<em>Resistência</em>, poema

Resistência, poema

0 comentários 🕔11:30, 19.Jun 2015

“Somos abatidos, mas não aniquilados” (II, Coríntios, 4, 9)

Ninguém sabe porquê falam os homens
quando podem cantar,
nem porquê esta manhã
em que me ilumina o mesmo sol
que faz amadurecer os figos
do outro lado da janela,
agarrada a uma máquina ganho o pão
que de graça era a minha herança.
Ninguém sabe porquê esta manhã
que não espera mais história que a dos amantes
morro solitária e fermosa
lembrando as ilhas
e os oceanos.
Ninguém sabe quem nos roubou a nossa história
essa que contam os pássaros e os frutos,
essa da primeira manhã dos tempos,
sem mais sequência
que a que vai e vem
no intervalo da onda.

“Quem levantou o muro
esmagando as rosas?”

Mas ainda posso ouvir
o nordês que não me esquece,
o mesmo que guiou o meu avô até à América
pelos caminhos do sol
e que hoje acaricia o lombo da cidade.
Há outra história do homem
escrita na pedra que aguenta o embate da onda,
nas ervas que crescem na beira da estrada,
no teu olhar em que lampeja a sombra da floresta
que nos procura,
cena repetida da única cena que importa,
essa em que não estamos separados,
a da ordem certa das cousas,
a casa da mãe e a mesa posta
que os irmãos reúne
à volta das araucárias, dos imbondeiros, dos carvalhos,
a árvore única de tantos nomes
que inundam de seiva e lume o nosso sangue.
A lei única da estrela sobre a vida da terra
que movimenta o mar, as naus e a história
dos filhos da terra,
herdeiros da casa, o pão e o canto,
que pelo mundo vagueiam
vencendo o mar e os ventos
e a dura lei do homem
que de nós nos exilia.

(Maria Dovigo, Lisboa, dezembro de 2014)

Sobre o autor / a autora

Maria Dovigo

Maria Dovigo

(Galiza-Portugal) Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.

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