<em>Poemas de comboio (IV)</em>, por João Sousa

Poemas de comboio (IV), por João Sousa

0 comentários 🕔13:10, 29.Jun 2015

O poema de comboio é aquele tipo de coisa que já tentei explicar noutras coisas que por aqui publiquei, nomeadamente os três últimos “conjuntos” de poemas do comboio. A Revista Palavra Comum tem tido o poder de me fazer seleccionar conjuntos de poemas. Recorrer sempre ao mesmo documento para escolher mais e mais conjuntos. Este é outro conjunto de poemas de comboio. Para além de estar cada vez mais próximos de uma ideia de publicação física (que adoraria fazer pelo colectivo A Besta que, para além de ser a editora pela qual lançamos os trabalhos sonoros dos projectos, quererá ser também editora de livros que ainda estão por definir), os poemas cada vez mais próximos da fracturação, da fartura até – seja por que há muitos poemas de comboio, seja porque já me já sinto algum cansaço em relê-los (apesar do extremo prazer que me proporciona escrevê-los).

De salientar, ainda, a profunda actividade que a minha colaboração com a Palavra Comum gerou em mim. De frisar que o último poema aqui presente foi escrito após o concerto de O Poema (A)Corda no passado dia da poesia (deste ano) na Casa Álvaro de Campos em Tavira (terra natal do caro poeta-declamador do projecto). Escrito e lido para o momento de declamação colectiva e informal.

Sem mais palavras, segue este conjunto que evidencia o constante regresso à temática da viagem, seja ela qual fora.

Grande abraço a’O Poema (A)Corda, à Besta, à Palavra Comum.

Estou farto mas amo o comboio.

poema de comboio #56

olá breve comboio, breve banco
pequeno momento de vida
artificial, mas vida
“não chegámos a tempo à paragem”
nem acendemos a luz

olá nuvem, olá húmido bocejo do dia
não me interessa escorregar
mas estou mentalizado para a última picadela de luz
os meus olhos, perante a ausência de caminho,
serão guiados pelas quentes faíscas do carril

olá fácil destino
eu não conheço outra realidade
para além da veloz escalada até à morte
mas conheço

poema de comboio #57

quantas vezes te troquei por uma breve caminhada
por mais uns passos, mais um assumir de controlo ilusório
sobre o chão?
quantas vezes te assumi como algo imposto? obrigado?
mas desta vez vou dar aos pés outra liberdade
sobre o chão.
porque as escolhas estão em cada pedra da calçada
porque as escolhas estão em cada passo que eu já dei
(…)

poema de comboio #58

assumimos os dias celestes
e sabemos a forma das noites

queria saber como seguir na estrada do dia
sem ter que olhar para trás, sem desconfianças
há um pó que faz a estrada e os meus pés parecem tremer
a luz persegue, urgente, os meus passos tiritantes
queria estudar a confiança diurna dos pássaros
aplicar a teoria na exactidão mansa dos pinheiros
deixar diários para trás sem medo, sem agitações

percebemos os dias assumidos
formalizamos a noite na sabedoria

queria saber a única hora da noite
sem ter que contar minutos até que chegue, mansa,
a escuridão que reconforta os passos confiantes,
as entranhas urgentes, os pássaros noctívagos
queria escrever todas as estrelas em tintura de amor,
em lágrimas de suor frio, com calma
deixar as notas para quem puder ser

assumimos o dia na noite
aspiramos à noite no dia

poema de comboio #63

há uma certa inconstância
na rotina de um comboio suburbano
uma voz que se mantém
inalterável
nas falsas afirmações
há algo de constante
no inesperado correr de um dia-a-dia
uma palavra que resta…
a           as pálpebras da manhã custam a abrir
a           os melros brilham nos cantos de outros sóis
há uma correria dissonante na música dos meus passos
passo a linha
deixo os olhos na paragem
corro para perto de um terreno onde não estou
inconstante, mantenho-me na afirmação
há algo de eterno nos segundos entre os apeadeiros
palavras nos olhos
preguiça nas pálpebras

(Tavira 21/3/2015)

Sobre o autor / a autora

João Sousa

João Sousa

(Portugal) Redactor, produtor, director, editor e músico na empresa A Besta, Músico na empresa a-nimal e Músico na empresa O Poema (A)Corda

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