Entrevista ao escritor moçambicano Adelino Timóteo

Entrevista ao escritor moçambicano Adelino Timóteo

0 comentários 🕔12:30, 08.Jul 2015

- Palavra Comum: Que supõe para ti a poesia/literatura?

- Adelino Timóteo: A poesia/literatura para mim é tudo aquilo que procuro revelar, com esplendor, com beleza. A poesia é o patamar de uma casa inserida neste amplo edifício que é a literatura. E quando olho para a poesia suponho-me como alguém que olha desde fora deste edifício sedutor, procurando escalar cada parte desse patamar, em cuja configuração há ressonância da matéria intensa, matéria solar que a compõe e a monumentaliza. E nesse olhar errante, furtivo, digamos, passa-se algo subjectivo que varia de pessoa a pessoa. Há diferentes dimensões do sentir que, desde muito novo, me converteu num apaixonado pela poesia. Eu diria, foi a primeira mulher por quem me apaixonei e a primeira casa para onde passei a viver, depois que escalei a dimensão da cosmogonia, se bem que olhando-a, pelas suas janelas, consigo abarcar o universo em que vivo. Há uma porta acessível, diria sagrada, que é a poesia. Onde estão os deuses que me apaziguam a alma, as tormentas, me reconcilia com os fantasmas e me permite olhar-me por dentro na perspectiva de ser justo, primeiro comigo mesmo, depois solidário com os outros, redimido de toda a vaidade. Apesar da poesia decorrer numa esfera egocêntrica, intimista, eu a procuro produzir como quem faz pão para alimentar a alma daqueles que necessitam de um paliativo que espante a dor. A poesia nunca morrerá por isso. Traz consigo toda a carga de antídotos que compartimentam as diferentes dimensões de existência e ansiedade.

- Palavra Comum: Como entendes o processo de criação artística?

- Adelino Timóteo: O processo de criação artística é ardiloso. A criação artística exige comprometimento do seu artífice. Ela emerge de estímulos, sensações. No meu caso o ponto de partida tem a ver com estímulos exteriores, tudo aquilo que vejo, leio, vivo. O processo de criação artística encontra armas na vida. Na emergência e necessidade de construir o que supomos original, sendo a tal construção sinédoque de destruição. Como diria Jorge Luis Borges, somos anotadores de realidades pré-textuais e essa é a matriz de tudo o que criamos, sabido que desde o século XVIII a arte entrou na exaustão. Às vezes sem termos em conta, estamos a fazer algo que outros já plasmaram. É verdade que criação artística configura essa dimensão de cumplicidade, e desde logo somos anotadores e repetidores de arquétipos literários pré-existentes. Escrevemos ou pintamos de maneira X ou Y porque essas formas têm raízes no que diria a essência da vida e do mundo, considerando a nossa condição de homo sapiens, a tradição das cavernas, da Ilíada. Os livros mais belos que ressoam na nossa alma, como uma música: As mil e uma noites. Os livros recentes que nos iluminam aos pilares da Grécia antiga.

- Palavra Comum: Qual consideras que é -ou deveria ser- a relação entre a literatura e outras artes (audiovisual, artes plásticas, música, etc.)?

- Adelino Timóteo: Na criação não deve existir o deve ser. O único lugar de liberdade no mundo é a criação, a arte, em geral. A mim já me aborreceram quando se impunha, no meu país, que a poesia devia ser escrita seguindo um vector da propaganda, de circunstância. Tenho uma lâmina muito bem afiada e cáustica, capaz de oxidar as ideologias e ortodoxias e vários ismos que se nos vão ditando. Eu posso entender o seu deve-ser na perspectiva de inovação e diálogo entre as diferentes formas de criação e representação. Penso que a relação se inscreve no domínio da imagética. O encanto que me dá ler poemas cheios de imagens, simbolismos, rios, mar, expressões, diria, da linguagem e do corpo erótico, fruindo, com gozo, acasalados numa pátina que transforme a imaginação em realidade. Tenho para mim que a literatura é essa realidade abissal: a alquimia. Alquimia de cores, de pessoas, homens e mulheres, alquimia de sentidos. Dos cinco sentidos. Ou de seis. Os odores e cheiros. Onde há uma boa pintura ou um texto literário não raramente me passa isso que aprisiona os sentidos. O que me leva a ter preferência a um ou outro fazedor de arte.

- Palavra Comum: Quais são os teus referentes criativos (num sentido amplo)? Deles, quais reivindicarias por não serem suficientemente conhecidos (ainda)?

- Adelino Timóteo: Os meus referentes criativos são Luís Carlos Patraquim, Rui Knopfli. Já são muito bem conhecidos em Portugal.

- Palavra Comum: Que caminhos (estéticos, de comunicação das obras com a sociedade, etc.) estimas interessantes para a criação literária e cultural hoje?

- Adelino Timóteo: Acho que as redes sociais e a internet rebentaram a escala. Quando comecei a escrever, era tudo muito romântico. Lia um livro e depois o trocava com outros amigos. Depois conversávamos à volta do tal livro. Hoje não. Vejo nas redes sociais alguém pedir aos amigos que enumere dez livros que acharia mais belos. Muitos vão ao google, copeiam os títulos e os colam. Não se conversa em torno do livro com aquele romantismo com que me apaixonara na adolescência. Mas eu defendo que há necessidade de se promoverem tertúlias, círculos de interesses, para que não sejamos uma sociedade acomodada na hipocrisia e a aparência fundada na ilusão de produzir aduladores e admiradores. Tenho cada vez maior felicidade de frequentar os Book Cafes. As revistas literárias electrónicas são também um estímulo inovador.

- Palavra Comum: Fala-nos da tua experiência como escritor moçambicano e africano. Que influências tem sobre a tua escrita?

- Adelino Timóteo: Como escritor, felizmente, eu tenho duas costelas. Uma mais universalizante, outra africana, moçambicana. Por causa da minha educação. Nasci num país mestiço. O meio era um pequeno bairro. Onde o respeito pelo outro, a convivência, a aproximação, me deram as balizas que me permitem estar bem comigo mesmo, no sentido de quem sou eu, donde venho e para onde vou. Eu me vejo mestiço. A mestiçagem a que me refiro não tem sustentáculo na cor. A minha matiz é bantu, fascinado pela Ilha de Moçambique, desde logo ponto da mitonímia em relação a esta nação crioula. A província da Zambézia, o vale do Rio Zambeze, tem os condimentos de uma riqueza crioula, mestiça, um baú, um manancial, não sendo apenas uma riqueza, é um grande filão para oferecer ao mundo. A minha escrita, naturalmente, não é isenta deste mosaico lindo. Não é isenta deste imaginário onde se cruzam portugueses, goeses, índios, galegos, árabes, fenícios, brasileiros e bantus. É isso que augurei oferecer àqueles que gostam de ler-me: um cruzamento de povos e religiões. Do antigo colonizador herdei a língua, na qual escrevo como Caliban que se apropriou da língua como uma ferramenta, um instrumento/arma de arremesso, não para se prostrar ante a ninguém, mas sobretudo para me libertar de todos os Prósperos, que ainda há por diante e à volta. Português é a minha língua materna. Das línguas bantas não consigo formar uma única frase, mas entendo o ndau, sena e pouco de changane.

- Palavra Comum: Que é o que desconhecemos, desde Europa, sobre Moçambique, e consideras que seria relevante dar a conhecer?

