanto atraía os viandantes, levando-os a guiar-se pelo sino dos templos, sempre que peregrinavam pela montanha para assistir à chegada da Primavera.
Surpreendido pela presença súbita de alguém que se fazia anunciar ao lenhador que ele passara a ser no sonho que o procurava, nem teve tempo de escutar o canto madrugador da cotovia, por entre a parada de bambus que servia de guarda à paisagem, dádiva real a quem por ali passasse.
“Sou o príncipe Wen-Hui, e como tu, bom homem, vou a caminho desse lugar em que a contemplação da Primavera não tem igual. Acaso, não és Chuang-tzu?”
“Quem poderia eu ser? E vós, senhor que me visitais?”, retorquiu o velho que o Príncipe, conforme lhe disseram, julgava ter ali, à sua frente, e ser o lenhador que vivia junto do Lago Florido.
“Para ser sincero, não sei o que leva alguém a procurar a choça de um pobre homem como eu!”, reconsiderou Chuang-tzu.
“A seu tempo o saberás!”, comentou o príncipe, enquanto, pela porta entreaberta, se ia dando conta de que a simplicidade que trouxera virtude ao lenhador outra coisa não era senão a sua vida de homem só, pintada por mão de artista no relevo da paisagem.
“Fala-me de ti!”, continuou Wen-Hui, enquanto se preparava para a cerimónia do chá, pela primeira vez servido ao príncipe pelo lenhador cuja vida, agora, aos oitenta anos, estaria prestes a diluir-se no sonho.
Chuang-tzu, feliz por poder prolongar cada instante para lá do tempo, aceitou com prudência o que lhe fora proposto por tão honrosa visita.
“A vida de um lenhador das florestas do reino dos Han é servir seu Príncipe, porque assim lho recomenda o dever e o aconselha a virtude”, começou por dizer.
“Como, por certo, acontece com os outros lenhadores, o meu único desejo é cortar árvores durante os melhores e mais longos anos do príncipe.
“Manhã cedo, levanto-me e logo me preparo para seguir o ensinamento que, desde criança, me foi transmitido por meu pai: “Se uma árvore te impressiona, passa adiante.” Foi o que sempre fiz quando, de machado afiado, me dou a calcorrear os atalhos da floresta.
“Como não devo tomar o todo pela parte, aprendi que cada árvore tem um destino.
“Quando lhe dou os bons-dias, sei que ela me responde, que me dirá qual o dia e a hora em que a devo abater.
“Porque a arte de cortar, meu príncipe, há muito tem que se lhe diga.
“É uma questão de tempo, senhor!
“Como um rito sagrado, a árvore abatida é uma parte de nós.”
“Pasmo ante a sabedoria que te orienta, lenhador!”, comentou o príncipe, não se ficando por aí.
“Com tal engenho, todo o homem conseguiria o que quer!”, atalhou o príncipe.
“Engenho, senhor?”, desaprovou o lenhador, de sorriso nos lábios, enquanto reconhecia cada um dos machados, que continuavam alinhados a um canto da cabana.
“O que me guia é o caminho da perfeição com que decido qual o dia e a hora do abate.” E muito seguro das suas convicções: “Quando, na juventude, comecei a trabalhar como aprendiz de lenhador, a profissão ainda pouco me dizia, as árvores estavam ali, pouco mais eram que uma espécie de adorno da natureza.”
E sem fixar os olhos na xícara, concentrando toda a atenção no sabor do chá:
“Uma árvore, outra árvore – eis o que eu via! Passados anos, a visão de cada mancha verde desvaneceu-se, para passar a ver o que ela é, fibra a fibra, da raiz à mais fina vergôntea, até onde a seiva alcança.
“Mais tarde, já não via apenas com os olhos o tronco esbelto e as ramagens que não paravam de me olhar.
“Os sentidos, senhor, enganam; o espírito, não. Quando se liberta, segue em frente, determinado, atento ao que a intuição lhe diz. Como hei-de explicar: sem se obrigar a planos, a mão do lenhador deixa-se conduzir de modo natural, busca o ardor como chama no sangue.
“Com dedicação, meu príncipe, fui capaz de abater mil árvores sem me cansar.
