<em>O som das águas lentas</em> (e IV)

O som das águas lentas (e IV)

0 comentários 🕔11:00, 12.Jun 2015

O som das águas lentas é um livro de Xosé Lois García publicado em 1999 por Campo das Letras, dedicado aos azulejos da estação ferroviária de Caminha. Esgotada nas livrarias desde há tempo, agradecemos ao autor o envio dos poemas e as fotografias com as que dialoga cada texto para serem publicadas na revista Palavra Comum. Finalizamos com esta quarta entrega a série, com as restantes 4 fotografias e poemas, e completamos as 22 composições conjuntas do trabalho. Podem-se ver todas nesta ligação.

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XIX

Tu nasceste para inclinar-te sobre as ervas
e qualquer caminho com brilho de poeira
te conduz ao solidário encontro com os mortos.

Devias ter um coração em espiral,
muito grande; crescendo para a eternidade
nesse corpo de verão e de amêndoa madura.

As alminhas surpreendem-te, trigueirinha,
nos inocentes joelhos e nas mãos de ceifa
quando re debruças na pedra que as lembra.

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XX

Uma ponte oblíqua para os pés
é tudo ao que podemos aspirar
na água que surgiu do sorriso.

Sob os arcos de exígua luz
bucólicas curvas, sinuosas e pertinazes,
tecem e oscilam a memória da música
para consagrar a testemunha
da pedra transmudada
em aglutinantes olhos de esperança,
tão grandes no ardor dos cereais,
tão brandos para o ritual dos limos.

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XXI

Sossega a barquinha do tempo
com o balanço dos rostos na água.

Sois quatro filhas da maré,
em líquidas veias de orvalho,
que procurais o rumor do Minho.

Quatro. Sois quatro solstícios
na barca que vos leva
ao assombro dos frutos
para comover-vos
no coração da terra que vis cria.

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XXII

Estais partilhados da mesma sorte,
são mesmo os atributos do fardo
quem vos acompanha nesta vida.

Descalços ides para a maresia
no contacto essencial da manhã
para serdes mais íntegros,
um para o outro,
na terra que desperta no vosso grito.

Toda a carne grita
no fóssil estridente do que sois
e a terra continua móvel,
como no poema de Whitman.

Olhais sempre à frente
e a alva bebe o sol
que em vosso cabelo amanhece.

Sobre o autor / a autora

Xosé Lois García

Xosé Lois García

(Galiza-Catalunha) Nascido na Galiza, Xosé Lois García é formado em Geografia e História pela Universidade de Barcelona (Catalunha), cidade onde atualmente vive e trabalha. Articulista, ensaísta, conferencista, tradutor e poeta, é considerado uma das mais importantes vozes da poesia galega contemporânea. Publicou na Espanha antologias da poesia galega, portuguesa, brasileira, angolana e moçambicana, entre outras, além de importantes estudos sobre a simbologia do românico em Portugal e Galiza. Tem vários poemários, dentre os quais se destaca “Tempo precario”, no qual o autor dá voz a seu heterônimo, Pero Bernal, trovador galaico-português.

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