- Adelino Timóteo: Não gosto de ser amargo, pois isso dá azo a interpretações com que me podem tomar por angustiado. Daí a razão de me preocupar pouco com entrevistas. A verdade dói. Vamos lá: não sei e muito menos acredito que a Europa nos conheça. O marketing e razões fundadas no passado, infelizmente ainda preso, um pesadelo de que muitos tardam a se libertar, não ajuda, daí toda a propaganda é artificial e manejada por aquelas vozes astutas, os que se parecem com a geada. Em sessenta anos não cabem pelos dedos das mãos e dos pés as vozes que pertençam ao substracto que fez parte do Caliban. A reconciliação tarda. As vozes audíveis são aquelas descendentes do Próspero. A roda do tempo gira em nosso favor. Não é de entristecer. O paternalismo e o factor pigmentação sempre foi uma característica na forma de agir da Europa, mesmo durante os quinhentos anos de ocupação. Se a Europa quiser conhecer África terá que sair do pedestral, e se tiver calçada, terá que descalçar, com a mesma reverência que fazemos aos nossos velhos, para penetrar nas furnas desta cultura, civilização, e de tudo aquilo que desconhece. Quando leio alguns livros que tentam caracterizar os nativos só rio-me. A nossa poeta Noémia de Sousa é premonitória e melhor explica: “… se quiseres compreender-me/ vem debruçar-te sobre minha alma de África,/ nos gemidos dos negros no cais/ nos batuques frenéticos dos muchopes/ na rebeldia dos machanganas/ na estranha melancolia se evolando/ duma canção nativa, noite dentro…// e nada mais me perguntes,/ se é que me queres conhecer…/ Que não sou mais que um búzio de carne,/ onde a revolta de África congelou/ seu grito inchado de esperança”.

- Palavra Comum: Que perspectiva tens sobre a Galiza (e também sobre a sua relação com a Lusofonia)?

- Adelino Timóteo: Eu venho notando já desde a muitos anos que a Galiza é o nono país de língua Portuguesa. Falta é só uma fórmula mágica. Ao nível político ou administrativo. Português e Galego são uma língua comum. Estive a participar num festival de poesia em Salvaterra e fiquei impressionado com a ressonância do português que ali se fala. E não me senti estranho aí, de maneira nenhuma. Mesmo quando estive entre os estudantes na Universidade de Filologia de Compostela. Apenas difere na grafia. Heráclito diz que tudo flui. Camões textualiza: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Penso que o resto ficará entregue ao tempo.

- Palavra Comum: Que projetos tens e quais gostarias chegar a desenvolver?

- Adelino Timóteo: O meu ofício é a caneta e o papel. A tinta e a tela. Durante os últimos seis/sete anos trabalhei doze horas por dia. Tenho três romances por publicar. Dois livros de poesia, um deles está no prelo. Tenho pronto um livro explosivo, de âmbito biográfico. Andei muito tempo na Torre do Tombo a investigar a história recente do meu país e a confrontar com outras fontes. Caberá ao meu editor lançar-se em mangas de camisas. Se há projectos, penso, devo sair de férias. E prolongadas. Mar do Índico. Sol e areia branca.

- Palavra Comum: O que achas de Palavra Comum? Que gostarias de ver também aqui?

- Adelino Timóteo: Acho que a Palavra Comum, como um projecto que nasce na Galiza, transmite-me a respiração e a porosidade no que tange aos sentires dos galegos, neste mundo da lusofonia. E ainda bem. Os galegos devem avançar e não ficarem à margem, o non facere tem seus riscos; transforma os espectadores em seres amargos. Vejo beleza até na amargura, mas quando a dose é elevada ela torna-se indigesta. A Palavra Comum, do pouco que já li, proporciona-me essa leveza, como se os fantasmas estivessem a apartar, reconciliando-me com algo elementar e importante: nunca ter medo do futuro. O futuro, para quem sonha, é uma doença que contagia as mentes liberais e ilumina os fracos. Vejo na Palavra Comum, matizando com Octávio Paz, uma arma carregada de esperança.

Sobre o autor / a autora

Ramiro Torres

Ramiro Torres

(Galiza) Ramiro Torres nasceu na Corunha no 1973 e estudou Graduado Social. Tem publicado poemas na revista 'Poseidónia' e 'Agália', assim como no blogues 'A fábrica' e 'A fábrica da preguiça'. Inaugurou as edições do Grupo Surrealista Galego com o seu livro "Esplendor Arcano".

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