“É que, ao fim de uns anos, qualquer lenhador, por melhor que seja, já arrumou uma fiada de machados, pois o que é fiel também se gasta.
“A obrigação de um machado é cortar; cortar bem.
“Se o lenhador não põe alma no que faz, se lhe falta saber, não chegam os dedos da mão para contar os machados de que precisa na vida.
“O segredo é consultar a lua, medir o golpe, sem retalhar o lenho.”
Antes de prosseguir, o lenhador dirigiu-se ao escaparate onde se alinhavam, um a um, machados antigos, ao lado dos de uso mais recente.
“Este machado, por exemplo, há quantos anos me acompanha? Oh, já nem eu sei! Se o não amasse, já o não teria ao meu serviço.
“Veja, pois, o meu príncipe, este fio de lâmina, mais fino que cabelo de mulher. Reparou, meu senhor? Claro que reparou, afia-se com o uso perfeito.
“Com verdadeira perícia, uma língua de fogo não faria melhor.
“Sem ninguém querer convencer, veja bem, o meu amo, porque há décadas mantenho esta fiada de machados ao serviço do reino.”
“Parecem acabados de afiar!”, desabafou o príncipe.
O velho continuou: “Para ser mais exacto, aparecem sempre alguns troncos mais resistentes à mão do lenhador. Com paciência, logo lhes descubro a feição. Apronto o corte com cautela, observo, avanço, penetro no tronco com fervor.
“É então que o fio do machado fica imóvel; a mão descai sobre o quadril – fftt…
“E o tronco cede.
“O machado volta a ser machado, e com ele o braço que o jogou.
“Eu fico estático, em pé, nem por um instante vacilo para que essa rara alegria, que sinto, tome conta de mim, e em mim entre.
“Da lâmina deste machado, senhor, cuido eu sempre com afinco. Primeiro, ponho-a a brilhar como uma estrela; depois, dou-lhe descanso.”
“Estou sem palavras!”, concluiu o príncipe Wen-Hui, ainda mal refeito da estupefacção com que fora ouvindo o lenhador
Agora, era a vez do lenhador passar a escutar. Parecia falar só, o príncipe:
“Quando menos se espera, a evidência chega-nos da parte de um pobre homem à porta de quem batemos quase por engano.
“Confesso que não me passava pela cabeça quanta mercê tinha, afinal, o lenhador para me dar.
“Uma lição tão simples como o pensamento!
“Daqui em diante, serei outro. E não haverá desculpa para a minha governação.
“Talvez possa ainda, lenhador, vir a ser sábio como tu!”
E esquecido de que alguém o pudesse estar a ouvir: “Acaso poderei aspirar à perfeição como, em outros tempos, o fez este homem?”
“Quem sabe?” – atalhou, em voz baixa, o lenhador, enquanto o príncipe, preparando-se para regressar ao palácio, ia caindo em si, dando-se conta de como, afinal, cada homem é outro, quando aprende a ser o que lhe reserva a vida.
Na mesma altura em que já abandonava a choça do mais velho ancião da floresta, despertou, Chuang-tzu, do longo sonho, a tempo de ver ainda, Wen-hui, subir para o palanquim e, como por encanto, perder-se no ar a colorida borboleta, que só o pensamento de um sábio pode fazer viver para além da morte.
Quando Wang-ti subiu a escada e, com o nó dos dedos, bateu à porta do quarto da estalagem da Montanha Azul, já a luz do meio-dia abençoava o Vale das Cerejeiras, inundando-a de quantos aromas saíram, um dia, do apurado gosto da criação.
Contra o costume, Chuang-tzu já não era, como em tempos, o mais predestinado dos peregrinos, o primeiro a desafiar, antes do sol nascer, as veredas íngremes de Sung.

Tantas moradas tem a noite
e em nenhuma dorme

O hóspede da lua.

Sobre o autor / a autora

Vergílio Alberto Vieira

Vergílio Alberto Vieira

(Portugal)

Sem comentários

Ainda não há comentários

Ninguém deixou um comentário para este post ainda!

ESCREVA UM COMENTÁRIO SOBRE ESTE POST

Escrever um comentário 

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *